                                               1




http://groups.google.com/group/digitalsource
                                                                                                 2




Pollyanna, a Pequena rf
Eleanor H. Porter
Editorial Pblica, Lisboa, 1990.
Infanto-Juvenil.

Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente  leitura de pessoas
portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor, este ficheiro no pode ser
distribudo para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.

Composto e impresso por
Printer Portuguesa, Indstria Grfica, Lda. Mem Martins - Sintra
para a EDITORIAL PUBLICA, LTDA. com sede na Avenida Poeta Mistral, 6-B - 1000
LISBOA
Traduo e adaptao de Joo Sargao
Capa de Jos Antunes
Ilustraes de C. Labey
Editorial Publica

Digitalizao e Correo:
Dores Cunha



                                        Miss Polly


    Naquela manh de junho, Miss Polly Harrington entrou na sua cozinha um pouco apressada.
Miss Polly nunca fazia movimentos precipitados; tinha mesmo muito orgulho dos seus modos
pausados. Mas hoje estava com pressa, muita pressa.
    Nancy que lavava a loia olhou para ela surpreendida. Trabalhava em casa de Miss Polly
apenas h dois meses mas j conhecia suficientemente a patroa para saber que ela nunca tinha
pressa.
    -- Nancy!
    -- Sim, senhora -- respondeu Nancy alegremente, mas continuando a lavar a loia.
    -- Nancy! -- a voz de Miss Polly soava agora mais severa. -- Quando eu falar contigo deves
parar de trabalhar e ouvir o que eu tenho para dizer.
    Nancy ficou com um ar infeliz. Largou imediatamente o que estava a fazer, cabisbaixa.
    -- Sim, senhora -- disse ela, virando-se apressadamente. -- Continuei a trabalhar porque me
disse para despachar a loia.
    A patroa impacientava-se.
    -- Basta, no te pedi explicaes. S quero que prestes ateno.
    -- Sim, senhora. -- titubeou Nancy, enquanto pensava como era difcil contentar aquela
mulher.
    Nancy nunca tinha trabalhado fora de casa. A sua me, que era doente, enviuvou, vendo-se
desamparada com trs filhos ainda crianas, para alm de Nancy. Foi ento obrigada a pr a
jovem a trabalhar para ajudar ao sustento da casa. Ficou satisfeitssima ao saber de um lugar na
cozinha do solar, no alto da colina. Nancy era de Corners, uma aldeia a 9 quilmetros dali. Antes
                                                                                               3

de comear a trabalhar sabia apenas que Miss Polly Harrington era a dona do velho solar
Harrington e uma das pessoas mais ricas da cidade. Foi apenas h dois meses. Sabia agora que
Miss Polly era uma senhora de poucos sorrisos, sempre pronta a zangar-se se alguma faca caa ou
alguma porta batia.
     -- Quando acabares o trabalho da manh, limpa o quartinho do sto, ao cimo das escadas, e
fazes a cama de lavado. Tira de l os caixotes e limpa-o.
     -- E onde ponho as coisas que l esto?
     -- Na parte da frente do sto -- Miss Polly hesitou, continuando: -- A minha sobrinha,
Miss Pollyanna Whittier vem viver comigo. Tem onze anos e vai dormir naquele quarto.
     -- Vamos c ter uma menina, Miss Harrington? Que bom que vai ser! -- exclamou Nancy
pensando na alegria que as suas irmzinhas, em casa, transmitiam.
     -- Sim? No tenho a certeza -- disse Miss Polly secamente. -- No entanto, tenciono fazer o
melhor que puder. Sou boa e conheo o meu dever.
     Nancy corou que nem um tomate.
     -- Com certeza senhora, estava s a pensar como uma menina aqui lhe podia trazer um
pouco de alegria.
     -- Obrigada -- disse a senhora com secura --, mas no vejo que haja alguma necessidade
disso.
     -- Mas, certamente que h de estar contente por a sua sobrinha vir para c -- atreveu-se
Nancy a dizer, achando que devia de algum modo preparar as boas vindas  orfzinha que estava
prestes a chegar.
     Miss Polly ergueu altivamente o queixo.
     --  justamente por ter tido uma irm suficientemente parva para casar e dar  luz uma
criana que no fazia falta nenhuma neste mundo j superpovoado, que no vejo por que razo
terei de ser eu a tomar conta dela. No entanto, como j disse, sei quais so os meus deveres. V
se limpas bem os cantos do quarto, Nancy! -- terminou ela rudemente, deixando a cozinha.
     -- Sim, senhora -- respondeu Nancy retomando o seu trabalho.
     No seu quarto, Miss Polly pegou mais uma vez na carta que tinha recebido h dois dias da
longnqua cidade do oeste e que tanto a tinha surpreendido. A carta estava dirigida a "Miss Polly
Harrington, Bel dingsville, Vermont" e dizia o seguinte:
    "Cara senhora,
    Lamento inform-la de que o reverendo John Whittier morreu h duas semanas, deixando
uma menina com onze anos de idade. No deixou praticamente nada para alm de alguns livros
pois, como certamente sabe, era pastor nesta pequena parquia e tinha um magro salrio.
    Suponho que ele era marido da sua falecida irm. Antes de falecer, ele deu-me a entender que
o relacionamento entre as duas famlias no era o melhor. Pensou, no entanto, que, em ateno 
memria da sua irm, talvez quisesse tomar conta da criana e educ-la no seio dos seus outros
parentes do este.  por isso que lhe estou a escrever.
    Quando receber esta carta, a menina estar pronta a partir e se puder ficar com ela
agradecamos que nos respondesse manifestando o seu acordo, visto que h um casal que seguir em
breve para o este e que a pode levar at Boston, de onde ela poder seguir de comboio para
Beldingsville. A senhora ser ento informada do comboio em que ir Pollyanna. Sem outro
assunto de momento, apresento os meus respeitosos cumprimentos.
    Jeremia O. White"
    Com um gesto brusco, Miss Polly dobrou a carta e meteu-a no envelope. No dia anterior
tinha respondido dizendo que ficava, naturalmente, com a criana. Era, para ela, uma situao
desagradvel, mas sabia quais eram os seus deveres.
    Estava agora sentada pensativamente com a carta nas mos e as suas reflexes recuaram at 
sua irm Jenny, a me da criana e at  poca em que Jenny, com vinte anos, tinha teimado em
                                                                                               4

casar com o jovem pastor, apesar da oposio da famlia. Havia um homem abastado que a
pretendia e a famlia preferia este ao pastor. Mas Jenny no cedera. O homem, embora tivesse
mais dinheiro, era mais velho, enquanto o pastor tinha apenas entusiasmo e ideais, bem como um
corao cheio de amor. Jenny tinha preferido estes atributos, muito naturalmente, alis. Casou
ento com o pastor e foi para o sul como esposa de missionrio.
    Pouco mais souberam dela. Miss Polly lembrava-se bem, apesar de ter apenas quinze anos.
Era a mais nova. A famlia pouco mais soube da esposa do missionrio. Jenny tinha escrito algum
tempo depois, comunicando o nascimento do seu beb Pollyanna, assim chamado em honra das
suas irms Polly e Anna. Tinha tido outros bebs que morreram. Foi a ltima vez que Jenny
escreveu e h alguns anos tinha chegado a notcia do seu falecimento atravs de uma carta
lacnica do prprio pastor, com origem numa cidadezinha do oeste.
        Entretanto, o tempo no tinha parado para os moradores do solar da colina. Miss Polly,
com os olhos postos no vale, refletiu nas mudanas ocorridas durante aqueles 25 anos. Agora
tinha 40 anos e estava completamente s no mundo. O pai, a me e as irms, tinham todos
morrido. Desde h uns anos a esta parte, era ela a nica dona dos milhares de dlares deixados
pelo pai. Algumas pessoas tinham abertamente lamentado a sua vida solitria, aconselhando-a a
cultivar amigos e companhias, mas ela rejeitou todos os conselhos. No se sentia sozinha.
Gostava de estar assim. Gostava de tranqilidade. E, agora...
        Miss Polly ergueu-se de sobrolho franzido, refletindo. Claro que estava satisfeita,
considerava-se uma mulher de bem e no s conhecia o seu dever como tambm tinha suficiente
fora de carter para o cumprir.
        Mas, Pollyanna! que nome to ridculo!




                               Nancy e o velho Tom


     No pequeno quarto do sto, Nancy varria com vigor, prestando ateno especial aos cantos.
Por vezes, o vigor que punha no seu trabalho era mais para desabafar do que por zelo. Nancy,
apesar da sua submisso receosa  patroa, no era nenhuma santa.
     -- S queria poder varrer os cantos da alma dela! -- murmurou entre dentes, marcando bem
as slabas com golpes de vassoura. -- Bem precisavam de limpeza! Que idia esta de pr a criana
aqui em cima onde faz calor no vero e frio no inverno, com tantos quartos  escolha neste
casaro! Crianas que no fazem falta! Como pode ela dizer uma coisa destas?
     Durante algum tempo trabalhou em silncio. Tendo concludo o seu trabalho, olhou
tristemente para o quartinho quase nu.
     -- Bom j est, pelo menos da minha parte. Ao menos j no est sujo, embora pouco mais
haja. Pobre criana! Que belo lugar para pr uma criana s e desamparada! -- concluiu ela
saindo e fechando a porta com estrondo. -- Ai, o que eu fiz! -- exclamou, mordendo os lbios.
     Logo de seguida pensou resolutamente:
     -- No me ralo, espero que tenha ouvido a porta a bater!
     No jardim, nessa tarde, Nancy disps de alguns minutos para conversar com o velho Tom
que h muitos anos tratava do jardim.
     -- Mr. Tom -- comeou Nancy, lanando um olhar rpido sobre o ombro para se certificar
de que no estava a ser observada -- sabe que vem uma menina viver com Miss Polly?
     -- Quem? -- perguntou o velhote endireitando-se com dificuldade.
     -- Uma menina. Vem viver com Miss Polly.
     -- Est a brincar! -- disse o velhote descrente. Porque no me diz antes que o sol amanh se
                                                                                                 5

vai pr no oriente?
    -- Mas  verdade; ela disse- me.  a sobrinha dela e tem onze anos.
    O homem ficou boquiaberto.
    -- Deve ser a filhinha de Miss Jenny! Todos os outros morreram. Louvado seja Deus!
    -- Quem era Miss Jenny?
    -- Era um anjo cado dos cus -- disse o homem com fervor. -- Era a filha mais velha dos
falecidos patres. Tinha vinte anos quando se casou e partiu daqui. Todos os filhos dela
morreram, exceto a ltima e deve ser essa que vem agora.
    -- Tem onze anos.
    -- Deve ser isso -- assentiu o homem.
    -- E vai dormir no sto, parece impossvel! -- desabafou Nancy olhando de novo sobre o
ombro para a casa atrs de si.
    O velho Tom resmungou, mas logo a seguir surgiu um sorriso curioso nos seus lbios.
    -- Estava a pensar no que vai fazer Miss Polly com uma criana em casa.
    -- Pois eu pergunto antes o que vai fazer uma criana com Miss Polly nesta casa --
exclamou Nancy.
    O velhote riu.
    -- Parece que no gosta de Miss Polly.
    -- Como se algum pudesse gostar dela!
    O velho Tom sorriu de modo estranho e continuando a trabalhar disse vagarosamente:
    -- Se calhar no conhece o caso amoroso de Miss Polly.
    -- Caso amoroso, ela? No, e creio que ningum sabe!
    -- Sim, sabem -- disse o velhote. -- E o sujeito ainda vive nesta cidade.
    -- Quem  ele?
    -- Isso no posso dizer.
    O velhote endireitou-se de novo. Sentia o orgulho de ser, h tantos anos, um leal servidor da
famlia.
    -- Mas parece impossvel. Ela e um amante... -- voltou Nancy  carga.
    O velho Tom abanou a cabea.
-- Voc no conheceu Miss Polly como eu. Era muito bonita e se no se desleixasse, ainda
poderia s-lo.
-- Bonita! Miss Polly?!
-- Sim, se ela soltasse o cabelo e o penteasse, e se voltasse a usar aqueles vestidos lindos cheios
de laarotes, havia de ver como  bonita! A Miss Polly no  velha, Nancy.
-- Se no , imita muito bem!
-- Sim, eu sei; isso comeou com o problema do seu caso amoroso. Desde ento parece que
destila veneno.  por isso que  to difcil lidar com ela.
--  verdade, por mais que se tente no conseguimos agradar-lhe! Se no precisasse de ganhar
dinheiro por causa da famlia que tenho em casa, no ficava aqui. Mas um dia farto-me e digo
adeus.
O velho Tom disse que sim com a cabea.
-- Eu sei, j senti isso. -- E retomou o trabalho.
-- Nancy! -- ouviu-se gritar.
-- Sim, senhora! -- respondeu Nancy apressando-se para a casa.
                                                                                               6




                            A chegada de Pollyanna

        Finalmente chegou o telegrama anunciando a chegada de Pollyanna a Beldingsville, no dia
seguinte, 25 de junho, s quatro horas da tarde. Miss Polly leu o telegrama, franziu o sobrolho e
subiu as escadas at o quarto do sto. Continuou de sobrolho franzido enquanto olhava em
redor.
        O quarto dispunha de uma pequena cama que estava muito bem feita, dois cadeires, um
lavatrio, uma pequena cmoda sem espelho e uma mesinha. No tinha cortinados nem quadros
nas paredes. Durante todo o dia, o sol tinha ali batido e o quartinho parecia um forno. Como no
havia redes nas janelas, estas tinham que se conservar fechadas. Ouvia- se uma grande mosca a
zumbir desesperada para sair.
        Miss Polly matou a mosca e atirou-a pela janela. Deu um jeito numa cadeira e, carrancuda,
abandonou o quarto.
        -- Nancy! -- chamou ela minutos depois,  porta da cozinha. -- Encontrei uma mosca
l em cima no quarto de Miss Pollyanna. A janela deve ter estado aberta. J mandei vir
mosquiteiros, mas at que cheguem v se mantns as janelas fechadas. A minha sobrinha chega
amanh s quatro da tarde. Quero que a vs esperar  estao. Timothy leva-te na charrete. O
telegrama diz que ela tem o cabelo claro, traz um vestido vermelho e um chapu de palha.  tudo
o que sei, mas creio que  o suficiente.
        -- Sim, senhora, mas...
        Miss Polly percebeu o que ela queria dizer pois franziu logo o sobrolho e disse
asperamente, no admitindo qualquer rplica:
        -- No, eu no vou. Acho que no  preciso.  tudo, por agora.
                                                                                                 7

         E foi-se embora. Os preparativos de Miss Polly para a chegada da sua sobrinha Pollyanna
estavam completos.
         Na cozinha, Nancy assentou com fora o ferro de engomar e pensou com os seus botes:
"Cabelo claro, vestido vermelho e chapu de palha!"  tudo o que ela sabe! Eu tinha vergonha se no
fosse eu prpria esperar a minha nica sobrinha que chegasse depois de ter atravessado um
continente inteiro!
         No dia seguinte, Timothy e Nancy partiram na charrete para a estao. Timothy era filho
do velho Tom. Na cidade dizia-se que, se o velho Tom era o brao direito de Miss Polly, ento
Timothy era o brao esquerdo. Era um bom rapaz e, alm disso, bem parecido. Apesar de Nancy
estar h pouco tempo naquela casa, j eram bons amigos. Hoje, porm, Nancy estava demasiado
compenetrada na sua misso para conversar como de costume e foi quase em silncio que se
dirigiram  estao para aguardar o comboio.
         Repetia para si vezes sem conta: "Cabelo claro, vestido vermelho e chapu de palha". No
conseguia deixar de interrogar-se sobre o gnero de criana que esta Pollyanna seria.
         -- Espero que seja calma e sensvel e no deixe cair facas nem bata com as portas --
disse ela para Timothy.
         -- Se no for, sabe-se l o que nos vai acontecer -- resmungou Timothy. -- Imagina
Miss Polly com uma criana barulhenta! Era o fim do mundo!
         -- Oh, Timothy, acho que ela fez mal em me mandar a mim -- disse Nancy enquanto se
precipitava para um stio onde pudesse observar os passageiros no apeadeiro.
No demorou muito a que Nancy a visse. Era uma rapariguinha esguia com um vestido vermelho
e duas tranas que pendiam ao longo das costas. Sob o chapu, uma carinha ansiosa olhava para a
esquerda e para a direita  procura de algum.
         Nancy identificou logo a criana, mas durante algum tempo no conseguiu controlar
suficientemente os joelhos trmulos para se dirigir a ela. Finalmente, aproximou-se.
         --  Miss Pollyanna?
         Logo de seguida sentiu dois braos vestidos de vermelho  volta do pescoo.
         -- Oh, estou to contente por a ver! -- gritou-lhe uma voz ao ouvido. -- Claro que sou
Pollyanna e estou to contente por ter vindo esperar-me! Estava  espera disso.
         -- Estava? -- interrogou Nancy, perguntando a si prpria como Pollyanna poderia
conhec--la. -- Estava  minha espera? -- repetiu enquanto tentava endireitar o chapu.
         -- Sim, durante todo o tempo procurei imaginar a sua cara -- gritava a menina em bicos
de ps, enquanto mirava a embaraada Nancy dos ps  cabea. -- Agora, estou muito contente
por ser assim.
         Nancy estava aliviada por Timothy ter vindo com ela. As palavras de Pollyanna tinham-na
confundido.
         -- Este  Timothy. Traz alguma mala?
         -- Sim, trago, tenho uma nova. As senhoras da caridade compraram-me uma, foi muito
simptico da parte delas. Trago uma coisa que o senhor Grey disse ser um cheque e devo
entregar-lho antes de ir buscar a minha mala. Mr. Grey  o marido de Mrs. Grey. So primos da
mulher do clrigo Carr. Viajei para este com eles, so simpatiqussimos! Aqui est ele! -- disse
ela, enquanto apresentava o cheque depois de revolver o saco.
         Nancy respirou fundo. Depois olhou para Timothy. Os olhos de Timothy estavam
deliberadamente orientados para outro lado.
         Finalmente partiram os trs com a mala de Pollyanna na retaguarda e a prpria Pollyanna
encolhida entre Nancy e Timothy. A rapariguinha falava ininterruptamente, fazia perguntas e
comentrios, e Nancy tinha grande dificuldade em acompanh- la.
         --  longe daqui? Adoro andar de charrete, mas tambm estou desejosa de chegar. Que
linda rua! Eu sabia que ia ser bonito, o pai contou-me.
         Parou ento de falar com um soluo. Nancy olhou apreensivamente e viu que o queixo
dela tremia e os olhos estavam marejados de lgrimas. Mas num instante recomps-se.
                                                                                                 8

         -- O pai contou-me tudo. Ah,  verdade! Tenho que lhe explicar. Trago este vestido
vermelho e no venho de negro porque no existia roupa negra nas coisas da ltima coleta. S
havia um vestido de senhora que a mulher do clrigo disse que no era prprio para mim, alm
de que estava gasto nos cotovelos e tinha ndoas brancas. Algumas das senhoras da caridade
queriam comprar-me um vestido negro e um chapu, mas as outras acharam que o dinheiro devia
ir para o tapete vermelho que elas queriam comprar para a igreja. Mrs. White disse que estava
bem, pois de qualquer maneira ela no gostava de ver crianas de negro. Ela gostava de crianas,
claro, mas no vestidas de negro!
         Pollyanna parou um pouco para respirar e Nancy conseguiu dizer:
         -- Vem muito bem!
         -- Ainda bem que acha isso. Era muito mais difcil estar contente vestida de negro.
         -- Contente! -- disse Nancy surpreendida, aproveitando uma pausa.
         -- Sim, por o pai ter partido para o cu para ir ter com a me e os meus irmos. Ele disse
que eu devia ficar feliz. Mas mesmo assim  um pouco difcil, mesmo vestida de vermelho,
porque eu precisava muito dele, principalmente depois da me e os irmos terem ido para o cu.
Enquanto que eu no tinha mais ningum a no ser as senhoras da caridade. Mas, agora tenho a
certeza de que ser mais fcil porque a tenho a si, tia Polly. Estou to feliz por a ter a si!
         Os sentimentos de compaixo de Nancy em relao  rapariguinha transformaram-se em
sobressalto.
         -- Mas est enganada menina. Eu sou a Nancy. No sou a sua tia Polly!
         -- No ? -- perguntou a criana quase desmaiando.
         -- No, sou a Nancy. Nunca pensei que pudesse tomar-me por ela. No somos nada
parecidas!
         Timothy sorriu ligeiramente, mas Nancy estava demasiado perturbada para responder ao
seu olhar divertido.
         -- Mas quem  voc? No parece nada uma empregada!
         Desta vez Timothy no conteve um riso.
         -- Sou Nancy, a empregada da sua tia. Fao tudo menos lavar a roupa. Isso  o trabalho
de Miss Durgin.
         -- Mas existe uma tia Polly? -- perguntou a criana ansiosamente.
         -- Disso pode estar certa -- disse Timothy.
         Pollyanna ficou mais descansada.
         -- Ah, ento est bem. -- Seguiu-se um momento de silncio, depois ela prosseguiu
alegremente. -- Sabem? Apesar de tudo estou contente por ela no me ter vindo esperar porque,
assim, alm de vos ter a vocs, ainda a vou conhecer a ela.
         Nancy assoou-se. Timothy olhou para ela com um sorriso de admirao.
         -- Isso  muito simptico da sua parte. No achas que deves agradecer  menina, Nancy?
         -- Estava a pensar nisso... Sim,  muita gentileza sua -- titubeou Nancy.
         Pollyanna fez um sinal de contentamento.
         -- Estou to ansiosa por a ver.  a nica famlia que me resta e durante muito tempo no
sabia que ela existia. Depois o pai disse-me que ela vivia numa casa grande e bonita no cimo de
uma colina.
         --  verdade, e j a pode ver daqui -- disse Nancy. --  aquela casa branca, grande com
as persianas verdes, em frente.
         -- Mas que bonita! E tem tantas rvores e relva  volta! Nunca vi tanta relva. A minha tia
Polly  rica, Nancy?
         -- Sim, Miss.
         -- Ainda bem. Deve ser timo ter muito dinheiro. Nunca conheci ningum rico. Com
algum dinheiro, s conheci os White. Tinham tapetes em todas as salas e gelados ao domingo. A
tia Polly tem gelados ao domingo?
         Nancy abanou a cabea, enquanto cerrava os lbios e lanava um olhar a Timothy.
                                                                                                  9

        -- No, Miss. Creio que a sua tia no gosta de gelados. Pelo menos nunca vi nenhum 
mesa.
        No rosto de Pollyanna espelhou- se uma expresso triste.
        -- Mas que pena, no percebo como  que ela no gosta de gelados. Bom, de qualquer
maneira talvez seja prefervel, porque os gelados em grande quantidade podem fazer dores de
barriga. Talvez a tia Polly tenha tapetes em casa?
        -- Sim, ela tem tapetes.
        -- Em todas as salas?
        -- Em quase todas -- respondeu Nancy lembrando-se que o quartinho do sto no
tinha tapete.
        -- Ainda bem, adoro tapetes! Ns no tnhamos quase nenhuns. Apenas dois pequenos e
que tinham duas ndoas de tinta. E quadros, gosta de quadros?
        -- No sei -- respondeu Nancy meio encabulada.
        -- Eu gosto. Ns no tnhamos quadros.
        S quando Timothy descarregou a mala  que Nancy teve uma oportunidade para lhe
segredar ao ouvido:
        -- Nunca mais fales em ir-te embora, Thimothy Durgin!
        -- Ir embora? Claro que no! -- respondeu o jovem. -- Agora vai ser muito mais
divertido com essa mida a rondar por a!
        -- Divertido! -- repetiu Nancy indignada. -- Acho que, para essa pobre criana, no vai
ser nada disso quando as duas tiverem que viver juntas. Acho que ela vai precisar de um refgio.
E eu tenciono ser esse refgio -- disse ela, virando-se em seguida para Pollyanna e conduzindo-a
pelas escadas acima.




                                  O quarto do sto


        Miss Polly Harrington no se levantou para ir ao encontro da sobrinha. Quando Nancy e
a menina entraram na sala, ela limitou-se a erguer os olhos do livro que estava a ler e a estender a
mo num gesto formal.
        -- Como ests, Pollyanna? -- mas no teve tempo para continuar. Pollyanna tinha j
atravessado a sala a correr atirando-se para o colo da tia surpreendida.
        -- Oh, tia Polly, tia Polly! Estou to contente por me ter deixado vir viver consigo --
disse ela soluando. -- No imagina como  bom t-la a si e  Nancy e tudo isto depois de ter
tido apenas a ajuda das senhoras da caridade!
        -- Acredito. Embora eu no tenha tido o prazer de conhecer as tuas senhoras da caridade
-- respondeu Miss Polly rigidamente, tentando libertar-se dos dedos que a agarravam e dirigindo
um olhar severo a Nancy que se encontrava ainda  porta da sala. -- Nancy, j chega. Podes ir.
Pollyanna, v se te portas bem e se tens termos. Ainda no olhei bem para ti.
        Pollyanna afastou-se um pouco, rindo nervosamente.
        -- No, mas tambm eu no tenho muito para ver. Tenho que lhe explicar porque razo
trago este vestido vermelho.
        -- Isso no interessa -- interrompeu Miss Polly rudemente. -- Trazes alguma mala,
calculo?
        -- Sim, sim, tia Polly. As senhoras da caridade deram--me uma linda mala mas trago
pouca coisa. Vm tambm uns livros do pai, pois a Mrs. White disse que eu devia conserv-los. O
pai...
        -- Pollyanna -- interrompeu a tia de novo. -- H uma coisa que eu te quero dizer, j.
                                                                                                 10

No quero que estejas sempre a falar do teu pai.
         A pequena ficou atrapalhada e surpreendida.
         -- Mas por que, tia Polly?
         -- Vamos l acima ver o teu quarto. A tua mala j l deve estar. Eu disse a Thimothy para
a levar. Segue-me, Pollyanna.
         Em silncio Pollyanna seguiu a tia, saindo da sala. Tinha os olhos inundados de lgrimas
mas mantinha o queixo erguido.
          "Afinal, acho que  melhor que a tia no queira que eu fale do pai -- pensou Pollyanna.
"Ser mais fcil para mim no falar nele."
         Convencida de novo sobre a bondade da tia, Pollyanna disfarou as lgrimas e olhou para
ela com enlevo.
         Iam agora a caminho das escadas.  frente, ouvia-se o restolhar do vestido negro da tia.
Por detrs dela conseguiu ver, atravs de uma porta aberta, belos tapetes com bonitos motivos e
cadeires forrados a cetim. Sob os seus ps, um tapete maravilhoso dava uma sensao de musgo.
Por todos os lados se viam belos quadros e o sol a passar atravs de finos cortinados.
         -- Oh, tia Polly, tia Polly! -- disse a menina reconfortada. -- Mas que bela casa tem!
Deve ser muito feliz por ser to rica!
         -- Pollyanna! -- respondeu a tia com severidade, virando-se abruptamente ao chegar ao
cimo das escadas. -- Parece impossvel que me fales desse modo!
         -- Mas por que, tia Polly, no  rica?
         -- Claro que no, Pollyanna. At agora nunca cometi o pecado de me orgulhar dos bens
que o Senhor me concedeu -- declarou a senhora.
         Miss Polly virou-se e percorreu o corredor em direo  porta das escadas que conduziam
ao sto. Agora, sentia-se satisfeita por ter posto a criana no quarto do sto. Inicialmente a sua
idia tinha sido a de pr a sobrinha to longe quanto possvel de si, ao mesmo tempo que tomava
precaues para que a criana, com a sua leviandade natural, no estragasse algum mvel valioso.
Assim, com toda esta vaidade a manifestar-se to cedo ela sentia-se ainda mais satisfeita por o
quarto que lhe estava destinado estar to pobremente mobiliado.
         Pollyanna seguiu ansiosamente os passos da tia. Os seus grandes olhos azuis tentavam,
ainda com maior ansiedade, olhar em todas as direes ao mesmo tempo, para que nada de
bonito ou interessante nesta casa maravilhosa ficasse sem ser visto. O que mais a excitava era a
expectativa de saber qual daquelas fascinantes portas ocultava o seu quarto. O belo quarto cheio
de cortinas, tapetes e quadros que seria o seu. A tia abriu, ento, com brusquido uma porta e
comeou a subir outras escadas.
         Ali, pouco havia para ver. Dos lados eram s paredes nuas, cor-de-rosa. No cimo das
escadas era apenas um espao sombrio onde, nos cantos, o telhado quase chegava ao cho, e
onde estavam empilhados inmeros males e arcas. Estava quente e abafado. Instintivamente,
Pollyanna levantou mais a cabea. Ali sentia-se dificuldade em respirar. Viu, depois, que a tia
tinha aberto uma porta,  direita.
         -- Aqui  o teu quarto, Pollyanna. Como vs j c est a tua mala. Tens a chave?
         Pollyanna disse, tristemente, que sim com a cabea. Estava um pouco assustada. A tia fez
uma expresso severa.
         -- Quando te fao uma pergunta, Pollyanna, quero que me respondas em voz alta e no
te limites a fazer movimentos com a cabea.
         -- Sim, tia Polly.
         -- Obrigada. Assim  melhor. Penso que tens aqui tudo o que precisas -- acrescentou
ela, deitando um olhar ao toalheiro do lavatrio. -- Vou mandar a Nancy c acima para te ajudar
a desfazer a mala. O jantar  s seis horas -- concluiu, enquanto deixava o quarto e descia as
escadas.
         Durante alguns momentos, depois de a tia se ter ido embora, Pollyanna manteve-e de p,
quieta, olhando para a porta. Depois virou os seus olhos grandes para as paredes nuas, para o
                                                                                             11

cho sem tapetes e as janelas sem cortinados. Finalmente, pousou a vista na pequena mala que
ainda no h muito tempo estava naquele quartinho da longnqua casa do oeste. A seguir, deixou-
se cair de joelhos, tapando o rosto com as mos.
         Nancy encontrou-a nesta posio quando chegou, alguns minutos depois.
         -- Bem receava encontr-la assim, pobre criana! -- lamentou ela inclinando-se para o
cho e segurando a menina nos braos.
         Pollyanna sacudiu a cabea.
         -- Mas eu sou m, Nancy, sou muito m -- soluou ela. -- S no percebo porque  que
Deus e os anjos precisavam mais do meu pai do que eu.
         -- Claro que no -- disse Nancy para a consolar.
         -- Oh Nancy! -- no rosto de Pollyanna as lgrimas tinham secado, ao mesmo tempo em
que surgia uma expresso horrorizada.
         Nancy procurou sorrir atrapalhada, enquanto enxugava os seus prprios olhos.
         -- No era bem isso que eu queria dizer -- tentou ela emendar. -- Vamos abrir a mala e
arrumar os seus vestidos.
         Ainda triste, Pollyanna foi buscar a chave.
         -- Mas no h a grande coisa.
         -- Ento fica tudo arrumado num instante -- disse Nancy.
         Pollyanna fez um grande sorriso.
         --  isso! Posso ficar contente com isso, no posso? -- gritou ela.
         Nancy olhou espantada.
         -- Sim, claro -- respondeu, um pouco confusa.
         As mos competentes de Nancy num instante retiraram da mala os livros, as roupas
interiores e os poucos vestidos sem graa de Pollyanna. Esta, sorrindo agora corajosamente,
comeou, numa roda-viva, a pendurar os vestidos no armrio, a empilhar os livros em cima da
mesa e a arrumar as roupas interiores nas gavetas.
         -- Tenho a certeza de que vai ser um quarto muito agradvel, no acha?
         Nancy no respondeu. Estava aparentemente muito ocupada com a cabea metida na
mala. Pollyanna de p, junto  cmoda, olhava um pouco desconsoladamente para as paredes
nuas.
         -- E, ainda bem que no h nenhum espelho, pois assim no vejo as minhas sardas.
         Nancy fez um rudo estranho com a boca. Mas, quando Pollyanna se voltou, ela
continuava com a cabea dentro da mala. Alguns minutos depois, junto a uma das janelas,
Pollyanna deu um grito de alegria, batendo as palmas.
         -- Oh Nancy, ainda no tinha visto. Olhe! Ali, aquelas rvores, as casas e aquele lindo
campanrio da igreja e o rio a brilhar como um fio de prata. Com coisas to bonitas para ver no
so precisos quadros nenhuns. Ainda bem que ela me deu este quarto!
         Para grande surpresa de Pollyanna, Nancy desatou a chorar. A menina correu para ela.
         -- Nancy, o que foi? -- depois, receosamente, perguntou: -- Este no era o seu quarto,
pois no?
         -- O meu quarto? No -- exclamou Nancy com veemncia, procurando refrear as
lgrimas. -- A menina  como um lindo anjinho vindo do cu e que certas pessoas no merecem.
Oh, l est ela a chamar! -- Nancy correu para fora do quarto e desceu apressadamente as
escadas.
         Agora sozinha, Pollyanna voltou para o seu "quadro", como ela chamava  bela vista que
se desfrutava da janela. Passado um bocado tentou abrir a vidraa. Parecia-lhe que no ia
conseguir agentar mais tempo aquele calor insuportvel. Felizmente conseguiu abri-la. Mais um
esforo e a janela ficou completamente aberta. Pollyanna debruou-se na janela e respirou aquele
ar fresco e puro.
         Correu depois para a outra janela que, em breve, tambm cedeu aos seus dedos ansiosos.
Uma mosca passou-lhe debaixo do nariz, zumbindo pelo quarto. Depois entrou outra, e mais
                                                                                              12

outra. Mas Pollyanna pouco se ralou. Tinha feito uma descoberta maravilhosa. Junto  janela uma
rvore enorme alargava os grandes ramos. Para Pollyanna pareciam braos estendidos que a
convidavam. Riu alto.
         "Acho que consigo", disse ela para si prpria. Logo em seguida, trepou para o parapeito
da janela. Dali era fcil saltar para o ramo mais prximo. Depois, baloiando como um macaco,
passou de ramo para ramo at atingir o mais baixo. O salto para o cho era, mesmo para
Pollyanna, habituada a trepar s rvores, um pouco assustador. No entanto, ela l se decidiu,
sustendo a respirao, dependurada nos seus bracinhos e aterrando de gatas na relva macia.
Levantou-se e olhou ansiosamente em redor.
         Estava nas traseiras da casa. Diante dela, estendia-se um jardim, onde trabalhava um
velhote curvado. Para l do jardim um carreiro atravs de um campo aberto conduzia a um
morro no cimo do qual se erguia um pinheiro junto a um enorme rochedo. Para Pollyanna,
naquele momento, parecia existir apenas um lugar no mundo onde valia a pena estar: o alto
daquele grande rochedo.
         Numa corrida e dando uma volta rpida, Pollyanna contornou o velhote curvado, abriu
caminho por entre as filas de plantas e, j um pouco ofegante, chegou ao carreiro que percorria o
campo aberto. Depois, com determinao, comeou a trepar. Naquela altura, j comeava a achar
o rochedo longe, embora parecesse to perto visto da janela!
         Quinze minutos mais tarde, o grande relgio do corredor do solar de Harrington bateu as
seis horas. Precisamente  ltima badalada, Nancy tocou o sino para jantar.
         Passaram um, dois, trs minutos. Miss Polly carrancuda batia com o p no cho. Um
pouco desajeitadamente ps-se de p, percorreu o corredor e olhou para cima impaciente.
Durante um minuto, escutou atentamente. Depois, dirigiu-se para a sala de jantar.
         -- Nancy -- disse ela decididamente logo que a criada apareceu -- a minha sobrinha est
atrasada. Mas no quero que a chames -- acrescentou apressadamente quando Nancy esboou
um movimento no sentido da porta. -- Eu disse-lhe a que horas era o jantar, agora tem que
sofrer as conseqncias. Pode comear imediatamente a aprender a ser pontual. Quando descer,
podes dar-lhe po e leite na cozinha.
         -- Sim, senhora.
         Logo que pde, a seguir ao jantar, Nancy subiu precipitadamente as escadas para o sto.
         -- Po e leite. Francamente! Coitadinha, deve ter adormecido! -- logo que abriu a porta
deu um grito de susto. -- Onde est? Onde se ter metido? -- perguntava ela enquanto
procurava dentro do armrio, debaixo da cama e at dentro da mala e na bacia de gua. Logo a
seguir, correu escada abaixo e foi ter com o velho Tom ao jardim.
         -- Mr. Tom, Mr. Tom, a menina desapareceu! Deve ter subido para o cu de onde veio,
pobre cordeirinho! E a tia que me disse para lhe dar po e leite na cozinha. Neste momento deve
estar a comer o manjar dos anjos, garanto-lhe eu!
         O velhote endireitou-se.
         -- Partiu? Para o cu? -- repetiu ele com ar estupefato, olhando inconscientemente para
o cu azul onde j se punha o sol. -- Bom, Nancy, parece-me que ela tentou realmente chegar
to alto quanto pde -- disse ele apontando com o dedo retorcido para uma figurinha esguia que
se erguia no cimo do grande rochedo.
         -- No. Se depender de mim ela no vai para o cu esta noite -- declarou Nancy,
decididamente. -- Se a senhora perguntar, diga-lhe que eu no me esqueci da loia mas que fui
passear -- disse ela dirigindo-se para o carreiro que conduzia ao campo aberto.
                                                                                          13




                              O jogo de Pollyanna


        -- Mas que susto me pregou, Miss Pollyanna -- gritou Nancy enquanto corria em
direo ao rochedo ao longo do qual Pollyanna tinha acabado de deslizar.
        -- Assustou-se? Ah, desculpe, mas no precisa de se preocupar comigo, Nancy. O pai e
as senhoras da caridade tambm se preocupavam, at que se convenceram de que eu voltava
sempre bem.
        -- Mas eu nem sabia que se tinha ido embora! -- exclamou Nancy, enquanto agarrava na
mo da menina, apressando-se a descer o morro. -- No a vi sair, nem ningum viu. At parece
que voou do telhado.
        --  verdade, quase que voei, desci pela rvore!
        Nancy parou bruscamente.
        -- Desceu por onde?
        -- Desci pela rvore, junto  minha janela.
        -- Minha Nossa Senhora! -- exclamou Nancy, recomeando a correr. -- Nem imagino o
que a sua tia dir quando souber!
        -- No faz mal, eu digo-lhe -- prometeu a menina alegremente.
        -- Por favor, no lhe diga nada!
        -- Por que, no me diga que ela se preocupa com isso! -- respondeu Pollyanna
imperturbvel.
        -- No... Sim. No importa. Estou muito preocupada com o que ela possa dizer -- disse
Nancy determinada a evitar que Pollyanna fosse repreendida. Mas  melhor despacharmo-nos,
tenho que lavar a loia.
                                                                                                14

          -- Eu ajudo -- prometeu logo Pollyanna.
          -- Oh, Miss Pollyanna! No pense nisso.
          Por momentos, fez-se silncio. O cu escurecia rapidamente. Pollyanna agarrou-se com
mais firmeza ao brao da sua amiga.
          -- Apesar de tudo, acho que estou contente por voc se ter assustado, porque assim veio
 minha procura.
          -- Pobre cordeirinho! E deve estar cheia de fome. Receio que tenha de comer apenas po
e leite na cozinha comigo. A sua tia no gostou nada que no tivesse descido para o jantar.
          -- Mas eu no podia. Estava l em cima.
          -- Sim, mas ela no sabia isso -- observou Nancy. -- Tenho pena que tenha de ser po e
leite.
          -- No faz mal. Eu estou contente.
          -- Contente? Por que?
          -- Porque gosto de po e de leite e gosto de comer consigo. No tenho dificuldade
nenhuma em estar contente com isso.
          -- A menina parece que no tem dificuldade em ficar contente seja com o que for --
respondeu Nancy, recordando as tentativas de Pollyanna para ficar contente com o quartinho do
sto.
          Pollyanna sorriu docemente.
          -- Pois o jogo  mesmo isso.
          -- O jogo?
          -- Sim, o "jogo do contentamento".
          -- Mas de que est a falar?
          --  um jogo. O pai ensinou-mo e  muito giro -- respondeu Pollyanna. -- Sempre o
jogamos, desde que eu era pequena. Ele ensinou-o tambm s senhoras da caridade e algumas
delas tambm o jogavam.
          -- Mas o que ? No sou muito de jogos.
          Pollyanna riu de novo mas  luz do crepsculo o rosto dela parecia tristonho.
          -- Comeamos a jog-lo quando recebemos umas muletas na coleta da misso.
          -- Muletas?
          -- Sim. Eu queria uma boneca e o pai escreveu-lhes, pedindo-a. Mas, quando a
encomenda chegou, no tinham mandado nenhuma boneca e sim umas muletas de criana. Uma
senhora enviou-as pensando que elas podiam ser teis a alguma criana. E foi assim que
comeamos.
          -- Mas no consigo perceber que jogo  que pode haver nisso -- disse Nancy quase
irritada.
          -- O jogo era exatamente encontrar alguma coisa com a qual estar contente, no importa
o qu -- respondeu Pollyanna com ar srio. -- E comeamos naquela altura, com as muletas.
          -- Meu Deus! No vejo nada para estar contente. Recebeu um par de muletas quando
queria uma boneca!
          Pollyanna bateu as palmas.
          --  isso -- gritou ela -- eu tambm no percebi logo. Teve que ser o pai a dizer-me.
          -- Bom, ento espero que tambm me diga -- retorquiu Nancy impaciente.
          -- Pois o jogo  ficar contente por no precisarmos delas! -- exclamou Pollyanna
triunfante. -- V,  muito fcil quando sabemos como fazer!
          -- Mas que coisa estranha! -- exclamou Nancy, olhando Pollyanna com ar receoso.
          -- No  engraado?  girssimo -- continuou Pollyanna entusistica. -- Desde ento
passamos a jog-lo sempre. E quanto mais difcil , mais divertido se torna resolv-lo. S que, por
vezes, custa muito. Como, por exemplo, quando o meu pai foi para o cu e no ficou mais
ningum seno as senhoras da caridade.
          -- Ou quando a metem num quartinho no sto quase sem nada l dentro -- resmungou
                                                                                               15

Nancy.
         Pollyanna disse que sim com a cabea.
         -- Essa foi um pouco difcil ao princpio -- admitiu ela. -- Especialmente quando eu
estava to s. No me apetecia continuar a jogar e naquela altura estava  espera de coisas boas!
Lembrei-me, ento, de como detestava ver as minhas sardas no espelho e vi aquela linda vista da
janela. Percebi logo que tinha descoberto coisas para ficar contente. Quando estamos  procura
de coisas boas para ficarmos contentes esquecemo-nos das outras. Como da boneca que eu
queria.
         -- Estou a perceber -- respondeu Nancy, engolindo em seco.
         -- Mas normalmente no leva muito tempo. E muitas vezes j penso nelas quase sem
pensar. Habituei-me a fazer este jogo. Eu e o pai gostvamos muito dele. Se calhar agora vai ser
um pouco mais difcil porque eu no tenho ningum com quem jogar. Talvez a tia Polly jogue
comigo -- acrescentou ela pensativa.
         -- Minha Nossa Senhora! -- murmurou Nancy entre dentes. Depois disse mais alto: --
Oua, Miss Pollyanna, eu no sei se consigo jogar bem, mas se quiser posso tentar jogar consigo!
         -- Oh, Nancy! -- exultou Pollyanna. -- Isso  esplndido, vamos divertir-nos imenso.
         -- Sim, talvez -- condescendeu Nancy com algumas dvidas. -- Mas no deve depositar
grandes esperanas em mim. Nunca fui muito boa em jogos, mas vou fazer o possvel. H de ter
algum com quem jogar -- concluiu ela enquanto entravam as duas juntas na cozinha.
         Pollyanna comeu o seu po e bebeu o seu leite com muito apetite. Depois, por sugesto
de Nancy, dirigiu-se  sala de estar onde a tia estava sentada a ler. Miss Polly levantou os olhos
com firmeza.
         -- J comeste o teu jantar, Pollyanna?
         -- Sim, tia Polly.
         -- Tenho muita pena de me ter visto obrigada a mandar-te para a cozinha comer po e
leite.
         -- No faz mal, estou muito contente com isso, tia Polly. Gosto muito de po e leite e
tambm da Nancy. No se preocupe.
         A senhora endireitou-se mais na cadeira.
         -- Pollyanna, j devias estar na cama. Tiveste um dia muito fatigante. Amanh temos que
fazer planos para a tua vida e ver que roupas  preciso comprar. A Nancy dar-te- uma vela. Tem
cuidado com ela. O pequeno-almoo  s seis e meia, v se ests c em baixo a essa hora. Boa-
noite.
         Com naturalidade, Pollyanna dirigiu-se  tia e deu-lhe um abrao afetuoso.
         -- At aqui tem sido muito bom -- disse ela feliz. -- Tenho a certeza de que vou gostar
muito de viver consigo. Alis j sabia isso antes de vir para c. Boa-noite -- disse alegremente
enquanto saa da sala.
         "Mas que criana extraordinria", pensou Miss Polly. "Ela est contente por eu a ter
castigado e diz que no devo estar preocupada com isso e que vai gostar de viver comigo! Ora
esta!", exclamou Miss Polly de novo, enquanto retomava o livro.
         Quinze minutos depois, no quarto do sto, a menina soluava com a cara metida nos
lenis:
         -- Pai, que ests junto dos anjos, agora no consigo fazer o jogo. No acredito que
conseguisses encontrar alguma coisa para estar contente se tivesses de dormir sozinho no escuro.
Se ao menos estivesse ao p da Nancy ou da tia Polly, seria mais fcil!
         L em baixo, na cozinha, Nancy procurava despachar o trabalho atrasado enquanto
murmurava:
         -- Se fazer aquele jogo disparatado  ficar contente por receber muletas quando se quer
bonecas ou ir para aquele rochedo  procura de um refgio, ento eu tambm sei jogar!
                                                                                               16




                              Uma questo de dever


        Eram quase sete horas quando Pollyanna acordou no primeiro dia a seguir  sua chegada.
As janelas do seu quartinho davam para sul e para oeste, de modo que no conseguia ver o sol,
mas via o azul do cu que prenunciava um belo dia.
        O quarto estava agora bastante frio e o ar entrava pelas frinchas. L fora, os pssaros
chilreavam alegremente e Pollyanna correu  janela para conversar com eles. Viu que l embaixo,
no jardim, a sua tia j estava no meio das roseiras. Apressou-se a ir ter com ela.
        Pollyanna correu escada abaixo, deixando as portas abertas. Atravessou depois o corredor
e saiu pela porta da frente em direo ao jardim. A tia Polly tratava de uma roseira, junto do
velhote, quando Pollyanna, cheia de alegria, se atirou a ela.
        -- Tia Polly, tia Polly, estou to contente esta manh, s por estar viva!
        -- Pollyanna! -- admoestou a senhora com gravidade, endireitando-se tanto quanto
conseguia com aquele peso de trinta e tal quilos pendurado ao pescoo.
        --  assim que costumas dar os bons-dias?
        A menina largou-a e comeou a saltitar.
        -- No, s quando gosto muito das pessoas e no posso deixar de o fazer! Eu vi-a da
minha janela, tia Polly, e comecei a pensar que no era uma das senhoras da caridade, e que era de
fato a minha tia. E pareceu-me to boa que tive que vir a correr dar-lhe um abrao!
        O velhote curvado virou de repente as costas. Miss Polly tentou ficar carrancuda, mas
desta vez no teve tanto sucesso.
        -- Pollyanna tu... eu... Thomas, por hoje basta. Acho que compreendeu o que eu lhe disse
                                                                                               17

sobre as roseiras -- disse ela com ar srio. Depois voltou-se e afastou-se rapidamente.
         -- O senhor trabalha sempre no jardim? -- perguntou Pollyanna interessadamente.
         O homem voltou-se. Tinha os lbios crispados e parecia haver lgrimas nos olhos.
         -- Sim, Miss. Sou o velho Tom, o jardineiro -- respondeu ele. Timidamente, como que
impelido por uma fora irresistvel, estendeu a mo trmula e pousou-a, por momentos, no
cabelo claro da menina. -- Parece-se tanto com a sua me! Eu conheci-a quando ela era ainda
mais pequena do que a menina. Nessa altura eu j trabalhava no jardim.
         Pollyanna susteve a respirao.
         -- Trabalhava? Conheceu mesmo a minha me quando ela era ainda um anjinho da terra
e no um anjo dos cus? Oh, conte-me coisas dela! -- pediu Pollyanna, saltando para o lado do
velhote.
         Na casa soou uma campainha. Logo a seguir viu-se Nancy a sair pela porta das traseiras.
         -- Miss Pollyanna, esta campainha  a do pequeno- almoo -- gritou ela, enquanto
puxava a menina para casa. -- Quando toca s outras horas so as outras refeies. Mas tem
sempre que se despachar quando a ouvir, seno ter de se esforar para encontrar alguma coisa
para ficar contente! -- concluiu ela enxotando Pollyanna para dentro da casa como faria com
uma galinha fugida.
         Durante os primeiros cinco minutos, o pequeno-almoo foi comido em silncio. Depois,
Miss Polly seguindo com um olhar reprovador duas moscas que pousavam aqui e ali, sobre a
mesa, disse grave mente:
         -- Nancy, donde vieram estas moscas?
         -- No sei, Miss Polly. Na cozinha no vi nenhuma.
         Nancy estivera demasiado excitada para reparar nas janelas que Pollyana tinha deixado
abertas na tarde anterior.
         -- Se calhar as moscas so minhas, tia Polly -- observou Pollyana amistosamente. --
Esta manh havia muitas l em cima.
         Nancy abandonou precipitadamente a sala, levando consigo os pes quentes que trazia da
cozinha.
         -- So tuas? -- perguntou a tia Polly. -- Que queres dizer? De onde vieram?
         -- Devem ter vindo l de fora, pelas janelas. Eu vi algumas entrar.
         -- Viste-as! Queres dizer que abriste as janelas que no tm mosquiteiros?
         -- Sim, realmente no tinha mosquiteiros, tia Polly.
         Naquele momento, Nancy entrou de novo com os pes. Vinha com uma expresso muito
sria e estava corada.
         -- Nancy -- disse a senhora gravemente -- podes deixar aqui os pes e ir j ao quarto de
Miss Pollyanna fechar as janelas. Fecha tambm as portas. Depois de teres feito as tarefas da
manh vai a todos os quartos com o mata-moscas. V tudo com cuidado, no deixes escapar
nenhuma.
         Dirigindo-se  sobrinha disse:
         -- Pollyanna, j encomendei mosquiteiros para as janelas.  claro que eu sabia que as
janelas estavam a precisar. Mas parece-me que esqueceste do teu dever.
         -- O meu dever? -- os olhos de Pollyanna abriam-se de espanto.
         -- Com certeza. Eu sei que est calor, mas considero que  teu dever manter as janelas
fechadas at chegarem as redes. As moscas no so s uma porcaria, como tambm so
incomodativas e perigosas para a sade. Depois do pequeno-almoo vou dar-te um prospecto
para leres sobre este assunto.
         -- Para ler? Muito obrigado, tia Polly. Adoro ler!
         A tia Polly inspirou fundo, com os lbios cerrados. Pollyanna ao ver a expresso sria da
tia mudou tambm a sua.
         -- Com certeza que peo desculpa por ter esquecido o meu dever, tia Polly --
desculpou-se ela timidamente. -- No volto a abrir as janelas.
                                                                                                 18

         A tia no respondeu. No voltou a falar at a refeio terminar. Depois, levantou-se,
dirigiu-se  enorme estante na sala de estar, retirou de l um pequeno prospecto e atravessou de
novo a sala em direo  sobrinha.
         -- Eis o artigo de que te falei, Pollyanna. Quero que vs para o teu quarto imediatamente
e o leias. Daqui a meia hora vou l para ver as tuas coisas.
Pollyanna com os olhos postos na imagem da cabea de uma mosca ampliada, gritou
alegremente:
         -- Oh, muito obrigada, tia Polly!
         No momento seguinte saiu saltitante da sala, atirando com a porta atrs de si.
         Miss Polly fez-se carrancuda, hesitou, depois atravessou a sala e abriu a porta. Pollyanna,
no entanto, j tinha desaparecido, subindo rapidamente as escadas para o sto.
         Meia hora mais tarde, quando Miss Polly, com uma expresso muito sria, subiu as
escadas e entrou no quarto de Pollyanna, foi recebida com uma exploso de entusiasmo.
         -- Oh, tia Polly, nunca vi nada to engraado e interessante na minha vida. Ainda bem
que me deu isto para ler. Nunca pensei que as moscas pudessem transportar tantas coisas ms nas
patas e...
         -- J chega! -- observou a tia Polly com um ar digno. -- Pollyanna, traz as tuas roupas
para eu ver. Aquilo que no for apropriado para ti darei aos Sullivans.
         Com evidente relutncia, Pollyanna ps de parte o prospecto e virou-se para o armrio.
         -- Receio que ache as minhas roupas piores do que as senhoras da caridade achavam.
Elas disseram que eram uma vergonha. Mas nas coletas da misso s havia coisas para rapazes e
para pessoas mais velhas. J alguma vez assistiu a uma coleta de roupas para os pobres, tia Polly?
         Vendo a expresso chocada e zangada da tia, Pollyanna corrigiu imediatamente.
         -- Claro que no, tia Polly! J me esquecia que as pessoas ricas no vo a essas coisas.
Mas sabe, aqui neste quarto, s vezes, esqueo- me que a senhora  rica.
         Miss Polly ficou indignada, mas no pronunciou uma palavra. Pollyanna, sem conscincia
do que tinha acabado de dizer, despachava-se com as roupas.
         -- Estava eu a dizer que no h nada de mal nas coletas de roupa para os pobres exceto
que no encontramos nunca aquilo de que estamos  espera, ainda que o saibamos de antemo.
Era nessas coletas que o pai tinha mais dificuldade em jogar o jogo e...
         Pollyanna acabara de se lembrar que no se devia referir ao pai diante da tia. Voltou-se de
novo para dentro do armrio e, apressadamente, retirou de l os seus vestidinhos velhos.
         -- No so nada bonitos e deviam ter sido pretos se no fosse por causa do tapete
vermelho para a igreja. Mas so tudo o que tenho.
         Com as pontas dos dedos, Miss Polly mexeu naqueles trapos que no se adequavam nada
a Pollyanna. A seguir, muito sisuda, prestou ateno  roupa interior arrumada nas gavetas da
cmoda.
         -- Trouxe as melhores roupas que tinha -- confessou Pollyanna ansiosamente. -- As
senhoras da caridade compraram-me um conjunto completo. Mrs. Jones, que  a presidente, disse
s outras que se calhar, por causa disso, iam ter que caminhar toda a vida pelo cho nu das naves
da igreja. Mas no tm. Mr. White no tolera barulho. Fica cheio de nervos, diz a mulher dele.
Mas  rico e elas esto a contar que ele d o dinheiro para o tapete, por causa dos nervos.
         Miss Polly parecia no a ouvir. A inspeo s roupas interiores tinha terminado e ela
voltou-se para Pollyanna com uma certa brusquido.
         -- Tens ido  escola, Pollyanna?
         -- Sim, tia Polly. Alm disso o meu pai... quer dizer, em casa, tambm me ensinaram.
         Miss Polly franziu o sobrolho.
         -- Muito bem. No outono vais recomear a escola aqui. Mr. Wall, o mestre-escola h de
determinar em que ano devers ficar. Entretanto, quero ouvir-te ler alto meia hora, todos os dias.
         -- Adoro ler, mas se no me quiser ouvir, fico muito contente por ler para mim prpria.
A srio, tia Polly. E nem preciso de fazer qualquer esforo para ficar contente porque o que eu
                                                                                                 19

gosto mais  de ler para mim mesma, por causa das grandes palavras.
         -- No duvido -- respondeu Miss Polly. -- Estudaste msica?
         -- No muito. No gosto da minha msica. Mas gosto da msica dos outros. Aprendi a
tocar um pouco de piano. Miss Grey, que toca na igreja, ensinou-me. Mas eu preferia deixar isso
de parte, tia Polly.
         -- Acredito -- observou a tia Polly com as sobrancelhas ligeiramente levantadas. -- No
entanto, penso que  meu dever dar-te uma instruo adequada, pelo menos em relao a alguns
rudimentos de msica. E sabes, evidentemente, costurar?
         -- Sim, tia -- respondeu Pollyanna. -- As senhoras da caridade ensinaram-me isso, mas
foi muito difcil. Elas tinham opinies contraditrias sobre a maneira de me ensinar.
         -- No faz mal. Aqui no ters problemas desses. Eu prpria te vou ensinar a costurar.
Calculo que no saibas cozinhar.
         Pollyanna riu, subitamente.
         -- Elas comearam a ensinar-me este vero, mas no fomos longe. Estavam ainda mais
divididas sobre isso do que sobre a costura. Iam comear com o po, mas todas o faziam de
modo diferente. Assim, depois de discutirem numa reunio, decidiram que eu iria um dia de
semana  cozinha de cada uma delas. Aprendi a fazer doce de chocolate e bolo de figo, quando
tive de parar.
         -- Doce de chocolate e bolo de figo! -- troou Miss Polly. -- Em breve remediaremos
isso. -- Fez uma pausa e depois continuou. -- s nove horas, todas as manhs, vais ler alto para
mim, durante meia hora. Antes disso, devers arrumar o teu quarto. s quartas-feiras e aos
domingos  tarde, depois das nove e meia, irs para a cozinha aprender a cozinhar com a Nancy.
Nas outras manhs, vais costurar comigo.  tarde, vais dedicar-te  msica. Vou j procurar um
professor para ti -- terminou ela decididamente, enquanto se levantava.
         Pollyanna gritou desanimada.
         -- Mas, tia Polly, no me deixa tempo nenhum para viver!
         -- Para viver, menina?! Que queres dizer? Como se no vivesses durante todo o tempo!
         -- Sim, eu respiro durante todo o tempo em que estiver a fazer essas coisas, tia Polly,
mas no estarei a viver. Tambm se respira enquanto se dorme, mas no estamos a viver. Eu
quero dizer viver, fazer as coisas que gostamos de fazer: brincar ao ar livre, ler para mim prpria,
subir pelos montes, conversar com Mr. Tom no jardim e com a Nancy, conhecer tudo sobre as
casas e as pessoas, e tudo o que h nas lindas ruas por onde ontem passei.  isso que eu chamo
viver, tia Polly. Respirar no  viver!
         Miss Polly levantou a cabea irritada.
         -- Pollyanna, s a criana mais extraordinria que eu j vi! Evidentemente que hs de ter
algum tempo para brincar. Mas se eu cumpro o meu dever zelando para que tu tenhas uma
instruo adequada e sejas tratada como deve ser, tu tambm deves estar disposta a cumprir o
teu, fazendo com que a dedicao e a instruo que te so oferecidas no sejam ingratamente
desperdiadas.
         Pollyanna olhava chocada para a tia.
         -- Oh, tia Polly, como se eu pudesse ser ingrata para consigo! Como, se eu a amo, e nem
sequer  uma das senhoras de caridade,  minha tia!
         -- Muito bem, ento v se no ages com ingratido -- vociferou Miss Polly, enquanto se
dirigia para a porta.
         J ia a meio da escada quando uma voz fraca e insegura chamou por ela:
         -- Por favor, tia Polly, no me chegou a dizer quais das minhas coisas queria dar.
         A Tia Polly emitiu um suspiro de fastio que chegou aos ouvidos de Pollyanna.
         -- Esqueci-me de te dizer, Pollyanna. Thimoty, esta tarde,  uma e meia leva-nos 
cidade. Nenhuma dessas roupas  apropriada para a minha sobrinha vestir. Estaria, decerto,
muito longe de cumprir o meu dever se te deixasse aparecer em pblico com alguma delas.
         Foi agora a vez de Pollyanna suspirar. Parecia-lhe que ia detestar aquela palavra: dever.
                                                                                              20

         -- Tia Polly, por favor -- disse ela em voz baixa -- no ser possvel encarar com mais
alegria toda essa coisa do dever?
         -- O qu? -- Miss Polly olhou para cima boquiaberta; depois, repentinamente, muito
corada, virou as costas, desceu as escadas muito zangada e disse: -- No sejas impertinente,
Pollyanna!
         No seu quartinho do sto, Pollyanna deixou-se cair num dos cadeires. A existncia
aparecia-lhe como um caminho interminvel para o dever. "No vejo o que houve de
impertinente no que eu disse" suspirou ela. "S lhe estava a pedir para me dizer se no
encontrava nada que a satisfizesse em toda aquela questo do dever. "
         Durante alguns minutos, Pollyanna manteve-se sentada em silncio, com os olhos fixos
nas roupas estendidas na cama. Depois, vagarosamente, levantou-se e comeou a pr os vestidos
de parte.
         -- No vejo nada para estar contente -- disse ela alto -- a menos que se deva ficar
contente quando o dever est cumprido! -- e com isto deu uma gargalhada.




                             Os castigos e Pollyanna


          uma e meia, Thimoty conduziu Miss Polly e a sobrinha a quatro ou cinco das principais
lojas da cidade que ficavam a cerca de um quilometro do solar. A compra de um novo enxoval
para Pollyanna veio a verificar-se uma experincia excitante para todas as pessoas envolvidas.
         Quando as compras acabaram, Miss Polly experimentou uma sensao de descontrao
que uma pessoa sente quando finalmente encontra terreno firme, depois de uma caminhada
perigosa sobre a crosta fina de um vulco. Os diversos empregados que atenderam as duas,
concluram o seu trabalho com os rostos afogueados e bastantes histrias sobre Pollyanna para
contar aos amigos, durante o resto da semana. A prpria Pollyanna ficou muito satisfeita e
radiante com tudo aquilo porque, como ela explicou a um dos empregados, "quando nunca se
teve mais nada para alm das ddivas da caridade,  formidvel entrar nas lojas e comprar roupas
novinhas que no precisam de ser remendadas ou postas de parte por no servirem. A visita s
lojas durou a tarde inteira. Depois foi o jantar e uma agradvel conversa com o velho Tom, no
jardim, e outra com Nancy, no ptio das traseiras, depois de esta ter lavado a loia e enquanto a
tia Polly visitava um vizinho.
         O velho Tom contou a Pollyanna coisas maravilhosas sobre a me, que ela gostou muito
de ouvir e Nancy contou-lhe tudo sobre a sua pequena quinta a nove quilmetros dali, na aldeia
dos Cantos, onde vivia a me e os seus queridos irmos. Ela prometeu tambm que, se Miss Polly
deixasse, Pollyanna podia ir visit-los.
         -- E eles tambm tm bonitos nomes. H de gostar dos nomes deles -- disse Nancy. --
Chamam-se Algernon, Florabelle e Estelle. No gosto nada do meu nome, Nancy!
                                                                                            21

        -- Oh, Nancy, isso no se diz! Por que no?
        -- No  bonito como os outros. Eu fui a primeira e a minha me no tinha ainda lido
histrias com nomes bonitos.
        -- Mas eu gosto muito de Nancy, quanto mais no seja por ti -- declarou Pollyanna.
        -- Ah, ento tambm podia gostar de Clarissa Mabel -- respondeu Nancy --, e eu ficava
muito mais contente. Acho que  um lindo nome!
        Pollyanna riu.
        -- De qualquer maneira, deves estar contente por no ser Hephzibah.
        -- Hephzibah???!
        -- Sim,  assim que se chama a Mrs. White. O marido chama-lhe Hep e ela no gosta. Ela
diz que quando ele a chama "Hep-Hep" lhe parece que ele a seguir vai dizer "Hurra"! E ela
detesta isso.
        A expresso triste de Nancy transformou-se num grande sorriso.
        -- Depois de ter ouvido essa sobre Hep-Hep, j no me importo de me chamar de
Nancy -- ela olhou com olhos bem abertos para a rapariga. -- Diga l Miss Pollyanna, estava a
brincar quele jogo quando me disse isso da Hephzibah?
        Pollyanna franziu o sobrolho e depois riu.
        --  verdade, eu estava a jogar ao jogo, mas foi uma das vezes em que o fiz sem pensar.
Fao-o tantas vezes que me habituo e procuro sempre uma coisa que me d contentamento. E h
sempre alguma coisa que nos deixa contentes se pensarmos bem.
        -- Bom, talvez -- respondeu Nancy com algumas dvidas.
        s oito e meia, Pollyanna foi deitar-se. Os mosquiteiros ainda no tinham chegado e o
quartinho parecia um forno. De olhos tristes Pollyanna olhou para as duas janelas fechadas, mas
no as abriu. Despiu-se, dobrou as roupas, rezou as suas oraes, apagou a vela e meteu-se na
cama.
        Ela no soube quanto tempo esteve sem conseguir dormir, virando-se de um lado para o
outro cheia de calor. Pareceu-lhe que tinham passado horas at que se levantou, atravessou o
quarto e dirigiu-se para a janela onde ficou a contemplar o cu estrelado.
        Esperava que o sono no tardasse.
        Esperava que a frescura da manh chegasse rapidamente.
                                                                                              22




                        Pollyanna retribui uma visita


        No demorou muito at que a vida no solar Harrington entrasse mais ou menos na
ordem, embora no fosse exatamente a ordem que Miss Polly tinha inicialmente previsto.
Pollyanna costurava, praticava msica, lia alto e aprendia a cozinhar. Tudo isto  verdade, mas
no dedicava a cada uma destas coisas tanto tempo quanto a tia planejara. Acabava por ter mais
tempo para "viver" como ela dizia, pois quase todas as tardes, das duas s seis da tarde dispunha
de tempo livre para fazer o que bem entendia desde que no fizesse certas coisas que a tia lhe
proibira.
        Resta saber se Pollyanna dispunha de todo esse tempo livre para descanso dos seus
deveres ou se seria antes para descanso da prpria tia. Surgiram muitas ocasies, durante esses
dias de julho, em que a tia exclamou: "Que criana extraordinria!" E as leituras, bem como as
lies de costura, deixavam a tia perfeitamente exausta.
        Nancy ia bem na cozinha. No se cansava nada. Era por isso que gostava tanto das
quartas e sbados.
        Nas vizinhanas do solar Harrington no havia crianas com que Pollyanna pudesse
brincar. Alis, o solar encontrava-se nos arredores da cidade e embora existissem outras casas
prximas no moravam l rapazes nem raparigas da idade de Pollyanna. Porm, isso no parecia
preocup-la muito.
        -- No, no me importo nada -- explicava ela a Nancy -- gosto muito de passear, ver as
ruas e as casas e observar as pessoas. Gosto muito das pessoas. Tu no gostas, Nancy?
        -- No posso dizer que gosto de todas elas -- respondeu Nancy.
                                                                                                23

         Quase todas as tardes Pollyanna dava um grande passeio e era nesses passeios que ela
encontrava frequentemente o "Homem".
         O Homem vestia normalmente um sobretudo e um chapu alto de seda, duas coisas que
os homens normais nunca usam. Tinha a face escanhoada, muito plida, e o cabelo que aparecia
pela parte de trs do chapu era grisalho. Caminhava muito depressa e empertigado e estava
sempre sozinho, o que fazia pena a Pollyanna. Talvez tenha sido por isso que ela um dia lhe
falou.
         -- Como est, senhor? Que belo dia est hoje, no  verdade? -- disse ela aproximando-
se dele.
         O Homem deitou-lhe um olhar rpido e depois parou, na dvida se seria com ele.
         -- Est a falar comigo? -- perguntou ele com voz rspida.
         -- Sim, senhor -- respondeu Pollyanna. -- Perguntei se no achava que estava um dia
bonito.
         -- Ah, sim, sim -- respondeu ele laconicamente.
         Pollyanna riu. Era um homem curioso, pensou ela. No dia seguinte viu-o de novo.
         -- Hoje no est to bonito como ontem, mas mesmo assim est um dia bonito -- disse
ela alegremente.
         -- Eh? Eh, oh! Hummm! -- resmungou o Homem como j fizera da outra vez, e, mais
uma vez, Pollyanna riu alegremente.
         Da terceira vez que Pollyanna o abordou da mesma forma, o Homem parou
abruptamente.
         -- Olha c menina, quem s tu? Porque me falas todos os dias?
         -- Sou Pollyanna Whittier e achei que parecia muito solitrio. Ainda bem que parou.
Agora estamos apresentados, eu  que no sei o seu nome.
         -- Mas que... -- o Homem no acabou a frase e recomeou a andar depressa.
         Pollyanna olhou para ele desapontada.
         -- Talvez no me tivesse compreendido. Assim foi s meia apresentao. No sei ainda o
nome dele -- murmurava ela enquanto prosseguia o caminho.
         Pollyanna levava hoje gelia de p-de-vaca para Mrs. Snow. Miss Polly mandava sempre
alguma coisa todas as semanas a Mrs. Snow. Ela dizia que isso era seu dever, porque Mrs. Snow
era pobre e doente, e pertencia  mesma parquia. Naturalmente que era o dever de todos os
membros da parquia olhar por ela. Miss Polly costumava cumprir o seu dever em relao a Mrs.
Snow nas quintas-feiras  tarde. No ia pessoalmente, mas mandava Nancy. Hoje Pollyanna tinha
pedido para ter esse privilgio e Nancy concedeu-lho imediatamente depois de ter pedido
autorizao a Miss Polly.
         -- Ainda bem que me vi livre daquilo -- declarou Nancy mais tarde a Pollyanna, em
privado. -- Embora seja uma vergonha ter passado o trabalho para si, minha pobre cordeirinha!
         -- Mas eu gosto de ir l, Nancy.
         -- Vai ver que no, depois de l ter estado pela primeira vez.
         -- Mas por que no?
         -- Porque ningum gosta. Se as pessoas no tivessem pena dela nunca ningum l punha
os ps.  insuportvel, tenho pena da filha que tem de tratar dela.
         -- Mas por que, Nancy?
         Nancy encolheu os ombros.
         -- Olhe, em palavras simples, o que acontece  que aos olhos de Mrs. Snow tudo o que
acontece est mal. Nem sequer os dias da semana esto bem para ela. Se for segunda-feira, diz
que preferia que fosse domingo, se lhe levar gelia, diz que lhe apetecia galinha, mas se lhe levar
galinha, diz que lhe apetecia outra coisa!
         -- Que mulher to engraada! -- riu Pollyanna. Acho que vou gostar de visit-la. Ela
deve ser diferente das outras pessoas e eu gosto muito de pessoas diferentes.
         -- Ah, l isso !  bastante diferente -- concluiu Nancy.
                                                                                               24

        Pollyanna refletia sobre esta conversa enquanto abria o porto da modesta casa da
senhora. Os olhos brilhavam-lhe ante a expectativa de conhecer esta "diferente" Mrs. Snow. Foi
uma rapariga plida e de ar cansado que lhe abriu a porta.
        -- Como est? -- cumprimentou Pollyanna educadamente. -- Venho da parte de Miss
Polly Harrington e gostava de ver Mrs. Snow, por favor.
        -- Se assim quer, voc  a primeira pessoa que diz que gostava de a ver -- resmungou a
rapariga.
        Mas Pollyanna no a ouviu. A rapariga j se tinha virado e conduziu-a para o quarto da
senhora. J no quarto e depois da rapariga ter sado e fechado a porta, Pollyanna piscou os olhos
at se habituar  semiobscuridade que ali reinava. Viu ento, a silhueta de uma mulher meio
sentada na cama. Pollyanna avanou logo para ela.
        -- Como est, Mrs. Snow? A tia Polly espera que se sinta melhor e mandou-lhe um boio
de gelia.
        -- O qu, gelia? -- murmurou uma voz sumida. -- Claro que estou muito agradecida,
mas hoje, estava a contar que me trouxessem caldo de carneiro.
        Pollyanna franziu um pouco o sobrolho.
        -- Ah sim? Pensava que dizia que lhe apetecia galinha quando lhe traziam gelia -- disse
ela.
        -- O qu? -- respondeu a doente asperamente.
        -- Nada, nada -- disfarou Pollyanna apressadamente. -- No tem importncia, mas a
Nancy disse que quando lhe trazamos gelia dizia que lhe apetecia galinha e quando lhe traziam
galinha que lhe apetecia caldo de carneiro. Talvez tivesse sido assim da outra vez e Nancy
esqueceu-se.
        A doente endireitou-se mais na cama, coisa pouco habitual nela, embora Pollyanna no
soubesse.
        -- Pois bem, Miss Impertinente, quem  voc? -- perguntou ela.
        Pollyanna riu.
        -- No  assim que me chamo, Mrs. Snow. E ainda bem que no! Isso seria pior do que
"Hephzibah", no era? Chamo-me Pollyanna Whittier, sou sobrinha de Miss Polly Harrington e
vim viver com ela.  por isso que estou hoje aqui com a gelia.
        Durante a primeira parte da frase, a doente sentou-se muito direita, manifestando muito
interesse, mas com a referncia  gelia voltou a abater-se sobre a almofada.
        -- Muito bem, agradeo-lhe muito. A sua tia  muito simptica, mas esta manh no
estou com apetite e estava-me a apetecer caldo de carneiro. -- parou subitamente de falar depois
retomou o discurso bruscamente, mudando de assunto. -- No consegui pregar olho esta noite!
        -- No me diga, isso gostava eu que me acontecesse! -- suspirou Pollyanna, colocando a
gelia na mesa de cabeceira e sentando-se confortavelmente na cadeira mais prxima. --
Perdemos tanto tempo a dormir! No acha?
        -- Perder tempo a dormir! -- exclamou a senhora doente.
        -- Sim,  uma pena que no possamos tambm viver de noite.
        A senhora voltou a endireitar-se na cama.
        -- Mas que menina espantosa! -- exclamou ela. Olhe, v at  janela e levante as cortinas
-- ordenou ela. -- Quero ver a sua cara!
        Pollyanna levantou-se e riu divertida.
        -- Mas assim vai ver-me as sardas todas -- disse ela enquanto se dirigia para a janela. --
E eu estava to satisfeita por estar escuro e a senhora no as poder ver. Mas ainda bem que me
quer ver porque assim tambm a posso ver a si! No me tinha dito que era to bonita!
        -- Eu, bonita? -- desabafou a mulher com amargura.
        -- Sim, no sabia? -- perguntou Pollyanna.
        -- No, no sabia -- retorquiu Mrs. Snow secamente.
        Tinha quarenta anos e desses, quinze tinha-os perdido a desejar coisas diferentes das que
                                                                                                25

tinha.
          -- Os seus olhos so grandes e negros e o seu cabelo  escuro e encaracolado -- elogiou
Pollyanna. -- Gosto muito de caracis negros. Essa  uma das coisas que eu hei de ter quando
chegar ao cu. E tem duas manchinhas vermelhas na cara.  verdade, Mrs. Snow, a senhora 
muito bonita! Pensava que sabia, depois de se ter visto ao espelho.
          -- O espelho -- suspirou a mulher doente voltando a abater-se sobre a almofada. --
No me tenho visto muito ao espelho ultimamente. Voc tambm no se preocuparia muito com
isso se tivesse de estar sempre deitada como eu!
          -- No, claro que no -- concordou Pollyanna com simpatia. -- Mas deixe- me mostrar-
lhe -- exclamou ela dirigindo-se  cmoda e trazendo um espelho pequeno.
          Ao regressar  cama, parou olhando com olhar crtico para a senhora.
          -- Deixe-me s arranjar-lhe um pouco o cabelo, antes de lhe dar o espelho -- props ela.
-- Deixa-me arranjar-lhe o cabelo?
          -- Bom, se quer, est bem -- condescendeu Mrs. Snow. -- Mas no se agenta!
          -- Obrigada, gosto muito de pentear as pessoas -- exultou Pollyanna, pousando
cuidadosamente o espelho e indo buscar um pente. -- Claro que no vou poder fazer grande
coisa, pois tenho pressa de que veja como  bonita; mas um dia desmancho-o todo e vai ver
como fica linda -- exclamou ela enquanto a penteava.
          Durante cinco minutos, Pollyanna fez o melhor que pde. Entretanto, a mulher que se
esforava por ficar carrancuda e troava daquilo tudo, comeava, apesar de tudo, a sentir-se um
bocadinho entusiasmada.
          -- J est! -- exclamou Pollyanna retirando uma rosa da jarra mais prxima e colocando-
a no cabelo negro, no ponto onde fazia melhor efeito. -- Agora pode ver-se ao espelho! -- e
segurou o espelho triunfantemente.
          -- Humm! -- resmungou a doente enquanto observava a sua imagem de olhar severo. --
Gosto mais de rosas vermelhas do que cor-de-rosa, mas tambm no faz grande diferena, pois
at  noite murcha!
          -- Mas deve ficar contente por elas murcharem -- riu Pollyanna -- porque ento pode
ter a alegria de receber mais. Gosto muito do seu cabelo arranjado assim -- concluiu ela
satisfeita. -- No acha?
          -- Sim, talvez. Mas no vai durar muito porque tenho que me deitar.
          -- Claro que no e ainda bem -- disse Pollyanna alegremente. -- Assim posso arranj-lo
de novo. De qualquer forma, acho que deve estar contente por o seu cabelo ser negro. O cabelo
negro fica muito melhor numa almofada do que o loiro, como o meu.
          -- Talvez, mas nunca gostei muito do cabelo preto; os cabelos brancos aparecem mais
cedo -- retorquiu Mrs. Snow. Falava com irritao, mas continuava a segurar o espelho diante da
cara.
          -- Ah! Pois eu gosto muito de cabelo negro! Gostava muito que o meu fosse preto --
suspirou Pollyanna.
          Mrs. Snow deixou cair o espelho e virou-se irritada.
          -- No, no havia de gostar! Se estivesse no meu lugar no gostava. Nem havia de gostar
de outras coisas, se tivesse que estar sempre aqui deitada!
          Pollyanna franziu o sobrolho, pensativa.
          -- Sim, realmente devia ser mais difcil!
          -- O qu?
          -- Arranjar coisas para ficar contente.
          -- Arranjar coisas para ficar contente, quando estamos deitadas o dia inteiro? Seria bem
difcil -- retorquiu Mrs. Snow. -- Se no acha, diga-me alguma coisa com que ficar contente!
          Para grande surpresa de Mrs. Snow, Pollyanna correu e bateu as palmas.
          -- Essa  difcil! Tenho de me ir embora, mas vou pensar nisso durante todo o caminho
at a casa e talvez da prxima vez lhe diga. Adeus, gostei muito de a visitar! -- disse enquanto se
                                                                                                26

dirigia para a porta.
         -- Mas o que queria ela dizer com isso? -- Interrogava-se Mrs. Snow, depois de
Pollyanna ter sado. De vez em quando, levantava o espelho e observava criticamente a sua
imagem. -- Aquela mida tem jeito para arranjar o cabelo, no h dvida -- suspirou ela. --
Confesso que no sabia que podia ficar to bonita. Mas para que serve isso? -- suspirou de novo,
deixando cair o espelho na cama e virando a cabea na almofada, irritada.
         Um pouco depois Milly, a filha de Mrs. Snow, entrou e o espelho ainda se encontrava
entre os cobertores, embora tivesse sido cuidadosamente escondido.
         -- Por que esto as cortinas levantadas, me? -- perguntou Milly admirada ,no s com
isso, como tambm com a rosa no cabelo da me.
         -- Ento, e qual  o problema? -- resmungou a doente. -- No preciso de estar sempre
s escuras, mesmo estando doente.
         -- No, claro que no -- retorquiu Milly apaziguando a me, enquanto ia buscar o
remdio. --  s porque estou farta de tentar fazer entrar um pouco de luz neste quarto e a
senhora nunca quer.
         No houve resposta. Mrs. Snow arranjou o lao da camisa de dormir. Finalmente, falou
com uma certa irritao.
         -- Acho que, para variar, j algum me devia ter dado uma camisa de noite nova, em vez
de caldo de carneiro!
         Milly estava boquiaberta. Na gaveta, por detrs dela, estavam, naquele momento, duas
camisas de dormir novas que ela h meses procurava convencer a me a vestir.




                          O que se dizia do "Homem"


        Na prxima vez em que Pollyanna viu o Homem, estava a chover. No entanto, ela
cumprimentou-o com um grande sorriso.
        -- Hoje o dia no est muito bonito. De qualquer modo, estou contente por no estar
sempre bonito!
        Desta vez o Homem no resmungou nem virou a cabea. Claro que Pollyanna concluiu
que ele no a tinha ouvido. Na prxima vez, que por acaso foi no dia a seguir, ela falou mais alto.
De qualquer modo ela entendia que era necessrio faz- lo pois o Homem estava a afastar-se com
as mos atrs das costas e os olhos no cho. Aquela postura parecia inadequada a Pollyanna, face
ao sol esplendoroso e  limpidez do ar da manh. Pollyanna fazia um dos seus passeios matinais.
        -- Como est o senhor? Ainda bem que j passou o dia de ontem, no acha?
        O Homem parou bruscamente. Tinha uma expresso zangada.
        -- Olha, minha menina, vamos resolver isto de uma vez por todas. Eu tenho mais em
que pensar, para alm do tempo que faz. Nem reparo se o sol est a brilhar ou no.
        Pollyanna respondeu alegremente.
        -- Eu bem me parecia que no reparava, por isso  que lhe estou a dizer.
        -- O qu? -- perguntou, olhando espantado.
        --  por isso que eu lhe digo para reparar no sol a brilhar. Eu sabia que ficava mais
contente se parasse de pensar nas suas coisas. Se no repara no sol  porque no pra de pensar!
        -- Raios!... -- praguejou o Homem com um gesto de impotncia. Continuou a andar,
mas logo a seguir voltou-se ainda zangado.
                                                                                               27

        -- Olha l, porque  que no arranjas algum da tua idade com quem conversar?
        -- Isso gostava eu, senhor, mas no h ningum por aqui -- respondeu ela. -- Mas eu
tambm no me importo muito. Gosto das pessoas mais velhas, talvez at mais que os novos.
Estou habituada com as senhoras da caridade.
        -- Humm! As senhoras da caridade? Pensas que sou desses? -- o Homem tentava
esboar um sorriso, mas o resto da cara no deixava.
        Pollyanna riu.
        -- Ah, no, senhor. No se parece nada com as senhoras da caridade, mas decerto que 
to bom como elas, talvez at melhor -- acrescentou ela tentando ser educada. -- Tenho a
certeza de que  muito melhor do que parece!
        O Homem fez um rudo estranho com a garganta.
        -- Raios!!! -- explodiu ele outra vez enquanto se voltava e continuava o caminho.
        Da prxima vez que Pollyanna encontrou o Homem, os olhos dele fixaram diretamente
os dela com a franqueza que tornou o rosto dele agradvel, pensou Pollyanna.
        -- Boa tarde -- cumprimentou-a ele rigidamente. -- Talvez seja melhor eu dizer que j
sei que o sol hoje est a brilhar.
        -- Mas no precisa de me dizer -- respondeu Pollyanna alegremente. -- Logo que eu o
vi, soube imediatamente que sabia.
        -- Ah, sim, sabia?
        -- Sim, senhor, vi nos seus olhos e fiquei logo a saber pelo seu sorriso.
        -- Humm! -- resmungou o homem enquanto se afastava.
        Depois disto, o Homem passou a falar sempre a Pollyanna e era ele quem
frequentemente falava primeiro, se bem que normalmente pouco mais dissesse do que "Boa
tarde". No entanto, mesmo isso era uma grande surpresa para Nancy que calhou estar com
Pollyanna num dos dias em que eles se cruzaram.
        -- Fantstico, Miss Pollyanna! Esse homem cumprimentou-a?
        -- Sim, cumprimenta sempre, agora -- respondeu Pollyanna com um sorriso.
        -- Cumprimenta sempre! Meu Deus! Sabe quem ele ? -- perguntou Nancy.
        Pollyanna fez-se sria e abanou a cabea.
        -- Ele nunca me chegou a dizer. Eu apresentei-me, mas ele no.
        Nancy abriu mais os olhos.
        -- Mas ele nunca fala com ningum, h anos, creio eu. Exceto quando no tem outro
remdio, por questes de negcios e coisas assim. Chama-se John Pendleton. Vive sozinho no
grande casaro de Pendleton Hill. Nem sequer tem l quem cozinhe para ele. As refeies vm
do hotel trs vezes por dia. Conheo a Sally Miner que  a criada dele. Ela diz que ele mal abre a
boca para dizer o que quer comer. Ela tem de adivinhar quase sempre o que lhe apetece e tem de
ser sempre qualquer coisa barata! Isso sabe ela, mesmo sem ele precisar de dizer.
        Pollyanna respondeu, manifestando compreenso.
        -- Eu sei. Quando se  pobre, tem que se procurar apenas coisas baratas. O pai e eu
comamos muitas vezes fora. Quase sempre comamos feijo e pastis de peixe. Costumvamos
dizer que tnhamos muita sorte em gostar de feijes. Dizamos isso especialmente quando
estvamos a ver na mesa ao lado peru assado que era muito mais caro. O senhor Pendleton gosta
de feijes e pastis de peixe?
        -- Sei l se gosta. Mas ele no  pobre. Tem muitssimo dinheiro que herdou do pai. No
h ningum na cidade to rico como ele. Se quisesse, at podia comer notas de dlares que nem
dava por isso.
        Pollyanna abanou a cabea.
        -- Como se algum pudesse comer notas de dlares sem dar por isso. Primeiro  preciso
mastig-las!
        -- O que eu quero dizer  que ele  muito rico -- respondeu Nancy impaciente. -- Ele
no quer gastar o dinheiro.  s isso.  um sovina.
                                                                                               28

        -- Ah sim? Isso  muito bom,  negar-se a si prprio e carregar a sua cruz. Eu sei porque
o pai me disse.
        Nancy abriu a boca como se estivesse para se zangar, mas ao ver o rosto alegre de
Pollyanna reparou numa coisa que a impediu de falar.
        -- Humm! -- vociferou ela. E continuou: -- No deixa de ser curioso ele dispor-se a
falar consigo, Miss Pollyanna. Ele no fala com mais ningum e vive sozinho naquele grande
casaro cheio de coisas luxuosas, como dizem. Alguns dizem que  maluco e h at quem diga
que tem um esqueleto no armrio.
        -- Oh Nancy! -- disse Pollyanna toda arrepiada. -- Como pode ele guardar uma coisa
dessas? Acho que o deitava logo fora!
        Nancy sorriu por Pollyanna ter tomado aquilo do esqueleto  letra. Mas, com uma ponta
de perversidade, absteve-se de corrigir o erro.
        -- E todos dizem que ele  muito misterioso -- continuou ela. -- H alguns anos,
viajava muito para os pases quentes como o Egito e o deserto do Saara.
        -- Ah, como missionrio -- respondeu Pollyanna. Nancy riu-se de modo estranho.
        -- No diria isso, Miss Pollyanna. Quando regressa, escreve livros. Livros esquisitos
sobre coisas curiosas que encontra nos pases por onde viaja. Mas nunca gasta o seu dinheiro
aqui, pelo menos em luxos.
        -- Claro que no, ele poupa para viajar por esses pases -- disse logo Pollyanna. -- Mas 
um homem divertido e diferente, tal como Mrs. Snow. S que ele  um diferente diferente.
        -- Sim, bem me parece -- galhofou Nancy.
        -- Agora, estou ainda mais contente por ele me falar -- disse Pollyanna toda contente.




                       Uma surpresa para Mrs. Snow


        Quando Pollyanna foi novamente visitar Mrs. Snow, encontrou a senhora com o quarto
s escuras, tal como da primeira vez.
        --  a menina da Miss Polly, me -- anunciou Milly com voz cansada.
        Pollyanna ficou s com a invlida.
        -- Ah,  voc? -- perguntou uma voz hesitante da cama. -- Lembro-me de si, penso que
todos se lembram depois de a terem conhecido. Gostava tanto que tivesse vindo ontem.
        -- Ah sim? Ainda bem que no passou muito tempo desde ontem -- brincou Pollyanna,
aproximando-se mais e pousando um cesto que trazia numa cadeira. Mas que escuro, est aqui.
No se v nada! -- disse ela dirigindo- se determinadamente para a janela e levantando os
cortinados. -- Quero ver se arranjou o cabelo outra vez como eu fiz. Ah no! Mas no faz mal,
assim eu posso arranj-lo, depois. Mas, agora, quero que veja o que lhe trouxe.
        A mulher olhava para ela atentamente.
        -- Como se o aspecto fizesse alguma diferena em relao ao sabor -- troou ela,
enquanto, apesar de tudo, ia virando os olhos para o cesto. -- Ento, o que traz?
        -- Adivinhe. O que  que lhe apetecia? -- Pollyanna recuou at ao cesto. O seu rosto
iluminava-se.
        A mulher doente franziu o sobrolho.
        -- No me lembro de nada que me apetea. Afinal sabe tudo ao mesmo!
        Pollyanna galhofou.
                                                                                             29

         -- Isto no. Adivinhe! Se lhe apetecesse alguma coisa, o que seria?
         A mulher hesitou. Ela no se apercebia, mas estava h tanto tempo habituada a querer
justamente aquilo que no tinha, que afirmar de antemo aquilo que lhe apetecia, parecia
impossvel, sem primeiro saber o que de fato tinha. No entanto, teria que dizer qualquer coisa.
Esta criana extraordinria estava  espera.
         -- Ah, claro que  caldo de carneiro.
         -- Ento aqui tem! -- gritou Pollyanna.
         -- Mas isso  aquilo que eu no queria -- respondeu a doente, tendo agora a certeza
daquilo que o estmago lhe estava a pedir. -- Era galinha que eu queria.
         -- Ah, mas eu tambm trago isso -- disse logo Pollyanna.
         A mulher olhou espantada.
         -- Traz as duas coisas? -- perguntou ela.
         -- Sim, e tambm trago gelia de mo-de-vaca! -- disse Pollyanna triunfante. -- Achei
que hoje havia de ter aquilo que lhe apetecia. Assim, eu e a Nancy arranjamos tudo. Claro que
trago s um pouco de cada, mas trago de tudo. Estou to contente por lhe apetecer galinha --
continuou ela satisfeita enquanto retirava os trs boies do cesto. No caminho para c pensei no
problema que seria se dissesse que lhe apetecia dobrada ou cebolas ou qualquer coisa assim que
eu no tivesse! Seria uma pena, depois de me ter esforado tanto -- riu ela satisfeita.
         No se ouviu resposta. A doente parecia procurar mentalmente algo que tivesse perdido.
         -- Aqui est, vou deix-los c todos -- anunciou Pollyanna, enquanto dispunha os trs
boies em fila sobre a mesa. -- Talvez amanh lhe apetea caldo de carneiro. Ento, e como est
hoje? -- perguntou ela educadamente.
         -- Ai, muito mal -- murmurou Mrs. Snow deixando-se cair na sua habitual atitude de
abandono. -- Esta manh no consegui dormir. Nellie Higgins, que mora aqui ao lado, comeou
a aprender msica e tira-me o sossego todo. Esteve toda a manh naquilo! No sei o que hei de
fazer!
         Polly fez que sim com a cabea, de modo compreensivo.
         -- Eu sei,  horrvel! Passou-se a mesma coisa com Mrs. White, uma das senhoras da
caridade. Ela tinha febre reumtica e tambm no podia mexer-se. Dizia que era mais fcil se
pudesse. E a senhora, pode?
         -- Posso, o qu?
         -- Mexer-se, deslocar-se para mudar de posio quando a msica se torna insuportvel.
         Mrs. Snow hesitou um pouco.
         -- Claro que me posso mexer por todo o lado, na cama! -- respondeu com alguma
irritao.
         -- Pode dar-se por feliz por isso, no acha? Mrs. White no podia. Quando se tem febre
reumtica no nos podemos mexer, por muito que queiramos, dizia Mrs. White. Ela contou-me
que quase tinha dado em maluca se no fossem os ouvidos da irm de Mr. White. Por ela ser
surda.
         -- Os ouvidos da irm! Que quer dizer?
         Pollyanna riu.
         -- Ah, eu no contei tudo e esqueci-me que a senhora no conhecia a Mrs. White. O que
se passa  que a irm, Miss White, era surda, completamente surda e veio para casa deles para
ajudar a tratar de Mrs. White. Tiveram tantas dificuldades em fazer com que ela percebesse fosse
o que fosse que, depois de algum tempo, quando o piano comeava a tocar do outro lado da rua,
Mrs. White ficava contentssima por conseguir ouvi-lo e deixou de se importar. No conseguia
deixar de pensar como seria horrvel se fosse surda e no conseguisse ouvir nada, como a irm do
marido. Est a ver, ela tambm estava a jogar o mesmo jogo. E fui eu que lho ensinei.
         -- Jogo, que jogo?
         Pollyanna bateu as palmas.
         -- Ah, quase me esquecia. Eu estive a pensar naquilo de outro dia, sobre razes para
                                                                                                  30

estar contente.
        -- Contente? Que quer dizer?
        -- Eu disse-lhe que ia pensar, no se lembra? Pediu-me para lhe dizer alguma coisa de
que pudesse estar contente, apesar de ter que estar deitada o dia inteiro.
        -- Ah isso! J me lembro. Mas no pensei que levasse isso mais a srio do que eu.
        -- Sim, levei! -- disse Pollyanna triunfantemente.
        -- E j descobri, mas foi difcil. Assim at  mais engraado, quando  difcil. E levei isso
to a srio que, durante um tempo, no pensei em mais nada, at que descobri.
        -- Descobriu? Ento o que ? -- perguntou Mrs. Snow com voz sarcstica, mas educada.
        Pollyanna respirou fundo.
        -- Eu pensei que deveria estar muito contente por as outras pessoas no serem como a
senhora e no estarem deitadas e doentes da mesma maneira.
        Mrs. Snow olhava zangada.
        -- Ah sim, realmente! -- exclamou ela em tom pouco amistoso.
        -- E agora vou lhe ensinar o jogo -- props Pollyanna confiante. -- Vai gostar muito de
o jogar pois  difcil. E sendo difcil torna-se muito mais divertido!  assim: -- e comeou a
contar as histrias das coletas de caridade, das muletas e da boneca que nunca mais chegava.
        Tinha acabado de contar a histria quando Milly apareceu  porta.
        -- A sua tia est a cham-la, Miss Pollyanna -- disse ela com ar preocupado. --
Telefonou para casa dos Harlows e diz que tem que se despachar para a lio de msica, antes do
anoitecer.
        Pollyanna levantou-se com relutncia.
        -- Est bem, eu despacho-me -- e riu-se. -- Acho que devo estar contente, afinal tenho
pernas para andar depressa. No  verdade, Mrs. Snow?
        No houve resposta. Os olhos de Mrs. Snow estavam fechados. Mas Milly, cujos olhos
estavam bem abertos de surpresa, viu que no rosto dela havia lgrimas.
        -- Adeus -- disse Pollyanna enquanto se dirigia para a porta. --  pena no ter tido
tempo para lhe arranjar o cabelo. Fica para a prxima vez!
        Os dias do ms de julho iam passando. Para Pollyanna eram dias felizes. Dizia muitas
vezes  tia como era feliz ali. Ao que a tia costumava responder:
        -- Muito bem, Pollyanna. Estou satisfeita por estares feliz, mas espero que aproveites o
tempo, seno chego  concluso de que no estou a cumprir o meu dever.
        Normalmente, Pollyanna respondia  tia com um abrao e um beijo. Um procedimento
que quase sempre era desconcertante para Miss Polly. Um dia falou disso durante a lio de
costura.
        -- Ento, a tia Polly acha que no chega eu ser feliz? -- perguntou ela pensativamente.
        --  verdade, Pollyanna.
        -- Ento tenho tambm que aproveitar o tempo?
        -- Decerto.
        -- E o que significa aproveitar o tempo?
        --  beneficiar, tirar partido e ficar com alguma coisa que se veja. Mas que criana
extraordinria que tu s!
        -- Ento, e ser feliz no  beneficiar? -- perguntou Pollyanna um pouco ansiosamente.
        -- Decerto que no.
        -- Ento, acho que no vai gostar. Receio que nunca h de jogar o jogo, tia Polly.
        -- O jogo, que jogo?
        -- O que o meu pai. -- Pollyanna levou logo a mo  boca. -- Nada -- emendou ela.
        Miss Polly franziu o sobrolho.
        -- Por hoje j chega, Pollyanna -- dando por concluda a lio de costura.
        Foi nessa tarde que Pollyanna ao descer do seu quarto do sto encontrou a tia nas
escadas.
                                                                                                31

        -- Mas que bom, tia Polly! -- gritou ela. -- Vinha c acima ver-me? Entre, adoro
companhia -- disse, voltando a subir as escadas e abrindo a porta.
        Miss Polly no tencionava ir ver a sobrinha. Ia procurar um certo xale de l na arca que se
encontrava junto a uma das janelas do sto. Mas, apanhada de surpresa, via-se agora no
quartinho de Pollyanna sentada numa das cadeiras. Como tantas vezes j acontecera desde que
Pollyanna tinha chegado, Miss Polly acabava por fazer coisas totalmente inesperadas e diferentes
das que tinha planeado fazer!
        -- Adoro companhia -- disse Pollyanna de novo, movimentando-se como se estivesse a
receber algum num palcio. -- Especialmente desde que tenho este quarto s para mim. Claro
que sempre tive um quarto, mas era alugado e os quartos alugados no so bonitos como os
nossos quartos. E claro que este quarto  meu, no ?
        -- Sim, Pollyanna -- murmurou Miss Polly, pensando vagamente nas razes que a
levavam a ficar ali sentada em vez de ir procurar o xale.
        -- E claro que eu agora gosto muito deste quarto, mesmo no tendo os tapetes, os
cortinados nem os quadros que eu gostaria
        Pollyanna caiu em si e corou. Ia comear a mudar de conversa quando a tia a interrompeu
abruptamente.
        -- Que  isso, Pollyanna?
        -- Nada, tia Polly, a srio. No era isto que eu queria dizer.
        -- Talvez no -- respondeu Miss Polly friamente -- mas acabaste por o dizer, portanto 
melhor acabares.
        -- Mas no era nada. S que eu tinha planeado ter bonitos tapetes e cortinados com laos
e essas coisas. Mas claro que...
        -- Tinhas planeado? -- interrompeu Miss Polly com voz severa.
        Pollyanna corou ainda mais.
        -- Eu no tinha nada que os ter, tia Polly -- desculpou-se ela. -- S que sempre desejei
essas coisas. Tnhamos dois tapetes, mas eram to pequenos e um deles tinha ndoas de tinta e
buracos, e nunca tivemos quadros alm dos dois que o pintou; quero dizer um deles, o melhor foi
vendido, o outro partiu-se. Se no fosse isso nunca teria feito planos sobre o lindo quarto que ia
ter quando aqui chegasse. Mas foi por pouco tempo. Fiquei logo contente por a cmoda no ter
espelho porque assim no via as minhas sardas e no h quadro mais bonito do que o que se
pode ver da janela. E a senhora tem sido to boa para mim que...
        Miss Polly levantou-se de repente. Estava muito vermelha.
        -- J chega Pollyanna! -- disse ela severamente.
        Logo de seguida desceu as escadas e s l em baixo se lembrou do que tinha ido fazer ao
sto.
        No dia seguinte, Miss Polly disse secamente a Nancy:
        -- Nancy, podes mudar as coisas de Miss Pollyanna para o quarto de baixo. Decidi que a
minha sobrinha passar a dormir ali, por agora.
        -- Sim, senhora -- disse Nancy em voz alta. "Mas que bom!" pensou Nancy.
        Foi logo ter com Pollyanna para lhe dar a boa notcia. Pollyanna nem queria acreditar.
        -- Isso  mesmo verdade?
        -- Bem pode acreditar -- dizia Nancy, enquanto retirava as roupas do armrio. -- A
senhora disse-me para levar as suas coisas todas para o quarto de baixo e  isso que eu estou a
fazer, antes que mude de idias e fique tudo na mesma.
        Pollyanna nem parou para ouvir o resto da frase. Correndo o risco de se magoar, desceu
as escadas a correr, dois degraus de cada vez. Depois de bater com duas portas e fazer cair uma
cadeira, chegou finalmente junto da tia.
        -- Oh, tia Polly, tia Polly, muito obrigada. O quarto novo tem tudo, tapetes, cortinados e
trs quadros! E as janelas tm a mesma vista! Oh, tia Polly, que bom!
        -- Muito bem, Pollyanna. Ainda bem que gostas da mudana. Mas se ds tanta
                                                                                                32

importncia a essas coisas, espero que cuides bem delas. Por agora  tudo. Faz o favor de levantar
a cadeira e v se no bates com as portas -- disse Miss Polly com ar srio.
        A sua expresso era ainda mais sria do que o costume, porque por uma razo
inexplicvel sentiu-se tentada a gritar e Miss Polly no estava habituada a tentaes dessas.
        Pollyanna levantou a cadeira.
        -- Desculpe.  que eu acabei de saber do quarto e acho que a Senhora tambm batia
com as portas se... -- Pollyanna fez uma pausa e olhou para a tia com um novo interesse. -- Tia
Polly, nunca bateu com as portas?
        -- Penso que no, Pollyanna! -- disse a tia chocada.
        -- Mas porqu, tia Polly? Que pena! -- a expresso de Pollyanna revelava apenas
compaixo.
        -- Pena? -- repetiu a tia demasiado espantada para dizer mais alguma coisa.
        -- Sim, j v, se se sentisse com vontade de bater portas teria batido com elas e, se no o
fez,  porque nunca ficou contente com nada. Seno t-las-ia batido. No podia deixar de o fazer.
E tenho tanta pena de que nunca tenha estado contente com nada!
        -- Pollyanna! -- rugiu a senhora.
        Mas Pollyanna j se tinha ido embora e s ouviu dela o bater distante da porta das
escadas do sto. Pollyanna tinha ido ajudar Nancy a trazer as coisas para baixo. Miss Polly na
sala de estar sentiu-se vagamente perturbada. Claro que j tinha ficado contente com algumas
coisas, pensou ela.




                           A apresentao de Jimmy


        Chegou o ms de agosto. Este ms trouxe vrias surpresas e algumas mudanas. No
entanto, nenhuma delas constituiu uma verdadeira surpresa para Nancy que desde a chegada de
Pollyanna tinha estado  espera de surpresas e mudanas.
        Primeiro foi o gatinho.
        Pollyanna encontrou um gatinho a miar desalmadamente, a alguma distncia da estrada.
Depois de ter perguntado a toda a vizinhana, no encontrou o dono e trouxe-o para casa.
        -- Ainda bem que no encontrei o dono -- disse ela  tia, muito satisfeita -- porque quis
logo traz-lo para casa. Adoro gatinhos. J sabia que o ia deixar viver c em casa.
        Miss Polly olhou para o montinho de plo que se encolhia nos braos de Pollyanna e
disse:
        -- Que horror Pollyanna! Que animalzinho horroroso! E com certeza est doente e cheio
de pulgas!
        -- Eu sei, pobre coitadinho -- lamentou Pollyanna com carinho olhando para os
olhinhos assustados do bicho. -- E est a tremer de medo.  porque ainda no sabe que vamos
ficar com ele.
        -- No, no vamos -- retorquiu Miss Polly com nfase.
        -- Pois vamos -- reafirmou Pollyanna, no tendo compreendido as palavras da tia. --
Eu disse a toda a gente que amos ficar com ele se no encontrssemos o dono. Eu sabia que ia
ficar contente e que ia ter pena deste gatinho abandonado!
        Miss Polly abriu a boca, a tentar falar, mas em vo. Voltava a sentir aquele curioso
                                                                                               33

sentimento de impotncia que experimentara to frequentemente desde a chegada de Pollyanna.
         -- Eu bem sabia -- respondeu Pollyanna com gratido -- que a tia, tendo tomado conta
de mim, no ia deixar o pobre bichinho sem casa, e disse a Mrs. Ford, quando ela me perguntou
se a tia me deixava ficar com ele, que eu tinha tido as senhoras da caridade e que o gatinho no
tinha ningum. Eu sabia que a tia ia pensar assim! -- e saiu a correr do quarto.
         -- Mas, Pollyanna, Pollyanna -- insistiu Miss Polly -- eu no... -- Mas Pollyanna ia j a
meio caminho da cozinha, gritando.
         -- Nancy, Nancy, olha este gatinho que a tia Polly vai criar juntamente comigo!
         E a tia Polly que detestava gatos deixou-se cair abatida na cadeira, desalentada e
impotente para protestar.
         No dia seguinte foi um co ainda mais sujo e desamparado que o gatinho. E de novo,
Miss Polly sem saber como encontrou-se no papel de protetora e anjo-da-guarda, o papel que
Pollyanna lhe atribua sem hesitar, como uma coisa natural que a senhora, que detestava ces
ainda mais do que gatos, se viu outra vez impotente para contrariar.
         Quando, porm, na mesma semana, Pollyanna trouxe para casa um rapazinho sujo e mal
vestido pedindo confiadamente a mesma proteo para ele, Miss Polly, desta vez, teve que se
opor mesmo.
         Numa agradvel manh de quinta-eira, Pollyanna foi de novo levar gelia de mo-de-vaca
 Mrs. Snow. Mrs. Snow e Pollyanna eram agora timas amigas. A amizade comeou a partir da
segunda visita de Pollyanna, ou seja, depois de a menina ter ensinado o jogo a Mrs. Snow. Esta
jogava agora o jogo com Pollyanna, embora no jogasse l muito bem, pois tinha se lamentado
tanto, durante tanto tempo, que no era fcil agora ficar contente com qualquer coisa. Mas, com
as alegres instrues de Pollyanna e as risadas que esta dava quando se enganava, ia aprendendo
depressa. Hoje, para grande delcia de Pollyanna, disse at que estava muito contente por
Pollyanna lhe ter trazido gelia de mo-de-vaca porque era justamente isso que lhe apetecia. Ela
no sabia que Milly, ao receber Pollyanna, tinha dito a esta que a mulher do pastor j tinha ali
estado, de manh, e tinha trazido um boio com gelia daquela.
         Pollyanna refletia sobre isto, quando, subitamente, viu o rapaz. O rapazinho estava
sentado com ar desconsolado num degrau junto  estrada a cortar aparas de um pau.
         -- Ol! -- disse Pollyanna tentando entabular conversa.
         O rapaz olhou para ela, mas desviou logo os olhos.
         -- Ol! -- resmungou ele.
         Pollyana riu.
         -- No pareces nada feliz -- disse Pollyanna, estacando diante dele.
         O rapaz olhou surpreendido e recomeou a cortar o pau com a faca. Pollyanna hesitou,
mas logo a seguir decidiu sentar-e na relva ao p dele. Apesar de Pollyanna costumar dizer que
estava habituada s senhoras da caridade e no se importar pelo fato de no ter companhias da
mesma idade, de vez em quando, desejava ter amigos da mesma idade. Da a sua determinao
em se esforar com este rapazinho.
         -- Chamo-e Pollyanna Whittier -- disse ela com simpatia. -- Como te chamas tu?
         O rapaz olhou para ela inquieto. Esboou um movimento para se pr de p, mas acabou
por se deixar ficar.
         -- Chamo-e Jimmy Bean -- respondeu ele, com pouca vontade de falar.
         -- timo! Agora estamos apresentados. Ainda bem que te apresentaste; algumas pessoas
no o fazem. Eu vivo em casa de Miss Polly Harrington. Onde vives tu?
         -- Em lado nenhum.
         -- Em lado nenhum? Porqu? Isso no pode ser, toda a gente vive nalgum lado.
         -- Pois olha, eu por agora no vivo em lado nenhum. Estou  procura de um stio novo.
         -- Ah sim? Aonde?
         O rapaz olhou com ar trocista.
         -- Palerma! Como se eu pudesse andar  procura de casa!
                                                                                                34

         Pollyanna sacudiu um pouco a cabea. Ele no estava a ser simptico e ela no tinha
gostado que ele lhe chamasse palerma. No entanto, valia a pena insistir porque ele era diferente
dos mais velhos.
         -- Onde vivias antes?
         -- Nunca mais paras de fazer perguntas? -- perguntou o rapaz impaciente.
         -- Tenho que fazer -- respondeu Pollyanna calmamente -- seno no consigo saber
nada acerca de ti. Se falasses mais, eu no perguntava tanto.
         O rapaz deu uma risada. Era um riso forado mas o rosto tornou-se simptico.
         -- Est bem, a vai! Sou Jimmy Bean e tenho dez anos. Vim no ano passado viver para o
orfanato mas j tinham l tantos midos que no havia espao para mim. Por isso fui-me embora.
Vou viver para outro lado, mas ainda no encontrei lugar. S queria um lar, um lar normal com
uma me. Ter um lar  ter uma famlia e eu no tenho uma famlia desde que o meu pai morreu.
Por isso, estou  procura. J tentei em quatro casas mas no me quiseram, embora eu dissesse que
queria trabalhar. Era isso que querias saber? -- a voz do rapaz esmorecera nas ltimas duas
frases.
         -- Mas que pena! -- disse Pollyanna cheia de compaixo. -- E ningum te quis? Eu sei
como te sentes porque depois de o meu pai morrer eu tambm no tive mais ningum seno as
senhoras da caridade, at que a tia Polly disse que tomava conta de mim. -- Pollyanna
interrompeu bruscamente. Tinha tido uma idia maravilhosa. -- Ah, j sei de um lugar para ti --
gritou ela. -- A tia Polly h de ficar contigo, tenho a certeza! No ficou ela comigo? E no ficou
tambm com o Fluffy e o Buffy quando eles no tinham ningum que tomasse conta deles nem
para onde ir? E afinal no passam de bichos. Vem, eu sei que a tia Polly fica contigo! No
imaginas como ela  boa e simptica!
         O pequeno rosto de Jimmy Bean iluminou-se.
         -- Tens a certeza? Ela fica comigo? Eu posso trabalhar e sou muito forte! -- disse ele
mostrando o seu bracito magro.
         --  claro que sim! A minha tia Polly  a melhor senhora do mundo depois de a minha
me ter ido para o Cu. E h muitos quartos -- continuou ela, saltitando e apalpando o brao
dele. --  um casaro enorme. Talvez -- acrescentou ela um pouco ansiosamente enquanto se
apressava -- talvez tenhas que dormir no quarto do sto. Eu primeiro tambm l dormia, mas
agora tem mosquiteiros e no faz tanto calor, alm de que as moscas no podem entrar com
micrbios nas patas. Sabias disso?  muito giro! Talvez ela te deixe ler o livro se fores bonzinho
ou se te portares mal. Tu tambm tens sardas -- disse ela com um olhar crtico. -- Assim ficars
contente por no haver nenhum espelho. E a vista daquela janela  mais bonita do que qualquer
quadro. Assim no te hs de importar de dormir naquele quarto, tenho a certeza -- insistiu
Pollyanna, descobrindo que precisava do flego para outros fins que no o de falar.
         -- Mas que bom! -- exclamou Jimmy Bean sem compreender muito bem, mas
satisfeitssimo. E acrescentou: -- No sabia que era possvel continuar a falar enquanto se corria!
         -- De qualquer maneira  melhor para ti -- retorquiu ela -- porque enquanto eu falo, tu
no tens de falar!
         Quando chegaram a casa, Pollyanna conduziu o companheiro diretamente  presena da
tia, surpreendida.
         -- Oh, tia Polly -- disse ela triunfante. -- Veja s! Trouxe uma coisa muito mais bonita
que o Fluffy e o Buffy para a senhora criar.  um rapaz srio. Ele no se importa de dormir no
sto ao princpio e diz que pode trabalhar, embora eu ache que vou precisar dele a maior parte
do tempo para brincar.
         Miss Polly ficou branca como cal e depois vermelha como um pimento. No estava a
perceber muito bem, mas aquilo que entendeu bastou.
         -- Pollyanna, que significa isto? Quem  este rapazinho sujo? -- perguntou ela
severamente.
         "O rapazinho sujo" recuou um passo e olhou para a porta. Pollyanna procurou rir.
                                                                                                   35

         -- Veja l, esqueci-me de lhe dizer o nome dele! Sou to esquecida como o Homem. E
tambm vem sujinho, no ? Est como o Fluffy e o Buffy quando aqui chegaram. Mas acho que
ele ficar melhor logo que se lavar, como eles. Chama-se Jimmy Bean, tia Polly.
         -- E o que faz ele aqui?
         -- J lhe disse tia Polly! -- os olhos de Pollyanna estavam enormes de surpresa. --
Trouxe--lho para si. Trouxe-o para casa, para ele viver aqui conosco. Ele quer um lar e uma
famlia. Contei-lhe como a senhora era boa para mim, para o Fluffy e para o Buffy e que eu sabia
que seria tambm boa para ele, porque  mais bonito que os bichinhos.
         Miss Polly deixou-se cair na cadeira e ergueu a mo trmula at  garganta. A impotncia
habitual ameaava mais uma vez apoderar-se dela. Porm, com um esforo visvel, Miss Polly
endireitou-se de repente.
         -- J chega, Pollyanna! Isto  a coisa mais absurda que tu fizeste at agora. Como se j
no bastasse trazeres para casa gatos e ces vadios, tens tambm de ir buscar rapazinhos pedintes
 rua!
         O rapazito, dando dois passos firmes nas perninhas magras, ps-se corajosamente diante
de Miss Polly.
         -- No sou nenhum pedinte, minha senhora e no quero nada de si. Estava  procura de
trabalho para o meu sustento. Mas no tinha vindo  sua casa se esta menina no me tivesse dito
como a senhora era boazinha e que estava desejosa de tomar conta de mim. Portanto, vou-me
embora! -- e dizendo isto, abandonou a sala com uma dignidade que teria parecido absurda se
no suscitasse pena.
         -- Oh, tia Polly! -- lamentou Pollyanna. -- E eu que pensava que ficava contente por o
ter aqui!
         Miss Polly ergueu a mo com um gesto firme, impondo o silncio. Os nervos de Miss
Polly tinham cedido. O que o rapaz tinha dito de "boa e simptica" ainda lhe soava aos ouvidos e
ela sentia que a habitual impotncia estava quase a tom-la. No entanto, num ltimo assomo de
vontade conseguiu dizer:
         -- Pollyanna -- gritou zangada -- queres parar de utilizar essa palavra gasta, de
"contente"!  "contente" de manh  noite. Ds comigo em doida!
         Pollyanna ficou boquiaberta.
         -- Mas porqu, tia Polly? -- murmurou ela. -- Eu pensava que ia ficar contente. Oh! --
interrompeu ela levando a mo  boca e saindo a correr da sala.
         Antes do rapaz chegar ao porto, Pollyanna alcanou-o.
         -- Jimmy Bean, peo-te imensa desculpa -- disse ela pesarosa, agarrando-o.
         -- Desculpa nada! No te culpo a ti -- retorquiu o rapaz solenemente. -- Mas no sou
nenhum pedinte! -- acrescentou ele altivo.
         -- Claro que no! Mas no deves deitar as culpas  tia Polly. Se calhar foi por eu no te
ter apresentado bem e no lhe ter dito quem tu eras. Ela  realmente boa e simptica, sempre tem
sido, mas eu se calhar no me expliquei bem. Quem me dera arranjar um stio para ti!
         O rapaz encolheu os ombros e fez meno de se ir embora.
         -- No faz mal. Hei de encontrar um lugar. Mas no sou nenhum pedinte.
         Pollyanna tinha uma expresso muito triste. De repente o rosto iluminou-se-lhe.
         -- J sei o que vou fazer! As senhoras da caridade vo reunir-se esta tarde, ouvi a tia Polly
dizer. Vou apresentar-lhes o teu caso. Era o que o pai fazia sempre que queria alguma coisa.
         O rapaz virou-se desconfiado.
         -- O que  isso das senhoras da caridade?
         Pollyanna olhou para ele reprovadoramente.
         -- Onde  que tu foste criado para no saber quem so as senhoras da caridade?
         -- Est bem, se no queres dizer no digas -- resmungou o rapaz, virando-se e
afastando-se com indiferena.
         Pollyanna correu logo para ele.
                                                                                                36

        -- So muitas senhoras que se encontram, fazem costura e do jantares para recolher
dinheiro e conversar. So muito simpticas, pelo menos a maioria delas era, l na minha terra.
No conheo as senhoras daqui, mas elas so sempre boas. Esta tarde vou contar-lhes o teu caso.
        O rapaz virou-se outra vez desconfiado.
        -- Nem penses nisso! Se calhar pensas que vou ficar por aqui para ouvir uma quantidade
de mulheres chamarem-me pedinte. J basta uma!
        -- Mas no precisas de estar l -- argumentou Pollyanna rapidamente. -- Eu vou
sozinha e digo-lhes.
        -- Vais?
        -- Sim, desta vez, conto-lhes bem as coisas -- apressou-se Pollyanna a dizer, desejosa de
ver sinais de apaziguamento no rosto do rapaz. -- E deve haver algumas que ho de gostar de te
dar um lar.
        -- E eu trabalho. No te esqueas de dizer isso.
        -- Claro que no -- prometeu Pollyanna satisfeita, convencida de que desta vez tinha
ganho. -- Amanh eu conto-te o que se passou.
        -- Onde?
        -- Na estrada onde nos encontramos hoje, perto da casa de Mrs. Snow.
        -- Est bem, estarei l. Talvez seja melhor eu voltar para o orfanato s por esta noite. Eu
no lhes disse que no voltava, seno no me deixavam voltar. Embora ache que eles no se
importam nada se eu desaparecer. No so como pessoas da famlia, no se preocupam nada!
        -- Eu sei -- assentiu Pollyanna com olhar compreensivo. -- Mas tenho a certeza de que
quando nos virmos amanh te terei j arranjado um lar e gente amiga pronta a tomar conta de ti.
Adeus! -- disse ela, voltando para casa.
        Junto  janela da sala de estar, Miss Polly, que tinha estado a observar as duas crianas,
seguiu de sobrolho carregado o rapaz at ele desaparecer numa curva de estrada. Depois
suspirou, voltou-se e subiu as escadas com um ar de desnimo. Miss Polly no costumava ter essa
expresso. Nos seus ouvidos ainda ecoavam as palavras ditas pelo rapaz em tom de desespero:
"E a senhora que era to boa e simptica". No seu corao experimentava uma curiosa sensao de
desolao, como se tivesse perdido uma coisa.
                                                                                              37




                        Com as senhoras da caridade


        O almoo, ao meio dia, foi uma refeio silenciosa. Nesse dia era a reunio das senhoras
da caridade. Pollyanna ainda tentou falar, mas no conseguiu porque quatro vezes teve de se
interromper devido ao fato de ir quase a dizer "contente", para grande atrapalhao sua.  quinta
vez, Miss Polly abanou a cabea impacientemente.
        -- Se tens alguma coisa a dizer, diz. Se no o fizeres, nunca mais sossegas.
        Pollyanna alegrou-se.
        -- Ah, muito obrigada.  muito difcil no pronunciar aquela palavra, joguei durante
tanto tempo aquele jogo.
        -- Jogaste o qu? -- perguntou a tia Polly.
        -- Aquele jogo, o do pai... -- Pollyanna interrompeu-se novamente com um incmodo
rubor nas faces, quando se viu de novo em terreno proibido.
        A tia Polly franziu o sobrolho e no disse nada. Durante o resto da refeio no disseram
mais nada. Logo a seguir telefonou  mulher do pastor comunicando que no poderia estar
presente na reunio das senhoras da caridade, naquela tarde, devido a uma dor de cabea.
Quando a tia Polly subiu para o seu quarto e fechou a porta, Pollyanna tentou ter pena da dor de
cabea, mas no pde deixar de se sentir contente por a tia no poder estar presente nessa tarde,
quando ela apresentasse o caso de Jimmy Bean s senhoras da caridade. Ela no se podia
esquecer que a tia Polly tinha chamado "pobre pedinte" a Jimmy Bean e no queria que lhe
voltasse a chamar isso diante das senhoras da caridade.
                                                                                                38

         Pollyanna sabia que as senhoras da caridade se reuniam s duas da tarde na capela, junto 
igreja, a pouco mais de meio quilmetro de casa. Planeou assim a sua partida de modo a chegar l
um pouco antes das duas da tarde.
         -- Quero que l estejam todas -- disse ela para si prpria -- seno uma que chegue
atrasada pode ser a que esteja disposta a ficar com Jimmy Bean e para as senhoras da caridade
duas da tarde significa sempre trs horas.
         Calma e confiante, Pollyanna subiu os degraus da capela, abriu a porta e entrou no
vestbulo. Da sala principal vinha uma algaraviada feminina. Com uma ligeira hesitao, Pollyanna
abriu a porta. As vozes acalmaram-se com alguma surpresa. Pollyanna avanou timidamente.
Agora que tinha chegado o momento, sentia-se muito envergonhada. Afinal estes rostos meio
estranhos no eram os das suas senhoras da caridade.
         -- Como esto as senhoras? -- perguntou educadamente. -- Eu sou Pollyanna Whittier,
creio que algumas das senhoras me conhecem, se bem que eu no as conhea a todas.
         Agora, o silncio era quase total. Algumas das senhoras no conheciam a sobrinha
extraordinria da sua colega embora quase todas tivessem ouvido falar dela. Naquele momento,
nenhuma delas encontrava nada para dizer.
         -- Vim aqui apresentar-vos um caso -- balbuciou Pollyanna, aps uns segundos,
utilizando inconscientemente a fraseologia do pai.
         Ouviu-se um sussurro geral.
         -- Foi a tua tia que te mandou? -- perguntou Mrs. Ford, esposa do pastor.
         Pollyanna corou um pouco.
         -- No, eu vim por vontade prpria. Estou habituada s senhoras da caridade que me
criaram com o meu pai.
         Uma delas riu histericamente e a mulher do pastor franziu o sobrolho.
         -- Sim, querida, o que ?
         --  por causa de Jimmy Bean -- suspirou Pollyanna. -- Ele no tem nenhuma casa
para alm do orfanato que est cheio e onde no o querem, pensa ele. Por isso quer uma famlia.
Quer algum que seja uma famlia para ele, que tome conta dele. Tem dez anos e vai fazer onze.
Pensei que alguma das senhoras quisesse tomar conta dele.
         -- Pensou? -- murmurou uma voz, quebrando a pausa de espanto que se seguiu s
palavras de Pollyanna.
         Com olhos ansiosos, Pollyanna percorreu o crculo de rostos em torno dela.
         -- Ah, esqueci-me de dizer! Ele quer trabalhar -- acrescentou ela ansiosamente.
         O silncio manteve-se. Depois, friamente uma ou duas das senhoras comearam a
interrog-la. Algum tempo depois tinham a histria completa e comearam a conversar umas
com as outras, animadamente, mas sem grande contentamento.
         Pollyanna ouvia com ansiedade crescente. Algumas das coisas que diziam ela no
entendia. Passado um bocado, percebeu, no entanto, que nenhuma das mulheres estava disposta
a dar-lhe guarida embora cada uma delas parecesse pensar que algumas das outras pudessem ficar
com ele, dado que existiam vrias que no tinham crianas pequenas em casa. Porm no havia
nenhuma que estivesse disposta a ficar com ele. A mulher do pastor sugeriu ento que, em
conjunto, talvez pudessem assumir a responsabilidade do seu sustento e educao, enviando
menos dinheiro este ano para as crianas da longnqua ndia.
         Muitas senhoras falaram ento e algumas delas ao mesmo tempo, ainda mais alto e de
modo mais incomodativo do que antes. Diziam que a sociedade delas era famosa pelas ofertas
que fazia s misses na ndia e vrias diziam que seria uma pena se este ano dessem menos
dinheiro. Pollyanna voltou a no entender muito bem o que estavam a dizer, mas parecia que o
importante era que o nome de uma sociedade rival no aparecesse no lugar delas, numa certa
lista, mas Pollyanna devia ter entendido mal! Era tudo muito confuso e pouco agradvel, de
maneira que Pollyanna ficou satisfeita quando se viu de novo l fora a respirar ar fresco. Mas, ao
mesmo tempo, estava muito triste porque sabia que lhe ia ser muito difcil dizer a Jimmy Bean,
                                                                                              39

no dia seguinte, que as senhoras da caridade tinham decidido que era prefervel enviar o dinheiro
para os meninos da ndia do que criar um menino da sua prpria cidade e que a razo para isso
era o fato de no virem a ser "mencionadas em primeiro lugar na tal lista", segundo tinha dito a
senhora alta de culos.
        Pollyanna pensava para si mesma que era, evidentemente, bom enviar dinheiro para os
pases mais pobres e no queria que elas deixassem de o enviar, mas tinham agido como se os
meninos daqui no tivessem qualquer importncia e s fossem dignos de cuidado os meninos dos
pases distantes. Apesar de tudo, pensava que as senhoras deviam preferir ver crescer Jimmy Bean
a um simples relatrio!




                            No bosque de Pendleton


         Ao sair da capela, Pollyanna no se dirigiu para casa mas sim para Pendleton Hill. Tinha
sido um dia difcil embora fosse um dos seus dias livres, como ela designava os poucos dias em
que no havia costura nem cozinha. E Pollyanna achava que no havia nada melhor do que o
passeio atravs dos bosques de Pendleton. Subiu assim a colina de Pendleton, apesar do calor que
se fazia sentir.
         -- S preciso de chegar a casa pelas quatro e meia -- pensava ela -- e ser muito mais
agradvel ir atravs dos bosques, mesmo que tenha de subir esta colina.
         Aqueles bosques eram muito belos e hoje pareciam ainda mais agradveis apesar de ela se
sentir triste com o que teria de dizer a Jimmy Bean no dia seguinte.
         Subitamente, Pollyanna levantou a cabea e ps-se  escuta. A alguma distncia, um co
ladrava. Um pouco depois, o co dirigiu-se a ela a correr, enquanto continuava a ladrar.
         -- Ol, cozinho! -- disse Pollyanna enquanto o acariciava e olhava para o carreiro, na
expectativa.
         Ela j tinha visto o co antes. Costumava acompanhar o Homem, Mr. John Pendleton.
Ela estava agora  espera que ele aparecesse. Olhou atentamente durante alguns minutos, mas ele
no apareceu. Depois desviou a ateno para o co.
         Este estava com um comportamento um pouco estranho. Continuava a ladrar como se
quisesse dar o alarme. Corria para trs e para a frente no carreiro. Parecia querer chamar a
ateno de Pollyanna para um caminho lateral, continuando a caminhar para trs e para diante,
enquanto ladrava.
                                                                                                 40

          -- Mas no  esse o caminho para casa -- riu Pollyanna, mantendo-se no carreiro
principal.
          O cozinho manifestava-se muito excitado. Continuava a correr para trs e para diante
entre Pollyanna e o caminho lateral. Todo o seu comportamento era um apelo to eloqente que,
finalmente, Pollyanna compreendeu e seguiu-o. Um pouco mais  frente, Pollyanna percebeu a
razo daquele comportamento. O Homem jazia junto a um grande rochedo, a alguns metros do
carreiro secundrio.
          Um ramo seco estalou sob os ps de Pollyanna e o Homem virou a cabea. Pollyanna
correu com um grito de surpresa.
          -- Mr. Pendleton! Est magoado?
          -- Magoado? No, estou a dormir ao sol!-- respondeu o Homem irritado. -- Tenho a
perna magoada.
          Com alguma dificuldade conseguiu levar a mo ao bolso das calas e tirou um molho de
chaves.
          -- Segue por aquele carreiro e dentro de cinco minutos estars em minha casa. Com esta
chave entras pela porta lateral. Depois diriges-te  sala no fim do corredor e numa secretria
grande que se encontra no meio da sala est o telefone. Sabes utilizar um telefone?
          -- Sim senhor, uma vez quando a tia Polly...
          -- No interessa agora a tia Polly -- interrompeu o Homem abruptamente, tentando
mover-se um pouco.
          -- Tens de procurar o nmero do telefone do Dr. Thomas Chilton, numa lista que deve
estar l.
          -- Sim senhor. A tia Polly tambm tem.
          -- Diz ao Dr. Chilton que John Pendleton est junto ao rochedo da guia, no bosque
Pendleton, com uma perna partida e diz-lhe que traga imediatamente dois homens e uma maca.
Ele saber o que deve fazer. Diz-lhe para vir pelo carreiro que parte diante da casa.
          -- Uma perna partida? Oh, Mr. Pendleton, que horror! -- exclamou Pollyanna. -- Mas
ainda bem que vim. No poderei...
          -- Sim, podes, mas agora no! Vai imediatamente, faz o que te peo e pra de falar --
resmungou o Homem quase a desmaiar.
          Com um ligeiro soluo Pollyanna partiu a correr. Em breve tinha a casa  vista. J a tinha
visto, mas nunca to prximo. Sentia-se agora um pouco assustada com a imponncia dos
grandes pilares de pedra cinzenta, as enormes varandas e a enorme entrada. Depois de uma breve
hesitao, correu atravs do relvado e torneou a casa para entrar pela porta lateral. Com alguma
dificuldade conseguiu, finalmente, abrir a porta.
          Pollyanna respirou fundo. Apesar da pressa, hesitou um momento olhando receosamente
atravs do vestbulo. Era a casa do John Pendleton, uma casa de mistrio, onde no entrava
ningum seno o dono; uma casa onde se abrigava algures um esqueleto.
          Com um gritinho Pollyanna, sem olhar para os lados, correu apressadamente atravs da
entrada e abriu a porta para o corredor, dirigindo-se para a sala. Esta era to grande e sombria, o
teto era de madeira escura, mas atravs da janela entrava uma rstia de sol que brincava na
proteo de lato da lareira. Pollyanna correu para a secretria, no meio da sala, onde se
encontrava o telefone. O livrinho dos telefones estava no cho. Mas Pollyanna conseguiu
encontr-lo e percorreu as folhas at encontrar o nome do Dr. Chilton. Conseguiu finalmente a
ligao e transmitiu a mensagem ao mdico que lhe fez algumas perguntas. Feito isto desligou e
respirou fundo de alvio.
          Pollyanna olhou ento em redor, apercebendo-se confusamente das tapearias, das
estantes cheias de livros que revestiam as paredes, das inmeras portas fechadas que podiam
muito bem esconder um esqueleto e do p.
          Pollyanna saiu a correr atravs do corredor, em direo  grande porta talhada, ainda
semiaberta como ela a deixara. Para o Homem que jazia ferido tudo aquilo fora muito rpido.
                                                                                              41

        -- Houve algum problema? No conseguiste entrar? -- perguntou ele.
        Pollyanna abriu muito os olhos.
        -- Claro que eu consegui! E aqui estou -- respondeu ela. -- No estaria aqui se no
tivesse entrado! E o mdico vir o mais depressa que lhe for possvel. Vai trazer os homens e o
resto das coisas. Ele disse que sabia exatamente onde estvamos e por isso no fiquei l para lhe
mostrar o caminho. Quis vir ter consigo.
        -- Quiseste? -- sorriu o Homem ironicamente. No posso dizer que admire o teu gosto.
Pensava que encontrarias melhores companhias.
        -- Diz isso por ser to rabugento?
        -- Obrigado pela franqueza. Sim.
        Pollyanna riu docemente.
        -- Mas o senhor  s rabugento por fora. Por dentro no  nada!
        -- Ah sim? E como sabes tu isso? -- perguntou o Homem tentando mudar a posio da
cabea sem mexer o resto do corpo.
        -- Por vrias razes. Por exemplo, a maneira como age com o seu co -- acrescentou ela
apontando para a mo dele que repousava sobre a cabea do co que se encontrava junto dele. --
 engraado como os ces e os gatos conhecem os donos por dentro melhor do que as outras
pessoas, no ?  melhor eu segurar na sua cabea -- concluiu ela abruptamente.
        O Homem gemeu vrias vezes, at conseguirem arranjar uma nova posio, mas
finalmente ele chegou  concluso de que o colo de Pollyanna substitua muito melhor o
pedregulho onde antes assentava a cabea.
        -- Ah, assim  melhor! -- murmurou ele suspirando.
        Durante algum tempo, no voltou a falar. Pollyanna observava a cara dele e interrogava-
se se estaria a dormir. Achava que ele no estava a dormir. Parecia que tinha os lbios cerrados
como se quisesse conter gemidos de dor. Pollyanna quase gritou quando se apercebeu bem de
como era grande e forte o corpo que ali jazia desamparado. O tempo ia passando, o sol comeava
a pr-se e as sombras entre as rvores eram cada vez mais profundas. Pollyanna sentava- se to
quieta que mal respirava. Um pssaro saltitava atrevidamente ao alcance da sua mo e um esquilo
abanava a cauda no ramo, quase por cima da cabea dela com os olhinhos brilhantes postos no
co imvel.
        Finalmente o co levantou as orelhas e ladrou. Logo a seguir Pollyanna ouviu vozes e em
breve apareceram trs homens, trazendo uma maca e outros artigos. O mais alto, que era o Dr.
Chilton, avanou com boa disposio.
        -- Ento esta linda menina est a brincar s enfermeiras?
        -- No senhor -- sorriu Pollyanna. -- Estou s a segurar na cabea dele. No lhe dei
remdio nenhum. Mas ainda bem que estava aqui.
        -- Tambm acho -- assentiu o mdico enquanto orientava a ateno para o homem
ferido.
                                                                                             42




                       Uma simples questo de gelia


         Pollyanna chegou um pouco atrasada ao jantar na noite do acidente de John Pendleton,
mas no foi repreendida.
         Nancy encontrou-a  porta.
         -- Ainda bem que chegou, so cinco e meia!
         -- Eu sei, mas no tenho a culpa. E tenho a certeza de que a tia Polly no me vai
repreender.
         -- Ela no est c para a repreender -- respondeu Nancy satisfeita. -- Ela partiu.
         -- Partiu? -- perguntou Pollyanna admirada. -- No me digas que fiz com que ela se
fosse embora? -- Ao esprito de Pollyanna veio a lembrana do que se passara de manh com o
rapazito rejeitado, a histria do gato e do co e das indesejadas palavras contente e "pai" que,
estando proibidas, lhe escapavam da boca. -- No me digas que eu a fiz ir embora?
         -- No, a culpa no foi sua. A prima dela morreu subitamente em Boston e ela teve que
partir. Esta tarde, depois da menina se ter ido embora, chegaram vrios telegramas e ela partiu.
No estar de volta antes de trs dias. Mas que bom, vamos ficar com a casa s para ns durante
todo esse tempo!
         Pollyanna olhou para Nancy chocada.
         -- Contentes? Oh, Nancy, quando h um enterro?
         -- Mas eu no estava contente por causa do enterro, Miss Pollyanna. Ento no me tem
estado a ensinar a jogar quele jogo -- chamou ela a ateno com uma expresso sria.
         Pollyanna franziu a testa.
                                                                                                 43

        -- H certas coisas com as quais no se pode fazer o jogo e uma delas so os enterros.
Num enterro no h nada que nos possa dar contentamento.
        Nancy retorquiu:
        -- Podemos ficar contentes por no ser o nosso enterro -- observou ela.
        Pollyanna no lhe deu ateno. Tinha comeado a contar o acidente detalhadamente e
Nancy ps-se a ouvir de boca aberta.
        Conforme combinado, na tarde seguinte, Pollyanna foi ao encontro de Jimmy Bean.
Como se esperava, Jimmy manifestou o seu desapontamento pelo fato de as senhoras da caridade
preferirem um menino da ndia a ele prprio.
        -- Talvez seja natural -- disse ele com um suspiro.
        -- As coisas que no conhecemos so sempre melhores do que as que conhecemos. S
queria que algum olhasse por mim dessa maneira. No seria timo se algum na ndia me
quisesse a mim?
        Pollyanna bateu as palmas.
        --  isso mesmo! Vou escrever s minhas senhoras da caridade! Elas no esto na ndia,
esto no Oeste, mas  muito longe e vai dar ao mesmo. Tenho a certeza de que ficam contigo,
pois ests bastante longe. E. no ficou a tia Polly comigo? -- Pollyanna fez uma pausa. -- Ouve
l, achas que eu fui para a tia Polly como uma menina da ndia?
        -- Se calhar... s uma menina muito esquisita.
        Tinha-se passado uma semana depois do acidente em Pendleton Hoods, quando
Pollyanna disse  tia, numa manh:
        -- Tia Polly, importava-se que eu, esta semana, levasse a gelia de mo-de-vaca de Mrs.
Snow a outra pessoa? Tenho a certeza de que Mrs. Snow no lhe apetece isso desta vez.
        -- O que ests tu a preparar, Pollyanna? s uma criana extraordinria!
        Pollyanna franziu a testa ansiosa.
        -- Por favor, tia Polly, que quer dizer extraordinria? Se somos extraordinrios, no
podemos ser ordinrios, no ?
        -- No, tu no podes.
        -- Ah, ento est bem! Estou contente por ser extraordinria -- disse Pollyanna com um
sorriso nos lbios.
        -- Mas ento, o que h com a geleia?
        -- Tenho a certeza de que a tia Polly no se importa. A perna partida dele no dura tanto
tempo como a invalidez permanentemente de Mrs. Snow e poderei continuar a visit-la depois.
        -- Ele? Perna partida? De que ests tu a falar Pollyanna?
        -- Ah, esqueci-me de que no sabia. No dia em que partiu para Boston, encontrei-o no
bosque e tive que ir a casa dele telefonar para o mdico; segurei-lhe na cabea e tudo. Depois
vim-me embora e, desde ento, no o vi mais. Mas quando Nancy fez a gelia para Mrs. Snow
esta semana, pensei que seria simptico se pudesse lev-la a ele em vez de a levar a ela, pelo
menos desta vez. Posso, tia Polly?
        -- Sim, creio que sim -- condescendeu Miss Polly um pouco cansada. -- Mas quem 
ele?
        --  o Homem. Quero dizer, Mr. John Pendleton.
        Miss Polly quase saltou da cadeira.
        -- John Pendleton!
        -- Sim, Nancy disse-me como ele se chamava. Talvez o conhea.
        Miss Polly no respondeu. Em vez disso perguntou:
        -- Tu conhece-o?
        Pollyanna disse que sim com a cabea.
        -- Sim, ele agora fala-me sempre e sorri. Ele  antiptico s por fora. Vou buscar a gelia.
Nancy j a deve ter pronta -- concluiu Pollyanna a caminho da sada.
        -- Pollyanna, espera! -- a voz de Miss Polly tornou-se subitamente muito grave. --
                                                                                              44

Mudei de idias. Prefiro que leves essa gelia a Mrs. Snow, como de costume. Por agora  tudo.
Podes ir-te embora.
         Pollyanna ficou com uma expresso tristssima.
         -- Mas, tia Polly, ela ainda vai ficar doente durante muito tempo. Ela pode continuar a
estar doente e a ter coisas mas ele tem s uma perna partida, no vai ficar muito tempo assim. J
est assim h uma semana.
         -- Sim, eu sei. Tive conhecimento do acidente, mas no me interessa mandar gelia a
John Pendleton.
         -- Eu sei que ele  antiptico, mas  s por fora -- admitiu Pollyanna tristemente. --
Deve ser por isso que no gosta dele. Mas eu no lhe digo que foi mandado por si. Digo que fui
eu. Eu gosto dele, fico muito contente por lhe poder levar gelia.
         Miss Polly comeou de novo a abanar a cabea. Depois, subitamente, parou e perguntou
com voz calma e cheia de curiosidade:
         -- Ele sabe quem tu s, Pollyanna?
         -- Penso que no. Eu disse-lhe o meu nome uma vez mas ele nunca me chama por ele.
         -- Ele sabe onde vives?
         -- No, eu nunca lho disse.
         -- Ento ele no sabe que s minha sobrinha?
         -- No. Acho que no.
         Por um momento fez-se silncio. Miss Polly olhava para Pollyanna como se no a
estivesse a ver. A menina mostrava-se impaciente. Ento, Miss Polly levantou-se.
         -- Muito bem, Pollyanna -- disse ela finalmente com aquela voz esquisita que no
parecia nada dela: -- Podes ento levar a gelia a Mr. Pendleton como um presente teu. Mas que
fique bem claro que no sou eu que o mando. V se ele percebe isso!
         -- Sim, obrigada, tia Polly -- exultou Pollyanna enquanto corria para a porta.




                                  O doutor Chilton


        A grande manso parece muito diferente a Pollyanna nesta segunda visita  casa de Mr.
John Pendleton. As janelas estavam abertas, uma velhota pendurava as roupas no ptio traseiro e
a charrete do mdico estava estacionada debaixo do alpendre. Tal como fizera da outra vez,
Pollyanna entrou pela porta lateral. Desta vez, tocou a campainha, pois no tinha os dedos
tolhidos com um monto de chaves.
        Um co, que j era seu conhecido, desceu os degraus para a receber, mas demorou um
pouco at que a mulher que pendurava a roupa lhe viesse abrir a porta.
        -- Por favor, eu trouxe um pouco de gelia para Mr. Pendleton -- sorriu Pollyanna.
        -- Obrigada -- disse a mulher estendendo a mo para o boio que se encontrava na mo
da menina. Quem devo dizer que a mandou?
        Nesse momento, o mdico que tinha entrado no hall ouviu as palavras da mulher e viu a
expresso desconsolada no rosto de Pollyanna. Aproximou-se.
        -- Ah! Gelia de mo-de-vaca? Isso  muito bom, talvez queira ver o nosso doente?
        -- Sim, sim! -- disse logo Pollyanna.
        A mulher, a um sinal de cabea do mdico abriu-lhe passagem com uma expresso de
surpresa estampada no rosto. Atrs do mdico, um enfermeiro "de uma cidade prxima"
exclamou perturbado:
        -- Mas, Sr. Doutor, Mr. Pendleton no deu ordens para no deixar entrar ningum?
        -- Sim -- respondeu o mdico indiferente. -- Mas agora estou a dar outra ordem. Eu
                                                                                               45

assumo a responsabilidade. Voc no sabe que esta menina  melhor do que meia garrafa de
tnico. Se h alguma coisa ou algum que pode pr Mr. Pendleton bem humorado esta tarde, 
ela.  por isso que eu a mando entrar.
         -- Quem  ela?
         Por breves momentos o mdico hesitou.
         --  sobrinha de uma das nossas mais conhecidas conterrneas. Chama-se Pollyanna
Whittier. Ainda no conheo muito bem a senhorita, por enquanto, mas muitos dos meus
doentes conhecem-na e tenho muito prazer em o dizer!
         O enfermeiro sorriu.
         -- Ah, sim? E quais so os ingredientes especiais desse tnico miraculoso?
         O mdico abanou a cabea.
         -- No sei. Tanto quanto me parece, trata-se de uma grande satisfao e contentamento
por tudo o que acontece ou vai acontecer. Estou constantemente a ouvir contar o que ela diz,
tanto quanto sei, "estar contente"  um elemento constante. S gostava de poder receit-la como
receito uma embalagem de comprimidos. Se bem que, se houvesse muitas como ela no mundo,
voc e eu teramos que arranjar outra maneira de ganhar a vida.
         Entretanto, Pollyanna, de acordo com as instrues do mdico, era conduzida ao quarto
de John Pendleton. Ao passar pela grande biblioteca a seguir ao hall, Pollyanna viu que tinha
havido grandes mudanas. As paredes forradas de estantes com livros e os cortinados escuros
eram os mesmos, mas estava tudo limpo e arrumado e no havia uma partcula de poeira  vista.
O livrinho dos telefones estava colocado no stio certo e os lates de proteo da lareira tinham
sido polidos. Uma das misteriosas portas estava aberta e foi atravs dela que a criada a conduziu.
Pouco depois, Pollyanna encontrou-se num quarto suntuosamente mobiliado, enquanto a criada
dizia com voz assustada:
         -- D-me licena, senhor. Est aqui uma menina que lhe traz gelia. O mdico disse para
ela entrar.
         E Pollyanna ficou sozinha com o Homem, de aparncia muito antiptica, deitado de
costas na cama.
         -- Olhe c, ento eu no disse... Ah, s tu! -- interrompeu ele quando Pollyanna avanou
em direo  cama.
         -- Sim, ainda bem que me deixaram entrar! Ao princpio, a empregada queria ficar com a
gelia e eu receava no o conseguir ver. Mas depois o mdico chegou e disse que eu podia entrar.
Ainda bem que ele me deixou vir v-lo.
         No rosto do Homem os lbios pareceram esboar um sorriso, mas o mais que saiu dali
foi um "Humm!"
         -- E eu trouxe-lhe alguma gelia -- concluiu Pollyanna. --  gelia de mo-de-vaca.
Espero que goste.
         -- Acho que nunca comi.
         O sorriso tinha desaparecido do rosto do Homem. Por breves instantes, Pollyanna
pareceu desapontada, mas logo se recomps quando pousou o boio de gelia.
         -- Nunca comeu? Se nunca provou, no pode saber se gosta ou no, assim, sinto-me
contente que no tenha ainda provado. Se soubesse...
         -- Sim, sim, h uma coisa que eu sei,  que sou obrigado a estar aqui deitado de costas
neste momento e que vou estar aqui at ao dia do Juzo Final.
         Pollyanna olhou para ele chocada.
         -- Oh, no, no vai ser at ao dia do Juzo Final, quando o anjo Gabriel tocar a sua
trompeta, a menos que ele a toque mais depressa do que ns pensamos. Claro que eu conheo a
Bblia e l se diz que pode chegar mais depressa do que ns pensamos, mas eu acho que no. Isto
, eu aceito o que diz a Bblia, mas no me parece que seja para breve e...
         John Pendleton riu subitamente muito alto. O enfermeiro que entrava naquele momento
ouviu a risada e preferiu retirar-se com o ar de um cozinheiro assustado ao ver o perigo de uma
                                                                                             46

corrente de ar dar cabo de um bolo semicozido e que fecha rapidamente a porta do forno.
         -- No ests um pouco confusa? -- perguntou John Pendleton a Pollyanna.
         A menina riu.
         -- Talvez, mas o que eu quero dizer  que as pernas partidas no demoram mais tempo a
curar do que os invlidos permanentes como a Mrs. Snow. Por isso, no vai ficar assim at ao dia
do Juzo Final e acho que devia estar contente com isso.
         -- Ah, claro que estou -- interrompeu o Homem incisivamente regressando  sua
amargura -- e posso tambm estar contente com o resto: o enfermeiro, o mdico e aquela
desajeitada mulher na cozinha!
         -- Claro que sim, pense s como seria mau se no os tivesse!
         -- O qu? -- perguntou ele.
         -- O que eu digo  que seria muito pior se tivesse que estar deitado e no os tivesse a
eles!
         -- Como se no fosse isso que estivesse na base de tudo! -- retorquiu o Homem. -- 
por isso que eu estou aqui deitado! E est  espera que eu diga que estou contente porque uma
mulher maluca desarruma a casa toda e diz que est a arrumar, e um homem que a ajuda e diz
que  enfermeiro, para j no falar do mdico que arranjou isto tudo, a contar que eu ainda por
cima lhes v pagar!
         Pollyanna fez uma expresso de simpatia.
         -- Sim, eu sei. Essa parte  muito desagradvel, a questo do dinheiro. Durante este
tempo no est a poupar, no ?
         -- O qu?
         -- A poupar, a comprar feijes e bolos de peixe. Gosta de feijes ou prefere peru?
         -- Ouve l menina, de que ests a falar? -- Pollyanna sorriu radiante.
         -- Sobre o dinheiro que economiza para os pases pobres. Eu descobri isso e foi tambm
por isso que fiquei a saber que Mr. Pendleton no era mau por dentro. A Nancy contou-me.
         O Homem abriu a boca.
         -- A Nancy contou-te que eu poupava dinheiro. E quem  essa Nancy?
         -- A nossa Nancy. Ela trabalha para a tia Polly.
         -- Tia Polly? Quem  a tia Polly?
         --  Miss Polly Harrington. Eu vivo com ela.
         O Homem fez um movimento brusco.
         -- Miss Polly Harrington?! Vives com ela?
         -- Sim, sou sobrinha dela. Ela tomou conta de mim por causa da minha me que morreu
-- prosseguiu Pollyanna em voz mais baixa. -- Ela era irm da minha me e depois de o pai ir ter
com ela e com os meus irmos ao Cu, no havia mais ningum que tomasse conta de mim para
alm das senhoras da caridade e por isso ela ficou comigo.
         O Homem no respondeu. O rosto dele estava to plido que Pollyanna ficou assustada.
Levantou-se apreensiva.
         -- Se calhar  melhor eu ir-me agora embora. Espero que goste da gelia.
         O Homem virou a cabea de repente e abriu os olhos. No fundo do seu olhar parecia
existir uma curiosa expresso de saudade em que Pollyanna reparou, maravilhando-a.
         -- Ento tu s a sobrinha de Miss Polly Harrington -- disse ele docemente.
         -- Sim, senhor. Se calhar conhece-a.
         Os lbios de John Pendleton formaram um estranho sorriso.
         -- Ah sim, eu conheo-a. Mas foi Miss Polly Harrington que mandou esta gelia para
mim? -- disse ele calmamente.
         Pollyanna mostrou-se desconsolada.
         -- No, senhor. No foi ela. Ela disse que eu devia frisar isso bem para no pensar que
tinha sido ela a mandar. Mas eu...
         -- Eu j sabia -- condescendeu o Homem, virando a cabea para o outro lado. Pollyanna
                                                                                                47

ainda mais desconsolada, retirou-se do quarto.
         No alpendre, encontrou o mdico que estava  espera da charrete. O enfermeiro tambm
l estava.
         -- Ento, Miss Pollyanna pode dar-me o prazer de a levar a casa? -- perguntou o mdico
sorrindo. -- H pouco ia-me embora, mas depois lembrei-me de que podia esperar por si.
         -- Obrigada. Ainda bem que esperou. Fico to contente por andar de charrete! --
exclamou Pollyanna enquanto lhe estendia a mo para subir.
         -- Fica muito contente? -- sorriu o mdico acenando ao enfermeiro que se encontrava
nas escadas. -- Tanto quanto sei existem bastantes coisas que a fazem ficar contente, no ?
         Pollyanna riu alto.
         -- No sei, se calhar h -- admitiu ela. -- Eu fico contente com quase tudo o que seja
"viver". Claro que no gosto muito das outras coisas, como a costura, ler alto, etc. Mas isso no 
viver.
         -- No? Ento o que ?
         -- A tia Polly diz que  "aprender a viver" -- disse Pollyanna com um sorriso tranqilo.
         O mdico sorriu agora com curiosidade.
         -- Ela diz isso? Bem me parecia que ela havia de dizer isso.
         -- Sim -- respondeu Pollyanna. -- Mas no penso assim. Acho que no  preciso
aprender a viver. Eu, pelo menos, no aprendi.
         O mdico respirou fundo.
         -- Receio que alguns de ns tenham de aprender, minha menina.
         Durante algum tempo ele manteve-se silencioso. Pollyanna olhando de soslaio sentiu por
ele um bocadinho de pena. Parecia to triste. Gostava de poder fazer alguma coisa por ele. Foi
talvez isso que a levou a dizer em voz tmida:
         -- Dr. Chilton, pensava que ser mdico era a coisa que mais contentamento trazia a uma
pessoa.
         O mdico olhou para ela surpreendido.
         -- Contentamento! Quando vejo tanto sofrimento em todo o lado!
         -- Eu sei, mas o senhor ajuda as pessoas e com certeza que fica contente por poder
ajudar! Por isso deve ser o mais feliz de todos!
         Os olhos do mdico ficaram marejados de lgrimas. A sua vida era muito solitria. No
tinha mulher nem lar para alm do consultrio de duas divises numa casa de hspedes. Mas
gostava muito da sua profisso. Olhando para o cabelo brilhante de Pollyanna sentiu como se
uma mo carinhosa tivesse pousado na sua cabea. Ele sabia tambm que nunca mais o cansao
de um longo dia de trabalho ou de uma noite em branco seriam to difceis de suportar depois
desse novo conforto que lhe tinha chegado atravs dos olhos de Pollyanna.
         -- Deus te abenoe menina -- disse ele com voz trmula. Depois, com o sorriso rasgado
que os seus pacientes conheciam e de que tanto gostavam, acrescentou: -- Afinal acho que o
mdico, tal como os doentes, estava a precisar desse tnico!
         Pollyanna ficou um pouco confundida at que um esquilo que atravessou a estrada a
correr lhe desviou a ateno.
         O mdico deixou Pollyanna  porta, dirigindo um sorriso a Nancy que estava a limpar o
alpendre. Depois afastou-se rapidamente.
         -- Dei um passeio timo com o mdico. Ele  muitssimo simptico!
         -- ?
         -- Sim. E eu disse-lhe que achava que a profisso dele devia ser a que mais
contentamento devia dar.
         -- O qu?! Ir ver gente doente e pessoas que no esto doentes, mas pensam que esto?
No h nada pior -- argumentou Nancy com ceticismo.
         -- Sim foi isso tambm que ele disse, mas mesmo assim existe uma maneira de ficar
contente. Adivinha!
                                                                                               48

         -- Nancy franziu a testa pensativa. A menina estava a conseguir que ela jogasse este jogo
de "ficar contente" com muito sucesso. Alm disso, estava a gostar muito de estudar os
problemas que a menina lhe apresentava.
         -- J sei, deve ser o contrrio daquilo que disse a Mrs. Snow.
         -- O contrrio? -- repetiu Pollyanna confundida.
         -- Sim, disse-lhe a ela que devia ficar contente por as outras pessoas no serem como ela
e no estarem doentes.
         -- Sim -- respondeu Pollyanna. -- E ento?
         -- Pois, ento o mdico pode estar contente por no estar doente como os outros, como
os doentes que trata -- concluiu Nancy triunfante.
         Pollyanna franziu a testa outra vez.
         -- Sim -- admitiu ela -- claro que essa  uma maneira, mas no foi isso que eu disse e
acho que no gosto muito dessa maneira.  quase como se ele dissesse que ficava contente por
os outros estarem doentes. Tu, s vezes, jogas o jogo de uma maneira muito engraada, Nancy --
disse ela enquanto se dirigia para casa.
         Pollyanna encontrou a tia na sala.
         -- Quem era o senhor que te trouxe? -- perguntoua senhora um pouco bruscamente.
         -- Foi o Dr. Chilton! No o conhece?
         -- O Dr. Chilton! Que fazia ele aqui?
         -- Ele trouxe-me a casa. Eu dei a gelia a Mr. Pendleton e...
         Miss Polly levantou a cabea bruscamente.
         -- Mas ele no pensou que fui eu que a enviei?
         -- No, tia Polly, eu disse-lhe que no tinha sido. -- Miss Polly corou.
         -- Tu disseste-lhe que eu no mandei a gelia?
         Pollyanna abriu muito os olhos com o tom admoestador da voz da sua tia.
         -- Mas foi isso que a tia Polly disse!
         A tia Polly suspirou.
         -- O que eu disse foi que no era eu que a mandava e que devias certificar-te de que ele
no pensava que eu tinha mandado! O que  muito diferente de lhe dizer diretamente que eu no
mandava! -- e dito isto, afastou-se zangada.
         -- No percebo a diferena -- disse Pollyanna suspirando enquanto se dirigia ao cabide
para pendurar o chapu.
                                                                                               49




                        Um xale e uma rosa vermelha


         Num dia chuvoso, cerca de uma semana depois da visita de Pollyanna a Mr. Pendleton,
Miss Polly foi a uma reunio do comit das senhoras de caridade. Ao regressar s trs da tarde,
trazia a face muito rosada e o cabelo desmanchado pelo vento, notando-se vrios caracis cados
por o cabelo se ter desprendido. Pollyanna nunca tinha visto a tia assim.
         -- Oh, tia Polly tambm os tem -- gritava ela danando irrequieta em redor da tia,
quando ela entrou na sala.
         -- Tenho o qu, menina desatinada?
         Pollyanna continuava a danar em volta dela.
         -- Nunca tinha dado por isso! Ser que as pessoas podem t-los sem darem por isso?
Acha que eu tambm posso vir a ter? -- gritava ela puxando com os dedos inquietos os seus
cabelos por cima das orelhas. -- Mas no devem ser negros, se vier a t-los.
         -- Que significa isto, Pollyanna? -- perguntou a tia Polly tirando o chapu e procurando
endireitar o cabelo.
         -- No, por favor tia Polly! -- pediu Pollyanna em tom apelativo. -- No os endireite! 
disso que eu estou a falar, desses lindos caracis negros. Oh, tia Polly, so to bonitos!
         -- Disparate! E o que foi isso de ir s senhoras de caridade, no outro dia, falar daquele
disparate sobre o rapazinho mendigo?
         -- Mas no  disparate nenhum. No imagina como est bonita com o cabelo assim! Oh,
tia Polly, por favor, posso pente-la como penteei a Mrs. Snow e pr-lhe uma flor? Gostava
muito de a ver assim! Havia at de ficar muito mais bonita do que ela!
                                                                                                   50

         -- Pollyanna! -- disse a tia Polly muito duramente e ainda mais porque as palavras de
Pollyanna lhe tinham despertado um estranho regozijo. H quanto tempo ningum se
preocupava em ver como lhe ficava o cabelo? E h quanto tempo ningum lhe dizia que gostava
de a ver bonita? -- Pollyanna, no respondeste! Porque foste falar com as senhoras da caridade?
         -- Eu no sabia que era disparatado at descobrir que elas preferiam ver o nome delas
em primeiro lugar numa lista do que ajudar o Jimmy. E assim est muito longe delas e pensei que
ele podia ser para elas o rapazinho da ndia delas, tal como... Tia Polly, eu para si fui a sua menina
da ndia? Tia Polly deixa-me pentear o seu cabelo, no deixa?
         A Tia Polly levou a mo  garganta; sentia de novo aquela sensao estranha.
         -- Mas Pollyanna, fiquei to envergonhada quando as senhoras me contaram esta tarde
como tinhas ido ter com elas! Eu...
         Pollyanna comeou a saltitar.
         -- Ainda no me disse que eu no podia pente-la -- gritou ela triunfalmente -- por isso
acho que posso. Deixe-se estar onde est. Vou buscar um pente.
         -- Mas, Pollyanna, Pollyanna -- protestou a tia Polly seguindo a menina e subindo as
escadas atrs dela.
         -- Ah, subiu tambm? Ainda  melhor! J tenho o pente. Agora sente-se aqui. Estou to
contente por me deixar pente- la!
         -- Mas Pollyanna, eu...
         Miss Polly no conseguiu concluir. Para sua surpresa encontrou-se sentada no banco
diante do toucador com o cabelo desmanchado sobre os ombros.
         -- Mas que lindo cabelo que tem e  muito mais abundante do que o de Mrs. Snow! Mas
claro, tambm precisa de ter mais cabelo porque est de boa sade e pode ir a stios onde as
pessoas a podem ver. Tenho a certeza de que as pessoas ficaro contentes por o ver. E ficaro
tambm surpreendidos porque o tem escondido h tanto tempo. Vou p-la to bonita que todos
gostaro muito de olhar para si!
         -- Pollyanna! -- disse a tia um tanto chocada. Nem sei como te deixo fazer estes
disparates.
         -- Porqu, tia Polly? Pensava que ficava contente por as pessoas gostarem de olhar para
si! No gosta de olhar para as coisas bonitas? Eu fico sempre muito mais contente quando olho
para as pessoas bonitas, porque quando olho para as outras tenho muita pena delas. Mas adoro
pentear as pessoas! Eu penteei muitas das senhoras de caridade, mas nenhuma delas tinha o
cabelo to bonito como o seu. Ah, tia Polly, lembrei-me agora de uma coisa! Mas  segredo e no
posso dizer. O seu penteado est quase pronto. Vou deix-la s por um momento mas tem de
me prometer no mexer nele at eu voltar. No se esquea! -- concluiu ela enquanto saa do
quarto.
         Miss Polly no disse nada, mas pensou que devia desfazer imediatamente esta palermice.
Nesse momento, Miss Polly olhou para si prpria no espelho do toucador. Aquilo que viu f-la
corar e quanto mais olhava mais corava. Viu um rosto que no era jovem,  verdade, mas que se
iluminava de excitao e surpresa. A face estava bonita de rosada. Os olhos cintilavam. O cabelo
negro e ainda mido caa em ondas soltas sobre a fronte num penteado que lhe ficava muito
bem, com pequenos caracis aqui e ali. Estava to absorvida e surpreendida com o que via ao
espelho que se esqueceu da sua determinao em desmanchar o cabelo at que ouviu Pollyanna
entrar de novo no quarto. Antes de se poder mexer sentiu uma coisa sobre os olhos e que era
atada na nuca.
         -- Pollyanna, o que ests a fazer?
         Pollyanna riu-se.
         --  isso mesmo que eu no quero que saiba, tia Polly, e tinha medo que mexesse, por
isso atei um leno. Agora esteja quieta. S falta um minuto para poder ver.
         -- Mas, Pollyanna -- disse Miss Polly endireitando-se sem ver nada. -- Tenho que tirar
isto, o que ests a fazer? -- protestou ela ao sentir uma coisa macia sobre os ombros.
                                                                                                    51

           Pollyanna riu ainda mais. Com os dedos irrequietos ela cobria os ombros da tia com um
lindo xale amarelecido por ter estado muitos anos guardado, mas que ainda cheirava a gua de
colnia. Pollyanna tinha encontrado o xale uma semana antes, quando Nancy arrumava o sto e
tinha-se lembrado de que poderia muito bem pentear a tia tal como fizera com as senhoras de
caridade. Concluda a sua tarefa, Pollyanna apreciou o seu trabalho com um olhar aprovador, mas
viu que ainda faltava uma coisa. Conduziu ento a tia at ao jardim.
           -- Pollyanna, o que fazes? Para onde me levas? -- disse a tia Polly procurando
vagamente resistir. -- Pollyanna no quero...
           -- Vamos s at ao solrio.  s um minuto! Fica j pronta -- acrescentou Pollyanna
deitando a mo a uma linda rosa vermelha e colocando-a no cabelo macio por cima da orelha
esquerda de Miss Polly. -- J est! -- exultou ela desapertando o leno e retirando-o. Oh, tia
Polly, agora tenho a certeza de que fica contente por eu a ter penteado!
           Miss Polly um pouco confusa olhou em redor e dando um gritinho recolheu ao quarto a
correr. Pollyanna olhou na mesma direo que a tia e viu, atravs das janelas abertas do solrio,
um cavalo e uma charrete que se aproximavam. Reconheceu imediatamente o homem que
segurava nas rdeas. Satisfeitssima inclinou-se.
           -- Dr. Chilton, Dr. Chilton! Veio ver-me? Estou aqui.
           -- Sim -- sorriu o mdico com um tom de voz um pouco srio. -- Importas-te de
descer?
           No quarto, Pollyanna encontrou a tia muito corada e zangada tirando os alfinetes que
seguravam o xale.
           -- Pollyanna, como te atreves! -- resmungou a tia. -- Imagina, preparar-me desta
maneira e depois deixar que me vejam!
           -- Mas estava to linda, tia Polly...
           -- Linda! -- troou a senhora pondo o xale de parte e remexendo no cabelo com os
dedos trmulos.
           -- Oh, tia Polly, por favor deixe ficar o cabelo!
           -- Deixar assim? Como se eu pudesse!
           -- Estava to bonita -- disse Pollyanna quase soluando enquanto saa do quarto.
           Em baixo, Pollyanna encontrou o mdico que esperava na sua charrete.
           -- Eu receitei-te a um doente e ele pediu-me para eu te vir buscar -- anunciou o mdico.
-- Queres vir comigo?
           -- Quer que eu v  farmcia? -- perguntou Pollyanna na dvida. -- Eu costumava ir
quando as senhoras da caridade me pediam.
           O mdico abanou a cabea com um sorriso.
           -- No  bem isso.  Mr. John Pendleton. Ele gostava muito de te ver hoje, se puder ser.
J parou de chover e eu levo-te l. Vens? Trago-te de volta antes das seis.
           -- Gostava muito! -- exclamou Pollyanna. Deixe-me ir pedir  tia Polly.
           Passados momentos voltou, com o chapu na mo, mas com uma expresso muito triste.
           -- A tua tia no te queria deixar ir? -- perguntou o mdico enquanto se afastavam.
           -- No, ela queria era demais que eu me fosse embora.
           --Queria que te fosses embora?
           Pollyanna suspirou outra vez.
           -- Sim, acho que ela no me queria l. Ela disse: "Sim, vai, vai depressa! Era melhor que j
tivesses ido".
           -- No era a tua tia que, h pouco, estava  janela do solrio?
           Pollyanna respirou fundo.
           -- Sim, foi esse o problema, creio eu. Eu penteei-a muito bem com um lindo xale que
encontrei l em cima e pus-lhe uma rosa no cabelo. Estava muito linda. No acha que estava?
           O mdico no respondeu logo. Quando falou, a voz era to baixa que Pollyanna mal
podia ouvir as palavras.
                                                                                             52

        -- Sim Pollyanna, tambm a achei linda.
        -- Achou? Estou to contente! Vou dizer-lhe isso.
        Para surpresa dela o mdico exclamou logo:
        -- Nunca! Peo-te para nunca lhe dizeres isso.
        -- Porqu, Dr. Chilton? Porque no? Pensava que ficava contente.
        -- Mas ela pode no ficar. -- interrompeu o mdico.
        Pollyanna reflectiu nisto por um momento.
        -- Se calhar no. Lembro-me agora que foi por o ter visto que ela desatou a correr. E
depois ela disse qualquer coisa sobre o ter sido vista naqueles preparos.
        -- Eu tambm acho isso -- disse o mdico suspirando.
        -- Mas continuo a no perceber porqu -- insistia Pollyanna. -- Ela estava to bonita.
        O mdico no disse nada. Nada mais disse at estarem quase a chegar ao grande casaro
de pedra onde John Pendleton se encontrava com uma perna partida.




                                   Como um livro


        Nesse dia John Pendleton cumprimentou Pollyanna com um sorriso.
        -- A Miss Pollyanna deve ser uma menina muito bondosa para me vir ver hoje outra vez.
        -- Porqu, Mr. Pendleton? Eu estou muito contente por vir e no vejo porque no
deveria estar.
        -- No outro dia eu fui muito mau para ti, quando me trouxeste com tanto carinho a
gelia e tambm no dia em que me encontraste com a perna partida. E, a propsito, acho que
nunca te agradeci por isso.  por isso que penso que sejas uma pessoa muito bondosa para me
vir ver depois de te ter tratado com tanta ingratido!
        Pollyanna ficou comovida.
        -- Mas eu fiquei muito contente por o ter encontrado, quero dizer, no por ter partido a
perna, claro! -- corrigiu ela apressadamente.
        John Pendleton sorriu.
        -- Estou a perceber. A lngua de vez em quando escapa-te no ? No entanto, agradeo-
te muito e acho que s uma menina muito valente para teres feito o que fizeste. Agradeo-te
tambm a gelia -- acrescentou ele com uma voz mais ligeira.
        -- Gostou da gelia? -- perguntou Pollyanna interessada.
        -- Gostei muito. J no tens mais dessa gelia que a tia Polly no me enviou, pois no?
-- perguntou ele com um sorriso estranho.
        A menina fez um ar desconsolado.
        -- No, senhor. -- Ela hesitou mas depois prosseguiu com mais calor: -- Por favor Mr.
                                                                                               53

Pendleton, eu no outro dia no quis ser desagradvel quando disse que a tia Polly no lhe tinha
enviado a gelia.
         No houve resposta. John Pendleton j no ria. Olhava em frente com os olhos de quem
no estava a ver o que estava diante dele. Passado um tempo, deu um grande suspiro e voltou-se
para Pollyanna. Quando voltou a falar a voz transmitia a habitual irritao.
         -- Isso no interessa! No te mandei chamar para me ouvires lamentar. Ouve! Na
biblioteca, a sala grande onde se encontra o telefone, que tu j conheces, est uma caixa numa
prateleira debaixo de um armrio com portas de vidro, no canto prximo da lareira. Dever l
estar se aquela mulher trapalhona no a tiver "arrumado" noutro stio! Podes traz-la.  pesada,
mas penso que podes bem com ela.
         -- Ah, eu sou muito forte -- declarou Pollyanna alegremente enquanto se punha de p.
         Num instante voltou com a caixa. Pollyanna passou ento uma meia hora maravilhosa. A
caixa estava cheia de tesouros, curiosidades que John Pendleton tinha adquirido ao longo dos
vrios anos de viagem e em relao a cada uma delas havia uma histria engraada, fosse acerca
de uma figura talhada da China ou de um dolo de jade da ndia. Foi depois de ouvir a histria
sobre o dolo que Pollyanna murmurou tristemente:
         -- Se calhar era melhor ficar com um menino da ndia para educar, um que no
conhecesse Deus mais do que este dolo, do que ficar com Jimmy Bean, um menino que sabe
muito bem que Deus est no cu. No posso deixar de pensar que era muito melhor elas ficarem
com o Jimmy Bean, juntamente com os meninos da ndia.
         John Pendleton parecia no ouvir. Os seus olhos estavam de novo fixos sem ver nada.
Mas logo se recomps e pegou noutra curiosidade para falar.
         A visita estava a ser muito agradvel, mas antes que Pollyanna tivesse percebido, j
estavam a falar sobre outras coisas para alm das curiosidades existentes naquela caixa. Estavam a
falar dela prpria, de Nancy, da tia Polly e da sua vida quotidiana. Conversaram tambm sobre a
vida de Pollyanna no longnquo Oeste, quando estava com o pai.
         Quando a menina estava quase a ir-se embora, o Homem disse numa voz que Pollyanna
nunca antes tinha ouvido:
         -- Minha menina, gostava muito que tu me viesses ver mais vezes. Vens? Eu estou muito
s e preciso de ti. E existe uma outra razo que te vou dizer. Primeiro, depois de eu ter sabido
quem tu eras, no outro dia, no te queria ver mais. Tu recordaste-me uma coisa que eu h muitos
anos tenho tentado esquecer. Assim, disse a mim prprio que no te queria voltar a ver e sempre
que o mdico perguntava se eu no queria que ele te trouxesse outra vez, eu respondia que no.
Mas, passado um tempo, descobri que desejava tanto ver-te que o fato de no te ver me fazia
ainda recordar mais aquilo que eu queria esquecer. Assim gostava que viesses mais vezes. Vens,
minha menina?
         -- Sim, Mr. Pendleton -- disse Pollyanna com os olhos radiantes de simpatia pela tristeza
do homem que estava deitado diante dela. -- Eu gosto muito de c vir!
         -- Muito obrigado -- disse John Pendleton amavelmente.
         Depois do jantar, nessa noite, Pollyanna sentada nas traseiras contou a Nancy tudo acerca
da caixa maravilhosa de Mr. John Pendleton e das curiosidades que ela continha.
         -- Imagine s, mostrou-lhe essas coisas todas e contou-lhe tantas histrias; ele que
costuma ser to antiptico e que nunca fala com ningum!
         -- Mas ele no  antiptico, Nancy, s por fora  que . No percebo porque  que toda a
gente pensa que ele  mau. Se o conhecessem no pensavam isso. Mas at a tia Polly no gosta
muito dele. Ela no queria enviar-lhe gelia e tinha medo que ele pensasse que tinha sido ela a
enviar!
         -- Devia ter razes para isso. O que me deixa espantada  como ele aceitou a Miss
Pollyanna, isto sem ofensa para si,  claro, mas ele no  o gnero de homem que costume
conversar com crianas.
         Pollyanna sorriu contente.
                                                                                                54

        -- Ele aceitou-me, mas acho que nem sempre  assim. Hoje ele confessou-me que da
outra vez no me queria ver mais porque eu lhe lembrava uma coisa que ele queria esquecer. Mas
depois...
        -- O qu? -- interrompeu Nancy excitada. -- Ele disse-lhe que a menina o fazia
recordar uma coisa que queria esquecer?
        -- Sim. Mas depois.
        -- E o que era isso? -- insistiu Nancy ansiosa.
        -- Ele no me contou. S disse que era uma coisa.
        -- Que mistrio! Deve ter sido por isso que ele a aceitou. Oh, Miss Pollyanna! Isso 
como num livro. J li muitos. Todos eles tinham mistrios e coisas como essa. Cruzes canhoto!
Imagine s ter um livro vivo debaixo do seu nariz e no saber o que ! Conte-me tudo. Deve
haver uma amada! No admira que ele a tenha aceite a si, no admira nada!
        -- Mas no foi isso. Ele no sabia quem eu era at ao dia em que eu lhe levei a gelia de
mo-de-vaca e tive que lhe explicar que no tinha sido a tia Polly que a tinha enviado e...
        Nancy ps-se de p de repente e bateu as palmas.
        -- Miss Pollyanna, j sei, j sei! -- exultou ela radiante. -- Diga-me, responda-me com
franqueza -- pediu ela excitada. -- Foi depois de ele descobrir que a menina era sobrinha de
Miss Polly que ele disse que no a queria ver mais?
        -- Sim, eu contei-lhe aquilo da ltima vez que o vi e ele disse- me isso hoje.
        -- Bem me parecia -- disse Nancy triunfante. -- E Miss Polly disse que por ela no
mandava a gelia, no foi?
        -- Sim.
        -- E a menina disse-lhe isso?
        -- Sim, eu...
        -- E ele comeou a agir de modo esquisito e ficou comovido depois de descobrir que a
menina era sobrinha dela, no foi?
        -- Sim, ele comeou a comportar-se de modo um bocado estranho sobre a gelia --
admitiu Pollyanna pensativa.
        Nancy deu um grande suspiro.
        -- Ento tenho a certeza de que j percebi! Agora oua isto: Mr. John Pendleton era o
noivo de Miss Polly Harrington -- disse ela solenemente enquanto olhava receosamente por
cima do ombro.
        -- No pode ser Nancy! Ela no gosta dele -- objetou Pollyanna.
        Nancy olhou para ela de modo trocista.
        -- Claro que no! A questo  essa!
        Pollyanna continuava a olhar incrdula e Nancy, depois de respirar fundo outra vez,
preparou--se para lhe contar a histria.
        --  assim. Antes de a menina ter vindo, Mr. Tom contou-me que Miss Polly tinha tido
em tempos um namorado. Eu no acreditei. Era impossvel, ela com um namorado! Mas Mr.
Tom disse-me que sim e que ele vivia nesta cidade. E agora j sei; claro que tem que ser Mr. John
Pendleton! No tem ele um mistrio na sua vida? No se fecha naquele casaro sozinho sem falar
com ningum? No agiu ele de modo estranho quando descobriu que a menina era sobrinha de
Miss Polly? E no confessou que a menina lhe lembrava algo que queria esquecer?  claro que
era por causa de Miss Polly! Alm disso, o fato de ela dizer que nunca lhe mandaria gelia. Est-se
mesmo a ver, no acha Miss Pollyanna?
        -- Oh! -- exclamou Pollyanna perfeitamente surpreendida. -- Mas Nancy, se eles se
amassem haviam de estar algum tempo juntos. Mas tm estado os dois ss durante todos estes
anos. Eles haviam de gostar de estar juntos!
        Nancy olhou desdenhosamente.
        -- Acho que a menina no sabe muito sobre namorados. Ainda no tem idade suficiente.
Mas se h algum no mundo que nunca faria uso do seu "jogo do contentamento"  um par de
                                                                                                55

namorados zangados.  isso que eles so. No  ele resmungo que se farta, normalmente? E no
 ela... -- Nancy parou bruscamente lembrando-se a tempo com quem e sobre quem estava a
falar. -- Seria uma bela coisa da sua parte se conseguisse junt-los de novo. Mas seria um
espanto, Miss Pollyana. No deve haver grandes probabilidades!
         Pollyanna no respondeu, mas quando entrou em casa pouco tempo depois, trazia uma
expresso muito pensativa.




                                        Os prismas


        Durante aquele ms quente de agosto, Pollyanna foi frequentemente ao casaro de
Pendleton Hill. No entanto, achava que as suas visitas no estavam a ter grande sucesso. No 
que o Homem desse mostras de no a querer ali. Antes pelo contrrio, ele at a chamava muitas
vezes. Mas quando ela l estava ele no parecia ficar muito mais contente com a sua presena.
Pelo menos, era isso que parecia a Pollyanna. Ele conversava com ela,  verdade, e mostrava-lhe
muitas coisas bonitas e interessantes: livros, gravuras e outros objetos curiosos. Mas continuava a
lamentar-se sobre o seu desamparo e continuava a protestar contra as regras e as arrumaes
impostas pelos indesejados empregados. Porm parecia realmente gostar de ouvir Pollyanna falar
e assim ela falava muito. Pollyanna gostava muito de falar, mas nunca sabia se, no momento
seguinte no o ia encontrar com aquele olhar vidrado que fazia d. E nunca sabia bem se tinham
sempre aquela melancolia.
        Quanto a ensin-lo a jogar o jogo do contentamento, Pollyanna nunca viu uma
oportunidade, nem mesmo quando pensava que ele lhe daria ateno. Por duas vezes, tentou
ensinar-lho, mas no conseguiu passar do princpio, das coisas que o pai dela costumava dizer.
Das duas vezes, John Pendleton mudou o rumo da conversa.
        Pollyanna no duvidava agora que John Pendleton tinha sido namorado da sua tia Polly e
com todas as foras do seu corao leal e terno desejava poder um dia trazer a felicidade quelas
vidas solitrias.
        Como havia de conseguir no sabia. Conversou com Mr. Pendleton sobre a tia e ele
                                                                                                 56

escutava, por vezes educadamente, por vezes irritado; mas frequentemente com um sorriso
estranho nos lbios que eram habitualmente sisudos. Ela falava  tia sobre Mr. Pendleton ou
melhor, tentava falar acerca dele. No entanto, normalmente Miss Polly no a escutava muito.
Encontrava quase sempre outra coisa para conversar. No entanto, ela tambm fazia isso
frequentemente quando Pollyanna falava de outras pessoas; do Dr. Chilton por exemplo.
Pollyanna atribua isto ao fato do Dr. Chilton a ter visto no solrio com a rosa no cabelo e o xaile
sobre os ombros. Com efeito, a tia parecia particularmente amargurada contra o Dr. Chilton,
como Pollyanna veio a descobrir um dia em que ficou de cama com uma grande gripe.
         -- Se no estiveres melhor  noite mando vir o mdico -- disse a tia Polly.
         -- Manda? Ento farei para ficar pior, pois gostava muito que o Dr. Chilton viesse ver-
me!
         Ficou surpreendida com a expresso do rosto da tia.
         -- No ser o Dr. Chilton, Pollyanna -- disse Miss Polly gravemente. -- O Dr. Chilton
no  o nosso mdico de famlia. Se estiveres pior, mando vir o Dr. Warren.
         Pollyanna no piorou e por isso no foi necessrio chamar o Dr. Warren. Nessa noite, ela
disse  tia:
         -- Gosto muito do Dr. Warren, mas prefiro o Dr. Chilton e acho que ele ficaria magoado
se no o chamasse. Afinal ele no tem a culpa de a ter visto quando a penteei no outro dia, tia
Polly -- concluiu ela tristonha.
         -- Basta, Pollyanna! No quero discutir o Dr. Chilton -- respondeu Miss Polly
rispidamente.
         Por momentos, Pollyanna olhou para ela com o olhar triste, depois deu um grande
suspiro.
         -- Gosto muito de a ver com a face assim corada, tia Polly, mas gostava tambm muito
de lhe arranjar o cabelo se... por que  que no deixa, tia Polly? -- mas a tia j se tinha ido
embora.
         No fim do ms de agosto, quando Pollyanna visitava John Pendleton, de manh cedo,
descobriu um reflexo do arco-ris na almofada dele e ficou deliciada.
         -- Olhe Mr. Pendleton  um arco-ris beb, um arco-ris a srio! Veio visit-lo! --
exclamou ela batendo as palmas. -- Mas que bonito que ! Como ter entrado?
         O Homem riu com pouca vontade. John Pendleton no estava muito bem disposto
naquela manh.
         -- Deve ter entrado atravs do vidro do termmetro que se encontra na janela -- disse
com ar cansado
         -- Mas  to bonito Mr. Pendleton! E  o sol que faz isso? Se o termmetro fosse meu,
tinha-o pendurado ao sol o dia inteiro.
         -- O termmetro havia de servir para grande coisa! -- disse o Homem rindo. -- E como
achas que conseguirias saber a temperatura se o termmetro estivesse pendurado ao sol todo o
dia?
         -- No me importava com isso -- respondeu Pollyanna fascinada com as lindas cores do
arco-ris sobre a almofada. -- Como se as pessoas se importassem se pudessem viver o tempo
todo num arco-ris!
         O Homem riu. Observava com curiosidade o rosto embevecido de Pollyanna. De sbito
ocorreu-lhe um novo pensamento e tocou a campainha.
         -- Nora -- chamou ele, quando a empregada j de idade apareceu  porta -- traga-me
um desses candelabros que esto em cima da lareira na sala da frente.
         -- Sim, senhor -- murmurou a mulher um pouco surpreendida.
         Em breve estava de volta. Um tinir musical invadiu o quarto enquanto ela se dirigia para a
cama. Vinha dos prismas suspensos no antigo candelabro que ela segurava.
         -- Obrigado. Pode pous-lo. Agora arranje um fio e prenda-o ao varo dos reposteiros,
naquela janela. Abra os cortinados e passe o fio de um lado ao outro da janela.  tudo, obrigado
                                                                                                 57

-- disse ele depois de ela ter executado as suas orientaes.
        Quando a empregada deixou o quarto, ele olhou sorridente para Pollyanna que estava
admirada.
        -- Agora, traz-me o candelabro, por favor, Pollyanna.
        Segurando-o com ambas as mos, ela trouxe-o e ele comeou a retirar os prismas um a
um, at que na cama se viam uma fileira de doze.
        -- Agora minha querida e se tu os pendurasses naquele fio da janela? Se queres de fato
viver num arco-ris, havemos de fazer um arco-ris onde possas viver!
        Pollyanna no tinha ainda pendurado trs dos prismas na janela banhada pelo sol e j via
uma amostra do que ia acontecer. Estava to entusiasmada que mal controlava os dedos
trmulos, tendo mesmo dificuldade em pendurar os restantes. Quando a tarefa ficou concluda,
deu um passo atrs e gritou encantada.
        Aquele quarto suntuoso e sombrio tinha-se tornado uma terra de fadas. Por todo o lado
se viam reflexos danantes de cores vermelha, verde, violeta, laranja, amarela e azul. As paredes, o
cho, a moblia, at a cama, eram iluminados com aqueles bonitos pedacinhos de cor.
        -- Oh, que lindo! At parece que o prprio sol est a tentar jogar o jogo, no acha? --
disse ela esquecendo-se que Mr. Pendleton no podia saber do que  que ela estava a falar. --
Quem me dera ter muitas coisinhas destas! Gostava imenso de as poder dar  tia Polly, a Mrs.
Snow e muitas outras pessoas. Haviam de ficar muito contentes! Se vivesse num arco-ris como
este, at a tia Polly havia de ficar to contente que deixava de conseguir evitar bater com as
portas. No acha?
        Mr. Pendleton riu.
        -- Bom, daquilo que me lembro da tua tia, acho que seria preciso mais do que alguns
prismas ao sol para que a alegria a fizesse bater com as portas. Mas diz l o que querias dizer.
        Pollyanna hesitou. Depois respirou fundo e disse:
        -- Ah, j me esquecia. No sabe acerca do jogo.
        -- E porque  que no me contas?
        E desta vez Pollyanna conseguiu contar-lhe. Contou-lhe tudo desde o princpio, desde as
muletas que vieram em vez da boneca. E enquanto lhe contava isto no olhava para ele. Os olhos
extasiados continuavam fixos nas cores dos prismas que balanavam ao sol.
        -- E  tudo. Agora j sabe por que razo eu disse que o sol estava a tentar jogar esse
jogo.
        Durante alguns segundos, fez-se silncio. Depois ouviu-se uma voz baixa vinda da cama:
        -- Talvez, mas eu acho que o prisma mais bonito de todos, s tu, Pollyanna.
        -- Mas eu no fao refletir essas lindas cores quando o sol bate em mim, Mr. Pendleton!
        -- No fazes? -- sorriu o Homem.
        E Pollyanna, observando o rosto dele, viu admirada que tinha os olhos marejados de
lgrimas.
        -- No -- disse ela. Passado um minuto acrescentou cabisbaixa: -- Receio que o sol em
mim s me faa sardas. A tia Polly diz que  o sol que as faz!
        O Homem riu um pouco. Pollyanna olhou outra vez para ele, pareceu-lhe que o riso tinha
soado quase como um soluo.
                                                                                              58




                                Uma certa surpresa


        Pollyanna entrou para a escola em setembro. Os exames preliminares revelaram que ela
estava bastante avanada para a sua idade e em breve encontrou-se numa classe de meninas e
meninos como ela.
        Em certos aspectos a escola foi uma surpresa para Pollyanna e tambm em muitos
aspectos Pollyanna foi uma surpresa para a escola. Em breve, o relacionamento tornou-se o
melhor. Ela acabou por confessar  tia que, afinal, ir  escola era tambm viver, embora antes
duvidasse disso.
        Apesar do entusiasmo pelas suas novas ocupaes, Pollyanna no esqueceu os velhos
amigos. Ela agora no lhes podia dedicar tanto tempo, mas estava com eles sempre que lhe era
possvel. De todos eles, John Pendleton era o mais insatisfeito. Num sbado  tarde ele falou-lhe
nisso.
        -- Olha Pollyanna, no gostavas de vir viver comigo? -- perguntou ele um pouco
impacientemente. -- Agora, quase no te vejo.
        Pollyanna riu. Achava Mr. Pendleton muito engraado.
        -- Pensava que no gostava de ter gente perto -- disse ela.
        Ele fez uma careta.
        -- Mas isso era antes de me teres ensinado aquele teu jogo. Agora estou contente por ter
partido uma perna! J no me importo nada; em breve estarei bom e depois vamos ver quem
anda mais -- concluiu ele agarrando numa das muletas e sacudindo-a divertidamente na direo
da menina.
                                                                                               59

         Durante todo o dia ficaram sentados na grande biblioteca.
         -- Mas o senhor no est verdadeiramente contente com essas coisas todas, apenas diz
que est. O senhor no est a jogar o jogo como deve ser!
         O Homem ficou muito srio.
         --  por isso que eu quero que tu me venhas ajudar a jog-lo. Queres vir?
         Pollyanna virou-se surpreendida.
         -- Mr. Pendleton, no est certamente a falar a srio, pois no?
         -- Estou sim. Quero que tu venhas. Vens?
         Pollyanna olhou desconsolada.
         -- No posso, Mr. Pendleton, sabe que eu no posso. Perteno  tia Polly!
         Uma expresso esquisita que Pollyanna no percebeu bem atravessou- lhe o rosto.
Ergueu a cabea irado.
         -- No lhe pertences nada! Talvez ela te deixasse vir viver comigo -- concluiu ele com
mais delicadeza.
         -- Virias se ela te deixasse?
         Pollyanna ficou pensativa.
         -- Mas a tia Polly tem sido to boa para mim; tomou conta de mim quando eu no tinha
mais ningum seno as pessoas da caridade e...
         De novo uma espcie de espasmo atravessou o rosto do Homem; mas, desta vez, quando
ele falou, a voz era baixa e triste.
         -- Pollyanna, h muitos anos, eu amei muito uma pessoa. Tinha esperanas de a trazer
um dia para esta casa e imaginava como seramos felizes juntos, no nosso lar, para toda a vida.
         -- Sim -- respondeu Pollyanna, com os olhos brilhando de simpatia.
         -- Mas no a consegui trazer para c. No interessa por que, mas no consegui. E, desde
ento, este grande amontoado de pedras tem sido uma casa, mas nunca um lar. Era preciso as
mos e a presena de uma mulher ou a presena de uma criana para fazer dela um lar, Pollyanna,
e eu no tenho nenhuma delas. Queres vir para c, minha querida?
         Pollyanna ps-se de p. O seu rosto iluminou-se.
         -- Mr. Pendleton, quer dizer que gostava de ter tido a mo e o corao dessa mulher
durante todo este tempo?
         -- Sim, Pollyanna.
         -- Estou to contente! Ento  verdade! Ento pode ficar com as duas e h de ficar tudo
muito bem.
         -- Ficar com as duas? -- repetiu o Homem espantado.
         Uma ligeira dvida atravessou a expresso de Pollyanna.
         -- Sim claro, a tia Polly ainda no est convencida, mas eu estou. Acho que ela ficar se
falar com ela como falou comigo e ento podamos vir as duas.
         Os olhos do Homem deixaram transparecer uma expresso de horror.
         -- A tia Polly vir para aqui?!
         Os olhos de Pollyanna abriram-se um pouco.
         -- Preferia ir antes para l? -- perguntou ela. Claro que a casa no  to bonita, mas 
mais perto...
         -- Pollyanna, de que ests tu a falar? -- perguntou o Homem muito calmamente agora.
         -- De onde iremos viver -- respondeu Pollyanna com natural surpresa. -- Pensei que
queria que fosse aqui ao princpio. Disse que era aqui que tinha querido ter o corao e a mo da
tia Polly durante todos estes anos para fazer um lar e...
         O Homem abafou um grito na garganta. Levantou a mo e comeou a falar, mas logo a
seguir deixou-a cair.
         --  o mdico, senhor -- disse a criada aparecendo  porta.
         Pollyanna levantou-se logo. John Pendleton virou-se para ela inquieto.
         -- Pollyanna, por amor de Deus no contes nada do que eu te pedi -- pediu ele em voz
                                                                                                60

baixa.
       Pollyanna fez um sorriso rasgado.
       -- Claro que no! Como se eu no soubesse que havia de preferir ser o senhor a dizer!
       John Pendleton deixou-se cair abatido na cadeira.
        -- Ento, o que se passa? -- perguntou o mdico um minuto depois, ao apalpar o pulso
do seu doente que batia aceleradamente.
       Um sorriso estranho danava nos lbios de John Pendleton.
       -- Foi uma dose excessiva do seu tnico, creio eu -- disse, rindo, ao reparar que o
mdico seguia a figurinha de Pollyanna que se afastava.




                              O mais surpreendente


        Aos domingos de manh Pollyanna costumava ir  igreja e  catequese.  tarde ia passear
com Nancy. Depois da sua visita a Mr. John Pendleton nessa tarde, ela tinha planejado um
passeio desses, mas no caminho para casa depois da catequese, o Dr. Chilton passou por ela na
sua charrete e parou.
        -- Posso dar-te boleia at a casa, Pollyanna? Preciso de falar contigo. Ia justamente a tua
casa agora. Mr. Pendleton pede encarecidamente que o vs ver esta tarde. Diz que  muito
importante.
        Pollyanna respondeu logo que sim, toda contente.
        -- Sim, eu sei que  muito importante. Eu vou.
        O mdico olhou para ela surpreendido.
        -- Mas eu no sei bem se te deva deixar ir. Hoje ainda pareces mais perturbadora do que
ontem.
        Pollyanna riu.
        -- Ah, no foi por minha causa, foi por causa da tia Polly.
        O mdico virou-se de repente.
        -- Da tua tia Polly?
        Pollyanna deu um pequeno salto no banco.
        -- Sim,  muito engraado, tal como numa histria. Eu vou contar-lhe. Ele disse para eu
no lhe contar nada, mas no se deve importar que o senhor saiba. Ele no devia querer  que ela
                                                                                                61

soubesse.
        -- Ela?
        -- Sim, a tia Polly.  claro que ele preferia ser ele prprio a dizer-lhe em vez de ser eu.
Os namorados so assim.
        -- Os namorados? -- ao dizer esta palavra o cavalo parou bruscamente como se a mo
que segurava as rdeas as tivesse puxado com fora.
        -- Sim, a histria  essa. Eu no sabia, at que Nancy me contou. Ela disse que a tia Polly
tinha tido um namorado aqui h anos, mas que eles se zangaram. Primeiro, ela no sabia quem
era, mas acabamos por descobrir.  Mr. Pendleton.
        O mdico descontraiu-se um pouco. A mo que segurava as rdeas caiu abandonada no
colo.
        -- Oh! No sabia -- disse ele calmamente.
        Pollyanna continuou. Entretanto j estavam prximos do solar Harrington.
        -- Sim, eu estou to contente. Mr. Pendleton pediu-me para ir viver com ele, mas claro
que no posso deixar a tia Polly assim, depois de ela ter sido to boa para mim. Depois contou-
me tudo sobre a mulher que sempre desejou e descobriu que a queria agora. E eu fiquei to
contente! Porque,  claro que se ele quiser fazer agora as pazes ficar tudo bem e a tia Polly e eu
iremos as duas viver para l ou ento vir ele viver conosco. Claro que a tia Polly ainda no sabe
e ainda no combinamos bem as coisas, portanto, penso que  por causa disso que ele quer ver-
me esta tarde.
        O mdico estava sentado muito direito. No rosto desenhava-se um sorriso estranho.
        -- Sim, posso bem imaginar que  isso que Mr. John Pendleton quer -- disse ele quando
fazia o cavalo parar diante da entrada.
        -- A tia Polly est ali  janela -- gritou Pollyanna. Mas um segundo depois acrescentou:
-- Afinal no est, mas pareceu-me t-la visto!
        -- No, ela j no est l -- disse o mdico. O sorriso tinha lhe desaparecido dos lbios.
        Pollyanna encontrou um John Pendleton nervoso  espera dela, naquela tarde.
        -- Pollyanna -- comeou ele de imediato -- durante toda a noite procurei decifrar tudo
aquilo que me disseste ontem sobre eu querer a tia Polly durante estes anos todos. Que querias tu
dizer com isso?
        -- Porque em tempos foram namorados e eu estava to contente por o senhor ainda
sentir o mesmo.
        -- Namorados! A tua tia e eu?
        Perante a surpresa manifesta na voz do Homem, Pollyanna abriu muito os olhos.
        -- Foi isso que Nancy disse!
        O Homem deu uma risada.
        -- Ah sim! Receio ter de te dizer que essa Nancy no sabe nada de nada.
        -- Ento no namoraram? -- perguntou Pollyanna aflita.
        -- Nunca!
        -- Ento as coisas no so todas como num livro?
        No houve resposta. O Homem tinha o olhar fixo na janela.
        -- Mas que pena! Estava tudo a correr to bem -- disse Pollyanna quase a soluar. -- Eu
estava to contente por vir para c com a tia Polly.
        -- E agora j no queres vir? -- perguntou o Homem sem virar a cabea.
        -- Claro que no! Eu perteno  tia Polly.
        O Homem virou-se quase furioso.
        -- Antes de tu lhe pertenceres, Pollyanna, tu pertencias  tua me. E foi a tua me que eu
h muitos anos quis.
        -- A minha me?
        -- Sim. No tencionava dizer-te, mas talvez seja melhor assim.
        John Pendleton tinha ficado muito plido. Falava com manifesta dificuldade. Pollyanna,
                                                                                              62

assustada, com os olhos e a boca muito abertos, olhava para ele fixamente.
        -- Eu amava muito a tua me, mas ela no me amava e algum tempo depois partiu com o
teu pai. S ento percebi quanto gostava dela. Parecia que o mundo inteiro se desfazia entre os
meus dedos e... no interessa! Durante muitos anos fui um velho antiptico e rabugento, embora
ainda nem tenha feito sessenta anos. At que um dia, tal como um dos prismas de que gostas
tanto, tu apareceste a danar na minha vida, e com a tua alegria desfizeste o meu velho mundo
em cinzas. Passado um tempo descobri quem tu eras e pensei que nunca mais te queria ver. No
queria que me lembrasses a tua me. Mas... J sabes o resto. Estava sempre a desejar que me
viesses visitar, e agora quero-te ter sempre comigo. Pollyanna, vens viver comigo?
        -- Mas, Mr. Pendleton, h a tia Polly...
        Os olhos de Pollyanna ficaram marejados de lgrimas. O homem fez um gesto
impaciente.
        -- Ento e eu? Como queres que eu possa ficar contente com as coisas sem ti? Foi s
depois de tu chegares que comecei a ficar meio contente por viver. Mas se te tivesse comigo,
ficaria muito contente com tudo e procuraria tambm fazer-te contente a ti. No haveria nada
que tu desejasses que eu no satisfizesse logo. Todo o meu dinheiro, at o ltimo cntimo seria
para te tornar feliz.
        Pollyanna olhou escandalizada.
        -- Mr. Pendleton, como se eu o pudesse deixar gastar comigo todo o dinheiro que
poupou para os pases pobres!
        O Homem ficou vermelho. Ia comear a falar, mas Pollyanna continuou:
        -- Alm disso, uma pessoa com tanto dinheiro como o senhor no precisa de algum que
o faa ficar contente com as coisas. Dando coisas s outras pessoas pode faz-las felizes, de tal
maneira que o senhor mesmo no pode deixar de ficar feliz! Pense s nesses prismas que deu a
Mrs. Snow e a mim e na moeda de ouro que deu a Nancy no dia dos anos e...
        -- Sim, mas isso no interessa -- interrompeu o Homem. Ele estava agora muito corado,
e no admira, porque no era por dar coisas aos outros que John Pendleton tinha sido conhecido
no passado. -- Isso  tudo um disparate. Eu no dei quase nada a ningum e aquilo que dei foi
por tua causa. Foste tu que deste essas coisas e no eu! E isso s vem demonstrar ainda mais
como eu preciso de ti -- disse ele procurando adoar o tom da sua voz. -- Se eu alguma vez
jogar o "jogo do contentamento" ters de ser tu a jog-lo comigo.
        A menina franziu a testa.
        -- A tia Polly tem sido to boa para mim... --comeou ela, mas foi interrompida
bruscamente por ele.
        Aquela velha irritao tinha voltado a transparecer-lhe no rosto. A impacincia de quem
no suportava qualquer contrariedade tinha feito parte da natureza de John Pendleton h
demasiado tempo para que a conseguisse conter.
        -- Claro que ela tem sido boa para ti! Mas no te quer nem metade de como eu te quero
-- contra-argumentou ele.
        -- Mas Mr. Pendleton, ela est to contente por ter...
        -- Contente! -- interrompeu o Homem perdendo completamente a pacincia. -- Tenho
a certeza que Miss Polly no sabe ficar contente com nada! Ela faz apenas o seu dever.  uma
mulher muito cumpridora dos seus deveres e eu j tive a experincia do seu "dever". Reconheo
que nos ltimos quinze ou vinte anos no fomos propriamente grandes amigos, mas eu conheo-
a. Todos a conhecem e ela no  do gnero de ficar "contente" com nada. Ela no  capaz.
Quanto a vires viver comigo, pergunta-lhe e vers se ela no te deixa. E, minha querida menina,
eu quero-te tanto! -- concluiu ele quase a chorar.
        Pollyanna levantou-se com um longo suspiro.
        -- Est bem, vou perguntar-lhe -- disse pensativamente. -- No  que eu no gostasse
de vir viver consigo, Mr. Pendleton.. -- mas no concluiu a frase. Houve um momento de
silncio e depois acrescentou: -- De qualquer modo estou satisfeita por no lhe ter dito ontem,
                                                                                            63

porque eu pensava que ela tambm havia de querer.
        John Pendleton fez um sorriso forado.
        -- Sim, de fato, Pollyanna, acho que foi melhor no lhe teres dito isso ontem.
        -- No no disse, s falei nisso ao mdico e claro que a ele no fazia mal.
        -- Ao mdico! -- gritou John Pendleton, virando-se repentinamente. -- Mas no foi ao
Dr. Chilton?
        -- Sim, quando ele me veio dizer que o senhor queria falar comigo hoje.
        -- No me digas uma coisa dessas. -- murmurou o Homem deixando-se cair na cadeira.
Depois endireitou-se manifestando um interesse sbito: -- E o que disse o Dr. Chilton? --
perguntou ele.
        Pollyanna franziu a testa pensativamente.
        -- No me lembro bem. No disse grande coisa. Ah, ele disse que bem podia imaginar
que o senhor me queria ver.
        -- Ai ele disse isso! -- respondeu John Pendleton.
        E Pollyanna ficou a pensar porque teria ele dado aquela sbita e estranha gargalhada.




                         A resposta a uma pergunta


        Quando Pollyanna deixou a casa de John Pendleton, o cu estava a escurecer
rapidamente, parecendo aproximar-se uma grande trovoada. A meio caminho de casa encontrou
Nancy com um chapu de chuva. As nuvens tinham, entretanto, mudado e parecia que o
aguaceiro, afinal, no estava para breve.
        -- Parece que afinal a tempestade se dirige para o norte -- disse Nancy, olhando o cu
criticamente. -- Bem me parecia, mas Miss Polly quis que eu viesse ter consigo com o chapu de
chuva. Ela estava preocupada consigo.
        -- Estava? -- murmurou Pollyanna pensativa.
        Nancy fungou.
        -- Parece que no ouviu o que eu disse -- observou ela com ar repreensivo. -- Eu disse
que a sua tia estava preocupada consigo!
        -- Ah! -- exclamou Pollyanna, lembrando-se de repente da pergunta que tinha estado
quase a fazer  tia. -- Mas que pena, eu no queria que ela se preocupasse.
        -- Pois eu estou muito contente -- respondeu Nancy inesperadamente. -- Muito
contente!
        Pollyanna olhou para ela surpreendida.
        -- Ests contente por a tia Polly estar preocupada comigo? Nancy, isso no  maneira de
jogar o jogo! Ficar contente com coisas dessas! -- objetou ela.
        -- Agora no estou a fazer o jogo -- respondeu Nancy. -- A menina parece no
compreender o que significa a Miss Polly preocupar-se consigo!
                                                                                                 64

         -- Sim, significa ficar preocupada e ficar preocupada  horrvel. Que mais pode
significar?
         Nancy abanou a cabea.
         -- Vou dizer-lhe o que significa. Significa que ela est finalmente a ficar humana como
toda a gente e que a sua nica preocupao j no  s cumprir o seu dever.
         -- Mas por que, Nancy? -- perguntou escandalizada Pollyanna. -- A tia Polly cumpre
sempre o seu dever. Ela  uma mulher muito cumpridora! -- Pollyanna repetia
inconscientemente as palavras de John Pendleton pronunciadas h meia hora.
         Nancy deu um risinho.
         -- L isso  verdade, ela sempre foi muito cumpridora. Mas agora  mais do que isso,
desde que a menina chegou.
         A expresso de Pollyanna alterou-se, manifestando preocupao.
         -- Era isso que te ia perguntar, Nancy. Achas que a tia Polly gosta de me ter com ela?
Achas que ela se importava se eu deixasse de viver com ela?
         Nancy olhou de relance para o rosto atento da menina. H muito que receava aquela
pergunta. Tinha pensado como deveria responder honestamente sem magoar Pollyanna. Mas,
agora que as suas suspeitas se tinham confirmado, depois da tia Polly a ter mandado com o
chapu de chuva, Nancy recebeu a pergunta de braos abertos. Estava certa de que podia
tranqilizar o corao sequioso de carinho daquela menina.
         -- Se ela gosta de a ter aqui? Ela havia de sentir muito a sua falta se a perdesse agora --
disse Nancy indignadamente. -- Ento no me mandou ela a correr com o chapu de chuva logo
que viu umas nuvenzinhas? No me mandou mudar as suas coisas todas para o andar de baixo
para o bonito quarto que a menina queria? Quando eu me lembro que ao princpio detestava t-la
c em casa... -- Nancy comeou a tossir e conteve-se mesmo a tempo. -- E no  s isso. H
outras pequenas coisas que mostram que a menina a amoleceu, como o gato, o co, a maneira
como ela fala comigo e muitas outras coisas.  impossvel dizer como ela havia de sentir a sua
falta se c no estivesse -- concluiu Nancy com entusiasmo, como que a ocultar uma idia
perigosa que tinha admitido antes.
         Mas, mesmo assim, ela no estava bem preparada para a alegria sbita que iluminou o
rosto de Pollyanna.
         -- Oh, Nancy, estou to contente! No imaginas como estou contente por a tia Polly me
querer!
         "Era impossvel eu deix-la agora!" pensou Pollyanna quando subia as escadas para o
quarto, pouco depois. "Eu sempre soube que queria viver com a tia Polly, mas no sabia at que
ponto queria que a tia Polly quisesse viver comigo".
         No seria fcil comunicar a John Pendleton a sua deciso. Gostava muito de John
Pendleton e tinha muita pena dele porque ele parecia ter pena de si prprio. Tinha tambm pena
da vida solitria que o tinha tornado to infeliz e magoava-a o fato de saber que tinha sido por
causa da me que ele tinha passado aqueles anos todos angustiado. Imaginou como seria aquele
grande casaro cinzento quando o seu dono estivesse restabelecido, com os sales silenciosos e
tudo desarrumado. Doa-lhe o corao por causa da solido dele. Bem gostava que ele
encontrasse algum. Naquele momento deu um salto, pondo-se de p e dando um gritinho de
alegria com a idia que lhe tinha vindo  cabea.
         Logo que pde correu a casa de John Pendleton e em breve encontrava-se na grande
biblioteca, sentada junto dele e do cozinho fiel deitado a seus ps.
         -- Ento, Pollyanna, vais jogar "o jogo do contentamento" comigo at ao fim da minha
vida? -- perguntou ele docemente.
         -- Oh, sim! -- gritou Pollyanna. -- Eu pensei na melhor coisa que podia fazer e...
         -- Contigo? -- perguntou John Pendleton comeando a manifestar preocupao.
         -- No, mas...
         -- Pollyanna, no me vais dizer que no! -- interrompeu ele com a voz cheia de emoo.
                                                                                               65

        -- Tem que ser, Mr. Pendleton, a tia Polly...
        -- Ela no te deixa vir?
        -- No lhe perguntei -- hesitou a menina compungida.
        -- Pollyanna!
        Pollyanna desviou os olhos. No conseguia enfrentar a expresso de dor espelhada no
olhar do seu amigo.
        -- Ento nem sequer lhe perguntaste?
        -- No pude, a srio... eu descobri, mesmo sem perguntar. A tia Polly tambm me quer.
Alm disso, eu tambm quero ficar -- confessou ela com uma certa coragem. -- No imagina
como ela tem sido boa para mim e eu acho que, por vezes, ela j comea a ficar contente com
algumas coisas, com muitas coisas. E isso nunca acontecia com ela. Mr. Pendleton sabe que 
verdade.  impossvel para mim deixar a tia Polly, agora!
        Durante um bocado s se ouviu o crepitar do fogo na lareira. Finalmente, o Homem
falou.
        -- Eu compreendo, Pollyanna. No a podes deixar agora -- disse ele. -- J no to peo
mais -- a ltima palavra foi pronunciada em voz to baixa que mal se ouviu, mas Pollyanna
percebeu.
        -- Mas ainda no ouviu o resto. Existe uma coisa que pode fazer e que o deixar muito
contente!
        -- A mim no, Pollyanna.
        -- Sim, a si. Disse que s a presena de uma mulher ou de uma criana podia fazer um
lar. Eu posso arranjar-lhe isso: a presena de uma criana; no eu, mas uma outra.
        -- Como se eu pudesse ter aqui outra pessoa que no tu! -- respondeu com voz
indignada.
        -- Quando o conhecer, h de querer. O senhor  to simptico e to bom! Veja s os
prismas e as moedas de ouro e todo o dinheiro que poupou para os pases pobres e...
        -- Pollyanna! -- interrompeu o Homem irritado. -- Acabemos com os disparates de
uma vez por todas! J te disse que no h dinheiro nenhum para os pases pobres. Nunca enviei
um tosto para eles!
        Olhou para ela, para ver a reao que j esperava, uma expresso de desapontamento nos
olhos de Pollyanna. No entanto, para sua surpresa no existia desapontamento nem amargura nos
olhos da menina. Apenas alegria e surpresa.
        -- Ainda bem que  assim. Quero dizer, no quero dizer que eu no tenha pena dos
pases pobres, mas assim no posso deixar de ficar contente por no querer meninos da ndia
porque todas as outras pessoas  isso que querem. E fico contente por preferir o Jimmy Bean.
Agora tenho a certeza de que ficar com ele!
        -- Ficar com quem?
        -- Jimmy Bean.  ele a criana de quem estou a falar e que ficar contentssima por lhe
fazer companhia. Tive que lhe dizer a semana passada que nem sequer as senhoras da caridade do
oeste queriam ficar com ele e ele ficou muito triste. Mas agora, quando ele ouvir isto h de ficar
muito contente!
        -- Ah, sim? Pois bem, eu no -- exclamou o Homem decididamente. -- Isto  um
grande disparate!
        -- Quer dizer que no quer ficar com ele?
        -- Sim,  isso mesmo.
        -- Mas ter a companhia de uma criana carinhosa -- balbuciou Pollyanna. Estava quase
a chorar. -- Com o Jimmy j no ficava sozinho.
        -- No duvido, mas prefiro ficar sozinho.
        Foi ento que Pollyanna, pela primeira vez desde h muitas semanas se lembrou
subitamente do que Nancy lhe tinha contado.
        Olhou para ele muito sria e disse:
                                                                                              66

        -- Talvez pense que um rapazinho simptico no  melhor do que o velho esqueleto que
tem guardado algures, mas eu acho que sim, acho que  melhor!
        -- Um esqueleto?
        -- Sim, a Nancy disse que tinha um esqueleto guardado num armrio algures.
        -- Ah, isso... -- o Homem desatou a rir.
        Ria com tanta vontade que Pollyanna comeou a chorar de nervosismo. Ao aperceber-se
disso, John Pendleton sentou-se direito e a sua expresso tornou-se sria.
        -- Pollyanna, se calhar tens razo, mais razo do que pensas -- disse ele docemente. --
Com efeito, eu sei que um rapazinho simptico seria muito melhor do que o esqueleto que tenho
guardado no armrio. S que nem sempre estamos dispostos a fazer a troca. Preferimos ficar
agarrados aos nossos esqueletos. No entanto conta-me l mais um pouco acerca desse teu rapaz.
        E Pollyanna contou-lhe.
        O riso talvez tivesse aliviado a atmosfera ou ento talvez a tragdia de Jimmy Bean, tal
como Pollyanna a contou, tivesse tocado aquele corao j semi amolecido. De qualquer modo,
quando Pollyanna regressou a casa nessa noite j trazia consigo um convite para Jimmy Bean, que
deveria visitar o casaro com Pollyanna no prximo sbado  tarde.
        -- Estou to contente! Tenho a certeza de que gostar dele! -- dissera ao despedir-se. --
Desejo tanto que Jimmy Bean tenha um lugar, com uma famlia que se preocupe com ele.




                                   Sermes e lenha


         Na tarde em que Pollyanna falou a John Pendleton de Jimmy Bean, o reverendo Paul
Ford percorria os bosques de Pendleton na esperana de que a beleza fulgurante da natureza de
Deus acalmasse o tumulto que os seus filhos tinham provocado.
         O reverendo Paul Ford estava muito magoado. Ms aps ms, desde h um ano, as
condies na sua parquia tinham piorado cada vez mais, at que, presentemente, para onde quer
que se virasse, encontrava apenas discusses, maldizncia, escndalo e inveja. Tinha procurado
evitar aquilo, falando com as pessoas, predicando, mas era ignorado. Alm disso, rezava
fervorosamente na esperana das coisas melhorarem. Porm, chegara  concluso de que nada
melhorara, antes pelo contrrio.
         Dois dos seus clrigos tinham se zangado por uma questo sem importncia; trs das suas
colaboradoras mais enrgicas da organizao de caridade tinham se afastado por causa das ms
lnguas que tinham provocado escndalo. Havia depois divergncias sobre as preferncias dadas
ao solista do coro. E para cmulo, o responsvel e dois dos professores da catequese tinham se
demitido. Esta fora a gota de gua que fizera transbordar o vaso e o pastor desanimado resolvera
ir para o bosque rezar e meditar.
         Era preciso fazer alguma coisa, pensava o pastor. Todo o trabalho da parquia estava
parado. Cada vez menos gente freqentava as atividades religiosas. Os poucos colaboradores que
restavam degladiavam-se entre si. Por causa de tudo isto, o reverendo Paul Ford sofria muito. Era
preciso fazer alguma coisa, mas o qu? O reverendo tirou do bolso as notas que tinha feito para o
sermo do prximo domingo. E comeou ento a ensai-lo aos gritos com voz irada. At os
                                                                                               67

pssaros e os esquilos tinham fugido deixando tudo em silncio. O reverendo dobrou de novo as
notas e meteu-as no bolso.
         Comeou ento a rezar. Estava ele nisto, quando Pollyanna, que regressava a casa depois
de ter estado no solar de Pendleton, o encontrou. Correu para ele com um gritinho.
         -- Oh, Mr. Ford! Partiu alguma perna?
         O reverendo deixou cair as mos e olhou para ela tentando sorrir.
         -- No, menina, no! Estou s a descansar.
         -- Ah, ainda bem.  que Mr. Pendleton, quando o encontrei, tinha partido uma perna.
Mas ele estava deitado no cho e o senhor est sentado.
         -- Sim, estou sentado e no parti nada que os mdicos possam curar.
         Estas ltimas palavras foram ditas em voz muito baixa, mas Pollyanna ouviu-as. Os olhos
dela brilharam de simpatia.
         -- Eu sei o que quer dizer, est preocupado com alguma coisa. O pai costumava sentir-se
assim muitas vezes. Quase todos os pastores se sentem, frequentemente, assim. Eles so sujeitos
a tantas exigncias e solicitaes!
         O reverendo virou--se para ela surpreendido.
         -- O teu pai era pastor?
         -- Sim, no sabia? Pensava que toda a gente sabia. Ele casou com a irm da tia Polly, que
era a minha me.
         -- Ah, estou a perceber. Sabes, eu estou aqui h poucos anos e no conheo as histrias
de todas as famlias.
         -- Sim, senhor -- sorriu Pollyanna.
         Fez-se um grande silncio. O reverendo que continuava sentado junto a uma rvore
pareceu ter se esquecido da presena de Pollyanna. Tirou alguns papis dos bolsos e desdobrou-
os, mas no estava a olhar para eles. Em vez disso tinha o olhar fixo numa folha cada, a alguma
distncia. Pollyanna sentiu uma certa pena dele.
         -- Est um lindo dia -- comeou ela, esperanosa.
         Por um breve instante no houve resposta, depois o reverendo olhou para cima.
         -- O qu? Ah sim, est um lindo dia.
         -- No faz frio nenhum, embora estejamos em outubro -- observou Pollyanna ainda
mais esperanosa. -- Mr. Pendleton tem uma lareira, mas diz que no precisa dela.  s para ver.
Eu gosto muito de ficar a olhar para a lareira, no gosta?
         Desta vez no houve resposta, embora Pollyanna aguardasse pacientemente antes de
tentar de novo.
         -- Gosta de ser pastor?
         O reverendo Paul Ford desta vez olhou logo para ela.
         -- Se eu gosto? Mas que pergunta estranha! Porque perguntas isso, minha menina?
         -- Nada. Pelo modo como olhava. Fez-me lembrar o meu pai. Ele costumava ter esse ar,
s vezes.
         -- Ah, sim? -- a voz do reverendo era educada, mas tinha voltado a fixar os olhos na
folha cada.
         -- Sim e eu costumava perguntar-lhe se gostava de ser pastor, tal como lhe perguntei
agora a si.
         O homem sorriu tristemente.
         -- E o que  que ele dizia?
         -- Claro que ele dizia sempre que sim, mas dizia tambm que no continuaria a ser pastor
nem mais um minuto se no fosse por causa dos "textos de jbilo".
         -- Os qu?
         -- Era assim que o pai costumava chamar-lhes -- disse ela a rir. --  claro que a Bblia
no lhe chama assim, mas so todos aqueles que servem para animar e reconfortar as pessoas:
Uma vez quando o pai se sentiu muito triste contou-os. Havia oitocentos textos desses.
                                                                                                                68

          -- Oitocentos?
          -- Sim, textos que dizem s pessoas para ficarem contentes, para se alegrarem. Era a
esses que o pai chamava "textos de jbilo".
          -- Ento o teu pai gostava desses "textos de jbilo" -- murmurou ele.
          -- Sim -- reafirmou Pollyanna enfaticamente. Ele dizia que se sentia logo melhor
quando os contava. Dizia que se Deus se deu ao incmodo de nos dizer oitocentas vezes para
ficarmos contentes e alegres era porque queria que ns tambm o dissssemos uns aos outros. E
o pai sentiu-se envergonhado por no o ter feito mais vezes. Depois disso, esses textos davam-
lhe tanto conforto quando as coisas corriam mal, quando, por exemplo, as senhoras da caridade
se zangavam umas com as outras por no concordarem com alguma coisa. E foram tambm
esses textos que o fizeram pensar naquele jogo que comeou a fazer comigo a propsito das
muletas. Ele disse-me que tinham sido os textos de jbilo que lhe tinham ensinado o jogo.
          -- E como era o jogo? -- perguntou o reverendo.
          -- O jogo consiste em encontrar sempre alguma coisa que nos faa estar contentes.
Como disse, comeou comigo a propsito das muletas.
          Mais uma vez, Pollyanna contou a histria dela e desta vez o reverendo escutou-a muito
atento, com olhos meigos.
          Um pouco depois, Pollyanna e o reverendo desceram a colina de mos dadas. Pollyanna
estava radiante, gostava imenso de conversar. O reverendo queria saber tantas coisas sobre o
jogo, sobre o pai dela e sobre a sua antiga casa. Na base da colina, separaram-se. Pollyanna
continuou por uma estrada e o reverendo por outra.
          Nessa noite, o reverendo Paul Ford sentou-se no seu escritrio a refletir. Sobre a
secretria estavam algumas pginas soltas com as notas do seu sermo. Diante dele tinha outra
folha em branco onde tencionava escrever o sermo. Porm, o reverendo no estava a pensar no
que tinha escrito nem naquilo que tencionava escrever. A sua imaginao estava muito longe
numa pequena cidade do oeste com um reverendo missionrio pobre, doente, preocupado e
quase s no mundo, mas que se debruava sobre a Bblia para descobrir quantas vezes Deus lhe
dizia para se alegrar e ficar contente.
          Passado um tempo, com um longo suspiro, o reverendo Paul Ford ergueu-se, regressou
da longnqua cidade do oeste e preparou as folhas de papel para escrever.
          " Mateus 23 13, 14 e 23" escreveu ele. Depois, com um gesto de impacincia deixou cair
a caneta e agarrou numa revista deixada por sua mulher na secretria, alguns minutos antes. Os
seus olhos cansados percorriam os vrios pargrafos at que as seguintes palavras lhe prenderam
a ateno:
          Um dia, um pai disse ao filho, depois de ter sabido que ele se tinha recusado a ir buscar lenha para a
me: "Tom, estou certo de que hs de ficar muito contente por ir buscar alguma lenha para a tua me". E, sem
dizer palavra, Tom foi. Por qu? Apenas porque o pai lhe manifestou diretamente que contava que ele fizesse as
coisas corretamente. Suponham que ele dizia "Tom, soube o que tu disseste  tua me esta manh e envergonho-me
de ti. Vai buscar lenha imediatamente!" Garanto-vos que a caixa de lenha continuaria vazia.
          O reverendo continuou a ler, uma palavra aqui uma linha ali, um pargrafo acol:
          O que os homens e as mulheres precisam  de encorajamento. As suas capacidades de resistncia naturais
devem ser fortalecidas e no enfraquecidas. Em vez de acusar permanentemente uma pessoa pelos seus erros fala-lhe
antes das suas virtudes. Procure encoraj-la a abandonar os seus maus hbitos. Faa apelo s melhores qualidades,
 verdadeira personalidade que saber usar e vencer. A influncia de uma personalidade cheia de esperana e de
beleza, sempre disposta a ajudar,  contagiosa e pode revolucionar uma cidade inteira. As pessoas irradiam aquilo
que vai no seu esprito e nos seus coraes. Se uma pessoa se sente boa e simptica, os seus vizinhos tambm se
sentiro assim. Mas se ele rabujar e criticar, os vizinhos retribuiro na mesma moeda e ainda com maior
intensidade. Se olhar para o que est mal, j  espera de o encontrar,  isso que obter. Mas quando tiver a certeza
de que o que vai encontrar ser bom,  isso tambm que encontrar. Diga ao seu filho Tom que sabe que ele h de
ficar contente por ir buscar lenha. Depois observe-o atenta e interessadamente!
          O reverendo ps a folha de parte e levantou a cabea. No momento seguinte estava de p
                                                                                                    69

e percorria o quarto de um lado para o outro, para a frente e para trs. Passado um pouco,
respirou fundo e sentou-se novamente  secretria.
         -- Meu Deus, ajudai-me! Vou dizer a todos os meus Toms que tenho a certeza de que
eles ficaro contentes por ir buscar lenha! Hei de distribuir-lhes tarefas e incutir-lhes tanta alegria
para as realizar que nem tero tempo de olhar para as caixas de lenha dos vizinhos!
         O reverendo comeou ento a escrever o seu sermo do princpio.
         O sermo do reverendo Paul Ford no domingo seguinte foi um verdadeiro apelo a tudo o
que cada homem, cada mulher e cada criana tinha de melhor e um dos textos citados da Bblia
fazia parte dos oitocentos que Pollyanna tinha referido.




                                          O acidente


         A pedido de Mrs. Snow, Pollyanna foi um dia ao consultrio do Dr. Chilton pedir a
receita de um remdio que ela precisava. Pollyanna nunca tinha estado antes no consultrio do
Dr. Chilton.
         -- Nunca tinha vindo  sua casa!  aqui que mora, no ? -- perguntou ela olhando com
curiosidade em volta.
         O mdico sorriu um pouco tristemente.
         -- Sim,  verdade -- respondeu ele enquanto passava a receita. -- Mas no  bem um lar
Pollyanna, so s quartos e salas e isso no chega para fazer um lar.
         Pollyanna fez que sim com a cabea. Os seus olhos irradiavam compreenso e simpatia.
         -- Eu sei,  preciso a presena de uma mulher e de uma criana para fazer um lar --
disse ela.
         -- O qu?
         -- Foi Mr. Pendleton que me disse. Por que no arranja uma mulher, Dr. Chilton? Ou
talvez queira ficar com Jimmy Bean se Mr. Pendleton afinal no quiser.
         O Dr. Chilton riu um pouco constrangido.
         -- Ento, Mr. Pendleton diz que  preciso uma mulher para fazer um lar? -- perguntou
ele evasivamente.
         -- Sim, ele tambm diz que o stio onde mora  apenas uma casa. Por que no arranja,
Dr. Chilton?
         -- Por que no, o qu? -- o mdico voltara a sentar-se  secretria.
                                                                                               70

         -- Por que no arranja uma mulher. Ah, j me esquecia -- disse Pollyanna um pouco
ruborizada. Acho que devo dizer-lho. No era da tia Polly que Mr. Pendleton gostava, portanto,
ns no vamos viver para l. No outro dia foi isso que eu lhe disse, mas tinha me enganado.
Espero que no tenha contado a ningum -- concluiu ela com uma expresso de ansiedade.
         -- No, no contei a ningum, Pollyanna -- respondeu o mdico, de modo um tanto
estranho.
         -- Ah, ainda bem -- exclamou Pollyanna aliviada.
         -- Sabe, o senhor foi a nica pessoa a quem eu contei e pareceu-me que Mr. Pendleton
ficou um tanto ou quanto divertido quando lhe disse que tinha contado a si.
         -- Ficou? -- perguntou o mdico fazendo por aparentar uma certa indiferena.
         --  claro que ele no gostaria que mais pessoas soubessem, dado que no era verdade.
Mas por que no arranja uma mulher, Dr. Chilton?
         Houve um instante de silncio. Depois com um ar muito srio o mdico disse:
         -- Isso no acontece sempre quando ns queremos, minha menina.
         Pollyanna fez uma expresso pensativa.
         -- Estava convencida de que o senhor conseguiria facilmente -- disse ela em tom de
lisonja.
         -- Obrigado -- riu o mdico com as sobrancelhas levantadas. Depois continuou com o
mesmo ar srio: -- Receio que algumas senhoras mais velhas do que tu no pensem da mesma
maneira. Pelo menos no se tm demonstrado to interessadas -- observou ele.
         Pollyanna franziu de novo a testa. Depois abriu os olhos com surpresa.
         -- No me diga que j tentou casar com uma senhora, como Mr. Pendleton, e no
conseguiu porque ela no quis?
         O mdico ps-se em p de repente.
         -- Pollyanna, isso agora pouco interessa. No te preocupes com os problemas das outras
pessoas. Vai levar o nome do remdio a Mrs. Snow. H mais alguma coisa?
         Pollyanna disse que no com a cabea.
         -- No, obrigada -- murmurou ela enquanto se voltava para a porta. A meio caminho da
sada, voltou-se com uma expresso alegre e disse: -- Ainda bem que no foi pela minha me que
esteve apaixonado!
         Foi no ltimo dia de outubro que o acidente ocorreu. Pollyanna que se dirigia
apressadamente para casa depois da escola, atravessou a rua a uma distncia aparentemente
segura de um carro que se aproximava. O que aconteceu ningum conseguiu explicar bem. Eram
cinco da tarde; Pollyanna foi levada inconsciente para o seu quarto. A tia Polly muito plida e
Nancy muito chorosa tiraram-lhe as roupas e meteram-na na cama. O Dr. Warren foi chamado
de urgncia.
         Nancy chorava sem parar no ombro do velho Tom enquanto dizia:
         -- Agora  que se v como Miss Polly gosta da sobrinha. No  o dever que a atormenta.
         -- Ela est muito mal? -- perguntou o velhote.
         -- Ela parecia morta, mas Miss Polly disse que no estava; e ela deve saber porque esteve
com a cabea encostada ao peito da menina e ouviu o corao a bater! Ela tem um pequeno corte
na cabea. Mas no parece muito mal, diz Miss Polly. Mas ela receia que a menina esteja ferida
interiormente.
         Mesmo aps a visita do mdico, pouco mais havia a dizer. Parecia no haver ossos
partidos e o golpe no tinha muito mau aspecto, mas o mdico tinha um ar muito srio e abanava
vagarosamente a cabea dizendo que s com o tempo se poderia saber.
         Depois de ele se ter ido embora, Miss Polly estava ainda mais desanimada do que antes. A
menina ainda no tinha recobrado a conscincia, mas de momento parecia estar a dormir bem.
Mandaram chamar uma enfermeira que deveria chegar nessa noite. S na manh seguinte  que
Pollyanna abriu os olhos e compreendeu onde estava.
         -- Que aconteceu, tia Polly? Por que no me consigo levantar? -- lamentou-se ela
                                                                                              71

deixando-se cair na almofada.
        -- Deixa-te estar, querida.
        -- Mas o que aconteceu? Porque no me consigo levantar?
         A Tia Polly explicou ento:
        -- Ontem, foste atropelada por um automvel. Mas isso no interessa agora, a tiazinha
quer que durmas mais.
        -- Fui atropelada? Ah sim, eu corri. Tenho dores.
        -- Sim, minha querida, mas agora descansa.
        -- Sinto-me to esquisita, tia Polly, tenho uma sensao estranha nas pernas.
        Com uma expresso de quem implora, Miss Polly virou-se para a enfermeira. A
enfermeira avanou rapidamente para junto da cama.
        -- Vamos agora ns falar. J  tempo de nos apresentarmos. Chamo-me Miss Hunt e vim
ajudar a sua tia a tratar de si. A primeira coisa que vou fazer  dar-lhe estes comprimidos.
        -- Mas eu no preciso que cuidem de mim! Quero levantar-me, quero ir para a escola.
No posso ir para a escola amanh?
        Da janela onde se encontrava a tia Polly, ouviu-se um soluo mal contido.
        -- Amanh? -- sorriu a enfermeira. -- No posso deix-la sair to cedo, Miss Pollyanna.
Mas tome estes comprimidos e vamos ver o resultado.
        -- Est bem -- concordou Pollyanna com uma expresso de dvida. -- Mas depois de
amanh tenho que ir  escola; tenho exames.
        Um minuto depois voltou a falar. Falou da escola, do automvel e das dores que sentia,
mas em breve, sob o efeito dos comprimidos, adormeceu.




                                   John Pendleton


        Afinal Pollyanna no pde ir  escola no dia a seguir, nem depois. Porm, a menina no
se deu bem conta disso, exceto quando, por um breve perodo de perfeita conscincia, fez vrias
perguntas. S uma semana depois comeou a ficar perfeitamente consciente, quando a febre
cedeu e as dores diminuram. Tiveram ento que lhe contar tudo o que se tinha passado.
        -- Ento, no estou doente, o que eu estou  ferida. Estou contente com isso.
        -- Contente, Pollyanna? -- perguntou a tia que estava sentada na cama dela.
        -- Sim,  muito melhor ter as pernas partidas como aconteceu a Mr. Pendleton do que
ficar invlido para sempre como Mrs. Snow. Uma perna partida cura-se, mas os invlidos
permanentes, no.
        Miss Polly levantou-se de repente e dirigiu-se para o toucador, do outro lado do quarto.
Comeou a mexer nos objetos como se no soubesse bem o que estava a fazer, o que contrastava
com a sua habitual determinao. Estava muito plida.
        Na cama, Pollyanna estava deitada, olhando para os reflexos do arco-ris no teto que eram
produzidos pelos prismas pendurados na janela.
        -- Tambm estou contente por no ter varicela -- murmurou ela. -- Isso  pior do que
sardas. Estou tambm contente por no ter tosse convulsa; j tive isso e  horrvel. Tambm
estou contente por no ter apendicite, nem bexigas porque as bexigas pegam- se e ento no a
deixavam estar aqui.
        -- Parece que ests contente com muitas coisas -- disse a tia, quase soluando.
         Pollyanna riu baixinho.
                                                                                               72

        --  verdade, estive todo o tempo a pensar nessas coisas enquanto olhava para o arco-
ris. Adoro o arco---ris. Estou to contente por Mr. Pendleton me ter dado aqueles prismas! E
tambm estou contente com outras coisas que ainda no disse. Eu ainda no sei bem, mas acho
que estou contente por estar ferida.
        -- Pollyanna!
        Pollyanna riu outra vez baixinho. Dirigiu o seu olhar luminoso para a tia.
        -- Sabe o que  tia, desde que eu fui ferida que me tem chamado muitas vezes de
"querida" e antes no o fazia. Adoro ser chamada "querida" pelas pessoas da minha famlia.
Algumas das senhoras da caridade chamavam-me isso e claro que era muito agradvel, mas no
to bom como por uma pessoa da minha famlia como a tia. Estou to contente por ser minha
tia!
        A tia Polly no respondeu. Tinha levado a mo  garganta outra vez para conter um
soluo. Tinha os olhos marejados de lgrimas. Virou-se e saiu apressadamente do quarto pela
mesma porta por onde tinha acabado de entrar a enfermeira.
        Foi nessa tarde que Nancy foi ter a correr com o velho Tom que limpava os arreios no
estbulo.
        -- Mr. Tom, adivinhe o que aconteceu. No consegue adivinhar, pode ter a certeza, nem
em mil anos.
        -- Ento nem vale a pena tentar, pois no vivo muito tempo;  melhor seres tu a dizeres-
me, Nancy.
        -- Ento oua: sabe quem est no hall de entrada com a senhora? Sabe?
        O velho Tom abanava a cabea.
        --  John Pendleton!
        -- Ests a brincar rapariga.
        -- Que eu seja ceguinha se no  verdade! Pois ele falou  senhora com toda a
naturalidade!
        -- E porque no havia de falar? -- perguntou o homem um pouco agressivo.
        Nancy olhou-o com uma expresso trocista.
        -- Como se no soubesse melhor do que eu!
        -- O qu?
        -- No precisa de se armar em inocente -- respondeu ela j meio indignada.
        -- Que queres tu dizer com isso?
        Nancy aproximou-se mais do velhote.
        -- Oua, ento no foi voc que me levou a pensar que Miss Polly tinha tido um
namorado?
        Com um gesto de indiferena o velho Tom voltou-lhe as costas e continuou a trabalhar.
        -- No sei o que queres dizer com todos esses disparates.
        Nancy riu-se.
        -- Pois eu convenci-me de que ele e Miss Polly tinham sido noivos.
        --Mr. Pendleton? -- disse o velho Tom endireitando-se.
        -- Sim. Agora j sei que no era ele. Ele esteve apaixonado sim, mas pela me de
Pollyanna e foi por isso que ele... mas isso no interessa. -- acrescentou apressadamente,
lembrando-se a tempo que tinha prometido a Pollyanna no contar nada sobre o desejo de Mr.
Pendleton em ela ir viver com ele. -- Eu perguntei a vrias pessoas sobre ele e descobri que ele e
Miss Polly no se falam e que ela o detesta desde que correram rumores sobre eles quando ela
tinha dezoito ou vinte anos.
        -- Sim, eu lembro-me -- respondeu o velho Tom. -- Foi trs ou quatro anos depois de
Miss Jenny o ter recusado e partido com o pastor. Miss Polly sabia do caso e tinha pena dele, por
isso tentou ser simptica. Talvez se tenha excedido um pouco, pois odiava o padre que lhe tinha
levado a irm. Mas depois comearam a comentar, dizendo que ela andava atrs dele.
        -- Ela, atrs de um homem? -- perguntou Nancy.
                                                                                                  73

         --  verdade parece impossvel, mas foi o que disseram e realmente no faz muito
sentido. Depois, apareceu o verdadeiro namorado dela e vieram os problemas com ele. Depois,
fechou-se como uma ostra e nunca mais deu troco a ningum. O corao dela pareceu ter se
tornado mais duro que pedra.
         -- Sim, eu sei. J tinha ouvido falar disso, foi por isso que fiquei to surpreendida quando
o vi  porta. Ele, com quem ela j no falava h tantos anos! Mas deixei-o entrar e fui anunci-lo.
         -- O que disse ela? -- o velho Tom conteve a respirao.
         -- Primeiro no disse nada. Ficou to quieta que pensei que no tinha ouvido. Ia repetir
quando ela disse calmamente: "Diga a Mr. Pendleton que eu deso j". Fui logo dizer-lhe e depois vim
aqui ter consigo -- concluiu Nancy olhando outra vez para a casa por cima do ombro.
         -- Hum! -- resmungou o velho Tom voltando ao trabalho.
         Na circunspecta sala de visitas do solar Harrington, Mr. John Pendleton no esperou
muito at ouvir os passos silenciosos de Miss Polly. Quando se levantou, ela cumprimentou-o
com um aceno de cabea. A sua expresso era fria e reservada.
         -- Vim saber de Pollyanna -- comeou ele de imediato com uma ligeira precipitao.
         -- Muito obrigada. Ela est na mesma -- disse Miss Polly.
         -- E no me diz como ela est? -- desta vez a voz dele no se manteve to firme.
         A expresso da senhora foi atravessada por um espasmo de dor.
         -- No sei. Bem gostaria de saber.
         -- No sabe?
         -- No.
         -- Mas, e o mdico?
         -- O Dr. Warren tambm no sabe. Est em correspondncia com um especialista de
Nova Iorque. Preparam uma consulta para breve.
         -- Mas, que ferimentos  que ela teve?
         -- Um ligeiro corte na cabea, uma ou duas esfoladelas e, o mais grave, um traumatismo
na coluna que parece ser a causa da total paralisia dos membros inferiores.
         O homem soltou um grito abafado. Fez-se um breve silncio. Logo a seguir perguntou
ansioso:
         -- E Pollyanna, como aceita ela isto?
         -- Ainda no se apercebeu bem do estado atual das coisas. E eu no posso dizer-lhe!
         -- Mas, ela deve saber alguma coisa!
         Miss Polly levou subitamente a mo ao pescoo naquele gesto que, ultimamente, se tinha
tornado to comum nela.
         -- Oh sim. Ela sabe que no se pode mexer, mas pensa que tem as pernas partidas. Diz
que est contente por ter as pernas partidas como o senhor, pois  melhor do que ficar invlida
para toda a vida como Mrs. Snow, pois as pernas partidas ficam boas enquanto que no outro
caso, no. Diz aquilo constantemente e eu no sei o que fazer!
          Atravs das lgrimas que tinha nos prprios olhos, o homem viu a face da senhora
crispada de emoo. E, involuntariamente, os seus pensamentos recuaram  altura em que,
quando ele fez a derradeira tentativa para ela ir viver com ele, Pollyanna lhe disse: "Ah, eu nunca
poderia deixar a tia Polly agora!"
         Foi este pensamento que o fez perguntar muito delicadamente logo que conseguiu
controlar a voz:
         -- A senhora sabe, Miss Harrington, eu fiz tudo para levar Pollyanna a ir viver comigo.
         -- Consigo! Pollyanna!
         O homem retraiu-se um pouco perante o tom de voz dela e a sua prpria voz tornou-se
de novo fria e impessoal quando voltou a falar.
         -- Sim. Eu queria adot-la, legalmente, compreende. Queria torn- la minha herdeira.
         A senhora, sentada na cadeira defronte dele, descontraiu-se um pouco. Pensou como essa
adoo representaria para Pollyanna um futuro brilhante e pensou se Pollyanna teria idade
                                                                                                  74

suficiente e se seria suficientemente interesseira para se deixar tentar pela posio e pelo dinheiro
deste homem.
        -- Eu gosto muito, muito de Pollyanna -- continuou o homem. -- Gosto muito dela,
tanto por ela prpria como pela me. Eu estava pronto a dar a Pollyanna o amor que tenho
guardado h vinte e cinco anos.
        -- Amor -- Miss Polly lembrou-se de repente das razes porque tinha ficado com aquela
criana e lembrou-se tambm das palavras de Pollyanna pronunciadas nessa mesma manh:
"Adoro ser chamada de querida pelas pessoas da minha famlia"!
        E foi a esta menina sedenta de afeto que Pendleton tinha oferecido um amor guardado h
vinte e cinco anos e ela era suficientemente madura para se deixar tentar pelo amor! Com o
corao apertado, Miss Polly dava-se conta disto. E, ainda angustiada, compreendeu outra coisa: a
aridez e tristeza que seria o seu prprio futuro sem Pollyanna.
        -- E ento? -- perguntou ela.
        O homem apercebendo-se do esforo de autocontrole que se refletia na aspereza da voz
da senhora, sorriu tristemente.
        -- Mas ela no quis vir -- respondeu ele.
        -- Por qu?
        -- Ela no seria capaz de a deixar. Disse que a senhora tinha sido muito boa para ela. Ela
quis ficar consigo e disse que pensava que a senhora queria que ela ficasse -- concluiu ele
enquanto se levantava.
        Ele no olhou em direo de Miss Polly. Virou a cara resolutamente em direo  porta,
mas ouviu uns ligeiros passos ao seu lado e viu que ela lhe estendia a mo.
        -- Quando o especialista chegar, informo-o logo -- disse ela com voz insegura. --
Adeus, muito obrigada por ter vindo. Pollyanna ficar contente.




                                  Um jogo de espera


         No dia a seguir  visita de John Pendleton, Miss Polly comeou a preparar Pollyanna para
a visita do especialista.
         -- Pollyanna, minha querida -- comeou ela docemente -- decidimos que um outro
mdico para alm do Dr. Warren devia ver-te. Um outro mdico talvez nos possa dizer a maneira
de tu melhorares mais depressa.
         O rosto de Pollyanna iluminou-se.
         -- O Dr. Chilton! Ah, tia Polly, gostava tanto que o Dr. Chilton me viesse ver! Receava
que no quisesse por ele a ter visto no outro dia no solrio. Foi por isso que eu no disse nada.
Mas estou to contente que a tia queira que ele me venha ver!
         A tia Polly ficou primeiro branca, depois vermelha e depois, de novo branca.
         -- No, querida! -- disse ela procurando falar com naturalidade e alegria. -- Eu no me
referia ao Dr. Chilton.  um mdico novo, um mdico muito famoso de Nova Iorque que sabe
muito de ferimentos como os que tu sofreste.
         Pollyanna baixou a cara.
         -- No acredito que ele saiba metade do que sabe o Dr. Chilton.
         -- Ah sim, ele sabe, tenho a certeza, querida.
         -- Mas foi o Dr. Chilton que assistiu a Mr. Pendleton quando ele partiu a perna. Se no
se importar eu gostava que o Dr. Chilton me viesse visitar!
         Miss Polly ficou embaraada. Por momentos, no disse nada, depois, respondeu
                                                                                              75

docemente, embora com um toque do seu antigo tom de seriedade:
         -- Mas eu importo-me, Pollyanna, importo-me muito. Por ti sou capaz de fazer tudo o
que for preciso, mas tenho razes, que no quero dizer agora, para no chamar o Dr. Chilton e
deves acreditar-me que ele no sabe tanto sobre o teu problema como este grande mdico que
vem amanh de Nova Iorque.
         Pollyanna olhava pouco convencida.
         -- Mas, tia Polly, se gostasse do Dr. Chilton...
         -- O qu? -- a voz da tia Polly era agora muito spera. E estava tambm muito
vermelha.
         -- Eu dizia: se estivesse doente e gostasse do Dr. Chilton e no do outro, acho que isso
fazia alguma diferena nas suas melhoras; e eu gosto imenso do Dr. Chilton.
         Nesse momento, a enfermeira entrou no quarto e a tia levantou-se de repente com uma
expresso de alvio.
         -- Tenho muita pena Pollyanna, mas terei de ser eu a julgar. Alm disso, j est
combinado. O mdico de Nova Iorque chega amanh.
         No entanto, o mdico de Nova Iorque no pde vir no dia seguinte. No ltimo momento
receberam um telegrama comunicando que o prprio especialista tinha adoecido e no poderia
vir por enquanto. Isto levou Pollyanna a continuar a pedir a substituio do mdico pelo Dr.
Chilton. No entanto, a tia Polly continuava a recusar.
         -- Eu nem queria acreditar -- dizia Nancy ao velho Tom uma manh. -- A Miss Polly
est permanentemente ansiosa por fazer qualquer coisa que agrade  menina, at j deixa subir o
gato e o co deixando-os passear em cima da cama da menina Pollyanna! E quando no tem mais
nada que fazer, anda no quarto de um lado para o outro com os vidrinhos a fazer "a dana do
arco-ris", como a menina lhe chama. J mandou o Thimoty comprar flores por trs vezes e, no
outro dia, encontrei-a sentada na cama com a enfermeira a pente-la, segundo as instrues de
Miss Pollyanna. E Miss Polly agora anda com um penteado diferente, s para agradar  menina!
         -- Sim, eu tambm fiquei surpreendido quando vi a Miss Polly muito bonita com aqueles
caracis na testa -- observou ele friamente.
         -- Claro que est muito melhor! -- respondeu Nancy indignada. -- Agora at parece
gente. Agora ela  quase...
         -- Lembras-te quando eu te disse que ela era bonita?
         Nancy encolheu os ombros.
         -- Ela no  bonita, mas pelo menos j no parece a mesma mulher.
         -- Bem te disse que ela no era nada velha. Nancy riu-se.
         -- Se no era velha, imitava muito bem at Miss Pollyanna chegar. Diga l, Mr. Tom,
quem era o namorado dela? Ainda no consegui descobrir!
         -- Tambm no vai ser atravs de mim que vais descobrir.
         -- V l, Mr. Tom, h muita gente por aqui a quem eu posso perguntar.
         -- Talvez, mas h pelo menos uma pessoa que nunca to dir -- resmungou o velho
Tom. Depois os olhos iluminaram-se. -- Como est ela hoje, a menina?
         Nancy abanou a cabea. O rosto fechou-se-lhe tambm numa expresso triste.
         -- Est na mesma. No se nota diferena nenhuma. Continua deitada, conversa alguma
coisa, tenta estar "contente" porque o sol ou a lua nasce ou por outro pretexto qualquer.  de
partir o corao.
         -- Eu sei,  o jogo -- disse o velho Tom.
         -- Ela tambm lhe contou sobre o jogo?
         -- Sim. Contou-me h muito tempo -- o velhote hesitou, depois prosseguiu: -- Um dia,
estava eu a resmungar e a lamentar-me por estar to marreco, quando a menina me disse.
         -- Essa eu no sou capaz de adivinhar. Como  que se pode estar contente com isso?
         -- Ela arranjou uma maneira. Disse que eu devia estar contente por no ter de me dobrar
tanto para fazer o meu trabalho, porque j estava parcialmente dobrado.
                                                                                                76

         Nancy deu uma risada.
         -- No me surpreende. Ela descobre sempre alguma coisa. Desde que chegou que ns
fazemos esse jogo, pois no havia mais ningum com quem ela pudesse jogar, embora tivesse
falado  tia.
         -- A Miss Polly?
         Nancy disse que sim com a cabea.
         -- No deve ter uma idia muito diferente da minha sobre a patroa.
         -- Estava s a pensar que devia ser uma surpresa para ela -- explicou ele com uma certa
dignidade.
         -- Sim, creio que sim -- retorquiu Nancy -- mas no sei se ainda seria uma surpresa. Eu
agora j acredito que tudo  possvel com a patroa, at mesmo ela vir a jogar o jogo!
         -- Mas a menina ainda no lhe contou? Ela j ensinou o jogo a quase toda a gente. Desde
que teve o acidente s se ouve falar nisso -- disse Tom.
         -- Ela no contou a Miss Polly porque a senhora no queria que ela falasse do pai e,
como foi um jogo ensinado pelo pai, ela tinha que falar dele e, por isso, nunca lhe ensinou o jogo.
         -- Ah, estou a ver.
         -- Nenhum deles gostava do pastor que lhes levou Miss Jenny. E Miss Polly que era a
mais novinha e gostava muito de Miss Jenny nunca lho pde perdoar.
         Aqueles dias de espera no foram fceis para ningum. A enfermeira tentava aparentar
alegria, mas os olhos denunciavam perturbao. O mdico manifestava-se nervoso e impaciente.
Miss Polly pouco falava, mas mesmo as ondas de cabelo que lhe caam sobre o rosto e os lindos
laos na garganta no escondiam o fato de ela estar cada vez mais magra e plida. Quanto a
Pollyanna, acariciava o co e o gato, admirava as flores, comia os frutos e os doces que lhe
mandavam e respondia s inmeras mensagens de carinho que lhe traziam. Mas tambm ela
estava cada vez mais magra e plida e a atividade nervosa dos seus braos e das suas mozinhas
apenas realavam a imobilidade dos membros inferiores sob os cobertores.
         Quanto ao jogo, Pollyanna disse num desses dias a Nancy como ela ia ficar contente
quando pudesse voltar de novo  escola, visitar Mrs. Snow e Mr. Pendleton, e ir andar de charrete
com o Dr. Chilton, etc. Parecia no se dar conta de que todo esse "contentamento" era no futuro
e no no presente. Nancy, porm, dava-se conta disso e chorava quando estava sozinha.
                                                                                               77




                             Uma porta entreaberta


        O Dr. Meed, o especialista, chegou finalmente, uma semana depois da data inicialmente
combinada. Era um homem alto, de ombros largos, olhos cinzentos simpticos e um sorriso
alegre. Pollyanna gostou logo dele e disse-lhe isso.
        -- Parece-se mesmo com o meu mdico.
        -- Com o seu mdico? -- o Dr. Meed olhou surpreendido para o Dr. Warren que falava
com a enfermeira a alguns metros. O Dr. Warren era um homem pequeno de olhos castanhos e
com barbicha.
        -- Ah, esse no  o meu mdico -- sorriu Pollyanna adivinhando o que ele estava a
pensar. -- O Dr. Warren  o mdico da tia Polly. O meu mdico  o Dr. Chilton.
        -- Ah! -- disse o Dr. Meed com um sorriso um pouco estranho, olhando para Miss Polly
que se tinha retirado apressadamente com a face ruborizada.
        -- Sabe, eu quis ter comigo o Dr. Chilton durante todo o tempo, mas a tia Polly
preferiu--o a si. Ela disse que sabia mais do que o Dr. Chilton sobre pernas partidas. E se isso 
verdade, devo ficar contente com isso.  verdade?
        O rosto do mdico foi rapidamente atravessado por uma expresso estranha que
Pollyanna no conseguiu interpretar.
        -- S o tempo o pode dizer, minha menina -- disse ele com doura. Depois virou a cara
sria para o Dr. Warren que se tinha chegado para junto da cama.
        Mais tarde, todos disseram que tinha sido o gato. Com efeito, se o Fluffy no tivesse
                                                                                                 78

empurrado a porta com o nariz, esta no teria ficado entreaberta e Pollyanna no teria ouvido as
palavras da tia.
          No hall, os dois mdicos, a enfermeira e Miss Polly estavam a falar de Pollyanna. No
quarto de Pollyanna, Fluffy tinha acabado de saltar para a cama ronronando e atravs da porta
entreaberta ouviu-se a exclamao angustiada da tia Polly.
          -- Isso no, Doutor! No me diga que a menina nunca mais poder andar!
          Ento, foi a grande confuso. Primeiro, do quarto, ouviu-se o grito aterrorizado de "tia
Polly, tia Polly!" A tia viu a porta aberta e compreendeu que a sobrinha tinha ouvido as suas
palavras. Deu um gemido e desmaiou pela primeira vez na sua vida.
          A enfermeira exclamou alarmada: "Ela ouviu!" e correu para a porta entreaberta. Os dois
mdicos ficaram com Miss Polly. O Dr. Meed amparou Miss Polly quando esta ia cair. O Dr.
Warren estava ali ao lado, sem saber o que fazer. S quando Pollyanna gritou de novo e a
enfermeira fechou a porta  que os dois homens, olhando desesperadamente um para o outro,
compreenderam a necessidade de fazer com que a senhora acordasse de novo.
          No quarto de Pollyanna, a enfermeira encontrou um gato cinzento deitado na cama a
ronronar.
          -- Miss Hunt, por favor, eu quero a tia Polly. Quero-a j, por favor!
          A enfermeira fechou a porta e aproximou-se dela apressadamente. Estava muito plida.
          -- Ela no pode vir j, querida. Ela vem daqui a pouco. O que ? No posso saber?
          Pollyanna disse que no com a cabea.
          -- Quero saber o que ela acabou de dizer. Ouviu-a? Quero a tia Polly. Ela disse uma
coisa importante. Quero que ela diga que no  verdade!
          A enfermeira tentou falar, mas no conseguiu. Algo visvel no seu rosto fazia com que
Pollyanna ficasse ainda mais aflita.
          -- Miss Hunt, a senhora ouviu o que ela disse? Ento  verdade! Ah no, no pode ser!
No pode ser verdade que eu nunca mais possa voltar a andar, nem a correr!
          -- No, talvez no. Talvez o mdico no saiba bem e esteja enganado. Ainda pode
acontecer muita coisa.
          -- Mas a tia Polly disse que ele sabia! Ela disse que ele sabia mais do que qualquer outra
pessoa sobre pernas no meu estado!
          -- Sim, eu sei, querida, mas todos os mdicos s vezes se enganam. No pense mais nisso
por agora.
          Pollyanna sacudiu-a.
          -- Mas, eu no posso deixar de pensar nisso. Como  que eu agora vou  escola, como
vou visitar Mr. Pendleton e Mrs. Snow, e outras pessoas? -- e comeou a soluar. -- Se eu no
posso andar mais, como vou conseguir ficar contente com alguma coisa?
          Miss Hunt no conhecia o jogo, mas sabia que a sua doente precisava de ser acalmada
imediatamente. A enfermeira deu-lhe um calmante e disse:
          -- As coisas s vezes no so to ms como parecem.
          -- Eu sei, o pai tambm costumava dizer isso -- disse Pollyanna chorando. -- Ele dizia
que havia sempre alguma coisa pior. No vejo nada que possa ser pior que isto. Voc v?
          Miss Hunt no respondeu.
                                                                                           79




                                     Duas visitas


        Miss Polly, que no se tinha esquecido da promessa de informar Mr. John Pendleton logo
que tivesse informaes concretas do mdico, mandou Nancy avis-lo. Antes, Nancy teria ficado
muito contente com esta oportunidade extraordinria de ir  casa misteriosa de Mr. Pendleton.
Mas hoje ela estava to triste que no se conseguia alegrar com nada. Durante os minutos que
teve de aguardar pela chegada de Mr. John Pendleton, ela mal olhou em redor.
        -- Eu sou a Nancy, senhor -- disse ela respeitosamente em resposta  interrogao
espelhada no olhar dele. -- Miss Harrington mandou-me vir trazer-lhe informaes sobre Miss
Pollyanna.
        -- E ento?
        -- As notcias no so boas, Mr. Pendleton.
        -- No quer dizer...
        -- Sim, senhor. Ela nunca mais pode voltar a andar.
        Fez-se silncio absoluto. Depois com a voz sacudida pela emoo o homem disse:
        -- Pobre menina! Pobre menina!
        Nancy olhou para ele, mas baixou logo o olhar. Ela nunca imaginaria que aquele sujeito
antiptico e srio pudesse ficar assim. Em voz baixa e pouco firme ele falou de novo:
        -- Mas que crueldade, nunca mais poder danar ao sol! A minha linda menina dos
prismas!
        Fez-se outra vez silncio e depois de repente o homem perguntou:
                                                                                              80

        -- Ela ainda no sabe, pois no?
        -- Ela sabe, senhor -- disse Nancy soluando. -- isso que torna tudo ainda mais difcil.
Ela descobriu por causa do gato!  que o gato empurrou a porta e Miss Pollyanna ouviu-os falar.
Foi assim que descobriu.
        -- Pobre menina! -- exclamou o homem de novo.
        -- Sim, senhor. Ainda s a vi duas vezes desde que ela soube disso e das duas vezes
desatei a chorar. Foi tudo h to pouco tempo que ela no consegue deixar de pensar nas coisas
que j no pode fazer. Est muito triste tambm porque no consegue ficar contente. Se calhar
no conhece o jogo dela?
        -- O jogo do contentamento? -- perguntou o homem. -- Sim, ela ensinou-mo.
        -- Ah, tambm lho ensinou! Ela deve ter ensinado quase a toda a gente. Mas agora no
consegue jog-lo e  isso que a preocupa. Diz que no consegue lembrar-se de nada que a faa
ficar contente.
        -- Ento e no tem razo? -- retorquiu o homem, quase zangado.
        Nancy ficou ainda menos  vontade.
        -- Eu tambm penso isso, mas era mais fcil se ela conseguisse encontrar alguma coisa.
Por isso eu tentei lembrar-lhe.
        -- Lembrar-lhe? Lembrar-lhe o qu? -- a voz de John Pendleton continuava a soar
zangada e impaciente.
        -- Lembrar-lhe de como dizia aos outros para jogarem aquele jogo.  Mrs. Snow e aos
outros e daquilo que ela lhes dizia para fazer. Mas a pobre menina chora e diz que agora no lhe
parece a mesma coisa. Ela diz que  mais fcil dizer aos invlidos como eles devem ficar
contentes, mas que no  a mesma coisa tratando-se de si prpria. Diz que est farta de pensar
como est contente por as outras pessoas no estarem tambm assim, mas diz que durante todo
o tempo em que est a dizer aquilo, no est realmente a pensar nisso, mas sim em que no
voltar a conseguir andar.
        Nancy fez uma pausa, mas o homem nada disse. Estava sentado com as mos nos olhos.
        -- Depois, tentei lembrar-le como ela costumava dizer que o jogo quanto mais difcil era,
mais engraado se tornava. Mas ela diz tambm que  diferente se for difcil demais. Agora tenho
que me ir embora.
        Antes de sair,  porta, ela hesitou, virou-se e perguntou timidamente:
        -- Posso dizer a Miss Pollyanna que o senhor esteve com o Jimmy Bean?
        -- No, acho que no; eu no estive com ele. Por qu?
        -- No  nada senhor,  que essa  uma das coisas que a faz ficar muito triste: o fato de
no ter conseguido que o senhor o visse.
        No demorou muito at toda a cidade de Beldingsrville saber que o grande mdico de
Nova Iorque tinha dito que Pollyanna Whittier nunca mais voltaria a andar e toda a gente estava
muito comovida. Todos conheciam, quanto mais no fosse de vista, aquela carinha sardenta que
cumprimentava toda a gente com um sorriso e quase todos conheciam o "jogo" de Pollyanna.
        Nas cozinhas, nas salas e nos quintais, as mulheres falavam do assunto e choravam
abertamente. Nas esquinas e nas lojas, os homens tambm falavam e choravam, embora no
abertamente. E as pessoas ainda ficaram mais tristes quando Nancy contou que Pollyanna no
conseguia jogar o seu jogo e que, por isso, ainda se sentia mais infeliz.
        Constantemente apareciam pessoas, umas que Miss Polly conhecia, outras que nunca
imaginaria que a sua sobrinha tivesse conhecido e que traziam lembranas e mensagens para a
menina. Foi todo este movimento que despertou Miss Polly da sua consternao. Primeiro veio
Mr. John Pendleton. Nesse dia ele chegou sem muletas.
        -- No imagina como estou triste. No  possvel fazer nada?
        Miss Polly fez um gesto de desespero.
        -- Estamos a fazer tudo o que podemos. O Dr. Meed receitou certos tratamentos e
remdios que talvez ajudem e o Dr. Warren est a cumprir tudo  letra. Mas o Dr. Meed disse
                                                                                             81

que havia poucas esperanas.
         John Pendleton levantou-se de repente, apesar de ter acabado de chegar. Estava muito
plido e srio. Miss Polly percebeu que ele tinha conscincia de que no se podia demorar com
ela. Ao sair, junto  porta, voltou-se.
         -- Tenho uma mensagem para Pollyanna -- disse ele. --  capaz de lhe dizer, por favor,
que eu j estive com o Jimmy Bean e que a partir de agora ele vai viver comigo. Diga-lhe que
calculei que ela ficaria contente por saber que vou adot-lo.
         Por um breve momento, Miss Polly perdeu o seu autocontrole.
         -- Vai adotar Jimmy Bean?! -- exclamou ela.
         O homem ergueu um pouco o queixo.
         -- Sim. Acho que Pollyanna compreender. Diga-lhe, por favor, que eu penso que ficar
"contente".
         -- Com cer.. te...za -- gaguejou Miss Polly.
         -- Muito obrigado -- disse John Pendleton, cumprimentando a senhora antes de se ir
embora.
         Miss Polly ficou de p em silncio, surpreendida, continuando a olhar na direo do
homem que se tinha ido embora. Ainda lhe custava a acreditar naquilo que tinha ouvido. John
Pendleton adotar Jimmy Bean? John Pendleton, aquele homem rico, independente, com
reputao de ser extremamente egosta, adotar um rapazinho, e um rapazinho daqueles? Ainda
com a expresso de surpresa estampada no rosto, Miss Polly dirigiu-se ao andar de cima para o
quarto de Pollyanna.
         -- Pollyanna, tenho uma mensagem para ti, de Mr. John Pendleton. Ele esteve aqui agora
mesmo. Pediu para te dizer que resolveu ficar com Jimmy Bean. Ele disse que tu irias ficar
contente por saber isso.
         O rosto de Pollyanna iluminou- se subitamente de alegria.
         -- Contente? Contente? Acho que sim, tia Polly! Eu que fiz tanto por encontrar uma casa
para o Jimmy e  uma casa to bonita! Alm disso, estou tambm muito contente por Mr.
Pendleton. Ele agora ter a presena de uma criana.
         -- Ah, estou a perceber -- disse Miss Polly docemente; e compreendia melhor do que
Pollyanna pensava.
         Compreendeu a presso a que Pollyanna estivera sujeita quando John Pendleton lhe tinha
pedido para ser a presena da criana que transformaria a sua grande casa de pedra num lar.
         -- Eu compreendo -- concluiu ela com os olhos inundados de lgrimas.
         Pollyanna ficou receosa de que a tia pudesse fazer mais perguntas embaraosas e desviou
a conversa para a casa de Pendleton e o seu dono.
         -- O Dr. Chilton tambm diz isso, diz que  preciso uma mulher e uma criana para
fazer um lar -- observou ela.
         Miss Polly virou-se de repente.
         -- O Dr. Chilton! Como sabes isso?
         -- Foi ele que me disse. Foi quando me disse que vivia apenas em quartos e salas, mas
no num lar.
         Miss Polly no respondeu. Olhava pensativa para a janela.
         -- Ento eu perguntei-lhe porque  que no arranjava uma mulher e fazia um lar.
         -- Pollyanna! -- Miss Polly tinha se voltado de repente. Tinha as faces ruborizadas.
         -- Sim, eu disse-lhe isso e ele parecia to triste.
         -- O que disse ele? -- perguntou Miss Polly como se contrariasse uma fora interior.
         -- Durante um minuto no disse nada, depois disse muito baixo que no  possvel
arranjar uma mulher sempre que se quer.
         Fez-se um breve silncio. Os olhos de Miss Polly viraram-se de novo para a janela.
Continuava muito corada. Pollyanna suspirou.
         -- Ele continuava a querer uma mulher, eu sei e bem gostava que arranjasse.
                                                                                             82

         -- Por qu Pollyanna, como sabes?
         -- Porque outro dia ele disse outra coisa. Ele disse, muito baixinho tambm, mas eu
consegui ouvir. Disse que daria tudo no mundo se conseguisse a mulher que amava. O que foi,
tia Polly? -- a tia tinha se levantado de repente, dirigindo-se para a janela.
         -- No  nada, querida. Estava s a mudar a posio deste prisma -- disse a tia Polly
cada vez mais corada.




                          O jogo e os seus jogadores


        Pouco depois da segunda visita de John Pendleton, apareceu Milly Snow. Milly nunca
tinha estado no solar Harrington. Estava corada e parecia muito embaraada quando Miss Polly
entrou na sala.
        -- Vim saber da menina.
        --  muito simptico da sua parte. Mas ela est na mesma. Como est a sua me? --
perguntou Miss Polly com ar cansado.
        --  isso que lhe venho dizer. Vinha pedir-lhe para dizer a Miss Pollyanna que estamos
muito tristes por ela no poder voltar a andar depois de tudo o que fez por ns, pela minha me,
ensinando-lhe a jogar aquele jogo e tudo isso, e ficamos muito tristes ao saber que ela no
conseguia jog-lo agora. Compreendo que agora, no consiga, nas condies em que est! Mas
quando nos lembramos de todas as coisas que nos disse, pensamos que se ela soubesse o que fez
por ns, isso podia ajudar no caso dela, com o jogo, porque ela poderia ficar contente, pelo
menos um pouco contente.
        Milly parou de falar desamparada parecendo esperar que Miss Polly falasse. Miss Polly
escutava educadamente mas um pouco confusa. S tinha compreendido metade do que a rapariga
dissera. No conseguia perceber bem aquele discurso incoerente e sem lgica. Foi ento que
disse:
        -- Acho que no estou a perceber bem, Milly. Que quer que eu diga  minha sobrinha?
        -- Queria que lhe fizesse compreender o que ela fez por ns. Queria que ela soubesse
como a minha me est diferente e eu tambm. Eu tambm tenho tentado jogar o jogo, um
                                                                                                 83

pouco.
         Miss Polly franziu a testa. Quis perguntar o que Milly queria dizer com isso do "jogo",
mas no teve tempo. Milly j se preparava para ir embora.
         -- Sabe, antes nada estava bem para a minha me. Ela queria sempre coisas diferentes e
tambm no a podemos levar a mal, dadas s circunstncias. Mas, agora, ela at me deixa levantar
as persianas e interessa-se pelas coisas. Interessa-se pela sua aparncia, pela camisa de dormir e
tudo isso. E comeou at a fazer malha para mantas de bebs, para vender nas feiras e para os
hospitais. E est to interessada e to contente por saber que o pode fazer! E tudo isso 
resultado da ao de Miss Pollyanna, porque ela disse  me que devia estar contente por ter
braos e mos. E isso fez com que a me pensasse em fazer alguma coisa com os braos e com as
mos. Assim, comeou a tricotar. E nem imagina como o quarto agora est diferente, com todas
aquelas cores vermelhas, azuis e amarelas, e os prismas nas janelas que ela lhe deu. Agora, at d
gosto entrar l. Antes estava to escuro e triste e a minha me estava sempre to infeliz que eu at
receava l entrar. Assim; pedia-lhe para dizer a Miss Pollyanna que estamos muito contentes por
lhe devermos esta felicidade e que pensamos que se ela soubesse como ns estamos contentes
isso a podia tornar um pouco mais contente.  tudo -- disse Milly suspirando e levantando-se
apressadamente. --  capaz de lhe dizer?
         -- Com certeza que sim -- murmurou Miss Polly pensando se conseguiria transmitir
tudo aquilo que a rapariga acabara de lhe dizer.
         Estas visitas de John Pendleton e de Milly Snow foram apenas as primeiras de muitas e as
pessoas dei xavam sempre mensagens. Mensagens to curiosas, que Miss Polly estava cada vez
mais intrigada.
         Um dia apareceu a viva Benton. Miss Polly conhecia-a bem, embora nunca se tivessem
falado. Era conhecida como sendo a mulherzinha mais triste da cidade, trajando sempre de
negro. No entanto, hoje, Mrs. Benton trazia um lao azul plido na garganta embora se vissem
lgrimas nos olhos. Falou da sua tristeza pelo acidente e depois perguntou se podia ver Pollyanna.
Miss Polly abanou a cabea.
         -- Lamento, mas ela ainda no pode ver ningum. Talvez mais tarde.
         Mrs. Benton enxugou os olhos, levantou-se e preparou-se para ir embora. Mas, quando j
estava quase na porta de sada voltou atrs apressadamente.
         -- Miss Harrington, talvez lhe possa transmitir uma mensagem.
         -- Com certeza, Mrs. Benton. Terei todo o prazer.
         A mulher hesitou ainda at que disse:
         --  capaz de lhe dizer, por favor, que eu pus isto -- disse ela apontando para o lao
azul na garganta. Depois, perante o olhar de surpresa mal contida de Miss Polly, acrescentou: --
A menina tentou durante tanto tempo fazer com que eu usasse alguma cor que eu pensei que ela
havia de ficar contente por eu ter comeado. Se disser a Pollyanna ela h de compreender. -- E
saiu, fechando a porta atrs de si.
         Um pouco mais tarde, veio uma outra viva. Esta ainda vestia de preto. Miss Polly no a
conhecia. A senhora disse que se chamava Mrs. Tardell.
         -- Para si sou uma desconhecida -- comeou ela logo. -- Mas no sou uma estranha
para a sua sobrinha Pollyanna. Estive no hotel durante todo o vero e todos os dias dava grandes
passeios por causa da minha sade. Foi num desses passeios que conheci a sua sobrinha, uma
menina to amorosa! Gostava de explicar-lhe o que ela significa para mim. Quando c cheguei eu
era muito infeliz e a sua carinha alegre lembrava-me a minha filhinha que perdi h anos. Fiquei
to chocada quando soube do acidente e que ela nunca mais poderia tornar a andar e por ela j
no conseguir ficar contente! Tinha que vir c visit-la.
         --  muito simptico da sua parte -- murmurou Miss Polly.
         -- Gostava que lhe transmitisse uma mensagem minha.  possvel?
         -- Com certeza.
         -- Diga-lhe por favor que a Mrs. Tardell agora est contente. Eu sei que lhe parece
                                                                                               84

estranho e que no compreende bem. Vai me desculpar, mas eu prefiro no explicar. A sua
sobrinha sabe o que eu quero dizer e eu senti que tinha que lhe vir dizer isto. Muito obrigado e
desculpe se houve alguma indelicadeza da minha parte. -- Dizendo isto a senhora foi-se embora.
         Miss Polly, completamente confundida apressou-se a subir as escadas at ao quarto de
Pollyanna.
         -- Pollyanna, conheces uma Mrs. Tardell?
         -- Ah sim, gosto muito de Mrs. Tardell.  uma pessoa doente e muito triste que est
hospedada no hotel. Alm disso, faz grandes passeios. Costumvamos ir as duas passear.
         -- Pois olha, querida, ela acabou de vir c visitar-te. Deixou uma mensagem para ti, mas
no quis dizer o que significava. Pediu-me para te dizer que agora est muito contente.
         Pollyanna bateu as palmas.
         -- Ela disse isso? Oh, fico to contente!
         -- Mas, Pollyanna, o que queria ela dizer com isso?
         -- Bom,  o jogo e... -- Pollyanna calou-se logo levando os dedos aos lbios.
         -- Mas que jogo?
         -- No tem importncia, tia Polly.  que eu no posso contar a menos que fale de outras
coisas que no estou autorizada.
         Miss Polly ia quase perguntar-lhe o que eram essas coisas, mas o embarao espelhado no
rosto da menina impediu-a de continuar.
         Pouco tempo depois da visita de Mrs. Tardell, a curiosidade de Miss Polly atingiu o ponto
mximo. Foi a visita de uma certa mulher ainda jovem, cheia de p de arroz e com o cabelo
anormalmente louro. Usava saltos muito altos e muita bijuteria barata. Miss Polly conhecia muito
bem esta mulher pela reputao que tinha e ficou, por isso, desagradavelmente surpreendida ao
v-la de visita ao solar Harrington. Miss Polly no lhe estendeu a mo. Ao entrar na sala, at se
retraiu.
         A mulher levantou-se de imediato. Tinha os olhos muito vermelhos como se tivesse
estado a chorar. Com um ar de semidesafio perguntou se podia ver, por um momento, a menina
Pollyanna.
         Miss Polly disse que no. Comeou por diz-lo com um ar muito srio, mas algo nos
olhos suplicantes da mulher, fizeram com que acrescentasse educadamente uma explicao,
dizendo que ningum estava autorizado a ver Pollyanna.
         A mulher hesitou, depois falou um pouco bruscamente. O queixo continuava
ligeiramente levantado como numa expresso de desafio.
         -- Chamo-me Mrs. Payson. Calculo que tenha ouvido falar de mim; a maioria das
pessoas de bem na cidade j ouviu e talvez muitas das coisas que tenha ouvido no sejam
verdade. Mas isso no interessa. Foi por causa da menina que eu vim. Tive conhecimento do
acidente e fiquei completamente destroada. A semana passada soube que ela no podia voltar a
andar e bem gostava de lhe poder dar as minhas duas pernas. Ela podia fazer mais bem com elas
numa hora do que eu em cem anos. Mas isso no interessa.
         Fez uma pausa e tentou aclarar a voz, mas quando voltou a falar a voz continuava
constrangida.
         -- Talvez no saiba, mas dei-me bastante com a sua menina. Vivemos na estrada de
Pendleton Hill e ela costumava passar l muitas vezes. Entrava e brincava com os meus filhos e
conversava comigo e com o meu marido, quando ele estava em casa. Parecia gostar de ns. Claro
que no sabia que as outras pessoas normalmente no conversavam com gente como ns. Talvez
se falassem mais, Miss Harrington, no houvesse tantos como ns -- acrescentou ela com
amargura. -- Seja como for, vinha muitas vezes e fez-nos muito bem. Este ano tivemos muitas
dificuldades. Estvamos tristes e desanimados, tanto eu como o meu homem. Estvamos prontos
para tudo. Estvamos a pensar separar-nos e deixar as crianas. Depois aconteceu o acidente e
soubemos que a sua menina nunca mais podia andar. Comeamos ento a pensar como ela
costumava chegar e sentar-se  nossa porta, brincar com as crianas, rir e ficar contente. Ela
                                                                                              85

estava sempre a ficar contente com alguma coisa e um dia explicou-me o jogo e tentou
convencer-me a jog-lo. Ouvimos agora dizer que ela est muito triste porque no consegue jog-
lo mais, pois no tem nada que lhe d contentamento.  por isso que eu vim c hoje; assim talvez
ela fique um pouco contente por nossa causa, pois decidimos manter-nos juntos e jogar o jogo.
Eu sei que h de ficar contente porque ela costumava sentir-se triste com as coisas que s vezes
dizamos. Como o jogo nos vai ajudar, ainda no sei bem, mas talvez ajude. De qualquer forma,
vamos tentar.  capaz de lhe dizer?
         -- Sim, eu digo-lhe -- prometeu Miss Polly um pouco abatida. Depois num sbito
impulso, avanou e estendeu a mo  mulher. -- Muito obrigada por ter vindo, Mrs. Payson --
disse ela com simplicidade.
         O queixo erguido em ar de desafio descaiu. Os lbios da mulher tremeram visivelmente.
Murmurou alguma coisa incoerentemente. Mrs. Payson apertou a mo estendida, e foi-se embora.
         Mal a porta se fechou, Miss Polly foi ter com Nancy  cozinha.
         -- Nancy!
         Miss Polly falava com deciso. Aquela srie de visitas desconcertantes e confusas nos
ltimos dias, que tinham culminado com esta ltima experincia da tarde, tinham-lhe posto os
nervos em franja. Desde o acidente de Pollyanna que Nancy no ouvia a patroa falar com tanta
seriedade.
         -- Nancy, s capaz de me dizer de que se trata este "jogo" absurdo de que toda a cidade
fala? E dizes-me, por favor, o que tem a minha sobrinha a ver com isso? Por que  que toda a
gente, desde Milly Snow a Mrs. Tom Payson, pedem para eu lhe dizer que esto a "jog-lo"?
Tanto quanto me parece, metade da cidade est a usar lacinhos azuis, a deixar de discutir ou a
aprender a gostar de qualquer coisa de que nunca gostaram antes. E tudo por causa de Pollyanna.
Tentei perguntar  menina, mas parece que no consigo grande coisa e no quero incomod-la
agora. Mas, pelo que ouvi ela dizer-te na noite passada, creio que tambm s uma dessas pessoas.
Agora quero que me contes o que significa tudo isto.
         Para surpresa de Miss Polly, Nancy desatou a chorar.
         -- Isso significa que desde junho passado essa querida menina tem feito tudo para que
toda a cidade fique contente e agora toda a gente est a tentar retribuir fazendo com que ela
tambm fique contente.
         -- Contente com o qu?
         -- Contente, s contente; o jogo  esse.
         Miss Polly j batia o p.
         -- Continuo a no perceber, Nancy. Que jogo?
         Nancy ergueu o queixo. Enfrentou a patroa e olhou-a diretamente nos olhos.
         -- Eu vou contar-lhe, senhora.  um jogo que o pai de Miss Pollyanna lhe ensinou a
jogar. Ela recebeu um par de muletas uma vez numa coleta quando queria uma boneca e chorou
muito como qualquer criana faria. Parece que foi ento que o pai lhe ensinou que havia sempre
alguma coisa com que nos alegrar e que ela devia ficar contente por ter recebido aquelas muletas.
         -- Contente por causa das muletas?! -- exclamou Miss Polly chocada ao pensar nas
perninhas paralisadas da menina.
         -- Sim, senhora. Foi isso que eu disse e Miss Pollyanna disse que tambm ela o dissera,
na altura. Mas, ele explicou-lhe como ela podia ficar contente: devia ficar contente por no
precisar das muletas.
         -- Oh! -- gritou Miss Polly.
         -- E depois disso fez daquilo um jogo constante, descobrindo sempre alguma coisa para
estar contente. Dizia que tambm o sabia jogar e que no se importava muito por no ter
recebido a boneca porque estava muito contente por no precisar das muletas. Chamavam-lhe o
"jogo do contentamento".  esse o jogo senhora, e ela tem-no jogado sempre, desde ento.
         -- Mas, como... como... -- gaguejou Miss Polly.
         -- No imagina como o jogo funciona bem, senhora -- reafirmou Nancy quase com a
                                                                                               86

convico de Pollyanna. -- No imagina como ela me tem feito bem,  minha me e  minha
famlia. L em casa. Ela j l foi visit-los por duas vezes, comigo. A mim tambm me tem dado
muito contentamento, por causa de muitas coisas. Tudo se torna mais fcil. Por exemplo, eu j
no me importo de me chamar "Nancy" porque ela me explicou que eu devia estar contente por
no me chamar "Hephzibah". E h tambm as segundas-feiras de manh que eu costumava
detestar tanto. Ela conseguiu que eu ficasse contente por ser segunda-feira de manh.
         -- Contente, s segundas-feiras de manh?
         Nancy riu.
         -- Eu sei que parece estranho, senhora. Mas deixe-me explicar-lhe. A menina disse-me
que eu devia estar contente por ser segunda-feira de manh, mais do que qualquer outro dia da
semana, porque assim faltava uma semana inteira antes de ter outra! E ajudou-me muito senhora.
Pelo menos farto-me de rir cada vez que penso nisso!
         -- Mas porque  que ela no me ensinou a mim o jogo? -- perguntou Miss Polly. --
Porque faz ela tanto mistrio cada vez que eu lhe pergunto?
         Nancy hesitou.
         -- Desculpe senhora, mas a senhora disse-lhe para ela no falar do pai e assim ela no
podia contar-lhe. Era um jogo do pai, est a ver...
         Miss Polly mordeu o lbio.
         -- Ela quis lhe explicar o jogo, ao princpio -- continuou Nancy insegura. -- Ela queria
que toda a gente o jogasse com ela. Foi por isso que eu comecei a jog-lo.
         -- E os outros todos?
         -- Agora toda a gente o conhece. Por aquilo que eu ouo, onde quer que v. Ela contou a
muita gente e os outros contaram a outras pessoas. Alm disso, ela estava sempre a sorrir e era
to simptica para todos que eles no podiam deixar de se interessar. Agora que ela est doente e
toda a gente se sente triste, especialmente ao saberem como ela se sente mal por no conseguir
descobrir maneira de ficar contente. E assim, vm todos os dias para lhe dizer como ela lhes
trouxe contentamento, esperando que isso a possa ajudar.  que ela sempre quis que toda a gente
jogasse o jogo com ela.
         -- Pois bem, eu sei de mais algum que vai passar a jog-lo tambm agora -- disse Miss
Polly enquanto se virava para sair da cozinha. Atrs dela, Nancy ficou embasbacada.
         -- Agora sou capaz de acreditar seja no que for -- murmurou para si prpria.
         Um pouco depois, no quarto de Pollyanna, a enfermeira deixou Miss Polly e Pollyanna
sozinhas.
         -- Hoje tiveste mais uma visita, minha querida -- anunciou Miss Polly com uma voz que
tentava, em vo, manter firme. -- Lembras- te de Mrs. Payson?
         -- Mrs. Payson? Sim, Lembro-me muito bem! Ela vive no caminho para a casa de Mr.
Pendleton e tem a beb mais bonita que eu j vi e tambm um rapazinho com quase cinco anos.
Ela e o marido so muito simpticos, mas parece que no conseguem ser simpticos um para o
outro. Discutem muito. So pobres e passam dificuldades. Mas apesar de serem to pobres ela
veste roupas muito bonitas s vezes e tem anis muito lindos, mas diz que tem um anel a mais e
que o vai deitar fora e pedir o divrcio. O que  o divrcio, tia Polly? Receio que no seja muito
bom porque se obtivesse o divrcio no viveria ali mais e que Mr. Payson se iria embora e se
calhar levava tambm os filhos.
         -- Afinal j no se vo separar -- apressou-se a tia Polly a dizer. -- Vo manter-se
juntos.
         -- Ah, fico to contente! Ento eles ho de ficar ali para eu os poder ver quando me
puder levantar! Ah, tia Polly, esqueo-me que as minhas pernas j no podem andar mais e que
nunca mais me pderei levantar para ir ver Mr. Pendleton.
         -- Talvez te possas vir a levantar. Mas ouve l. Ainda no te contei tudo o que Mrs.
Payson disse. Ela pediu-me para te dizer que eles vo continuar juntos e vo jogar o tal jogo
como tu lhes ensinaste.
                                                                                                 87

        Pollyanna sorriu com os olhinhos cheios de lgrimas.
        -- Ai vo? Mas que contente que eu fico!
        -- Sim, ela disse que esperava que tu ficasses contente. Veio c de propsito para que tu
ficasses contente.
        Pollyanna olhou para a tia.
        -- Mas, tia Polly, a tia fala como se conhecesse tudo sobre o jogo!
        -- Sim, querida. A Nancy contou- me. Acho que  um jogo muito bonito. E eu agora vou
tambm jog-lo contigo.
        -- Oh, tia Polly, a tia vai jogar comigo? Fico to contente! E eu que sempre quis mais do
que tudo que a tia o jogasse comigo.
        A tia Polly respirou mais fundo, pois era cada vez mais difcil manter a voz firme. Mas l
conseguiu.
        -- Sim, querida, e todos os outros esto tambm a jog-lo. Acho que toda a cidade est a
jogar o jogo, at o pastor! No tive ainda oportunidade de te dizer, mas esta manh encontrei Mr.
Ford quando ia para a cidade e ele pediu para te dizer que logo que possa te vem visitar e que
nunca mais deixou de estar contente com os oitocentos textos de contentamento que tu lhe
ensinaste. Como vs, a cidade inteira est a jogar o jogo e esto todos muito felizes e contentes. E
tudo graas a uma menina que lhes ensinou um jogo novo.
        Pollyanna bateu as palmas.
        -- Oh, estou to contente -- exclamou. E o seu rosto iluminou-se. -- J descobri uma
coisa para estar contente. Eu estou contente por ter tido as minhas pernas. Se no as tivesse tido,
nunca poderia ter feito tudo isto!




                        Atravs de uma janela aberta


         Entretanto, chegaram os curtos dias de inverno. Mas, para Pollyanna, no eram curtos.
Eram longos e por vezes cheios de dor. No entanto, Pollyanna procurava estar contente. Agora
que a tia Polly estava a jogar o jogo, ela tinha tambm que o jogar.
         Agora, Pollyanna, tal como Mrs. Snow, tricotava lindas malhas em cores vivas e isso era
motivo para que ela, tal como Mrs. Snow, ficasse muito contente por ainda ter braos e mos.
         De vez em quando, Pollyanna j podia receber visitas e traziam-lhe sempre coisas novas
em que ela pudesse pensar.
         John Pendleton j a tinha visitado uma vez e Jimmy Bean tambm l tinha estado por
duas vezes. John Pendleton tinha lhe contado como Jimmy se estava a portar bem e como ele
prprio se sentia bem na companhia do mido. Jimmy contou-lhe o belo lar que agora tinha e
como Mr. Pendleton fazia uma boa famlia. Ambos manifestaram a Pollyanna a sua gratido.
Pollyanna confiou ento  tia:
         -- Isto faz com que eu me sinta ainda mais contente por ter tido as minhas pernas.
         O inverno passou e chegou a primavera. Apesar do tratamento, Pollyanna pouco
melhorou. Parecia que as previses mais pessimistas do Dr. Meed se estavam a se realizar e que
Pollyanna nunca mais poderia voltar a andar.
         Toda a cidade procurava manter-se informada sobre Pollyanna e uma pessoa em especial
estava excepcionalmente impaciente. Foi assim que Mr. John Pendleton recebeu num domingo a
visita do Dr. Thomas Chilton.
                                                                                                 88

         -- Pendleton, vim aqui visit-lo porque voc melhor do que qualquer outra pessoa da
cidade tem conhecimento das minhas relaes com Miss Polly Harrington.
         John Pendleton manifestou uma expresso de surpresa, pois apesar de saber alguma coisa
sobre a relao em tempos existente entre Polly Harrington e Thomas Chilton, h quinze anos
que o assunto no era referido entre eles.
         -- Sim -- disse ele tentando fazer com que a sua voz manifestasse simpatia e no
curiosidade.
         -- Pendleton, eu quero ver aquela criana. Quero examin-la, tenho que examin-la.
         -- Ento e por que no h de examin-la?
         -- No posso! Sabe muito bem que eu no entro naquela casa h mais de quinze anos. A
dona daquela casa disse-me que a prxima vez que me pedisse para entrar eu deveria interpretar
isso como se me estivesse a pedir desculpa e que seria tudo como dantes, o que significava que
casava comigo. Assim, no imagina que ela me possa chamar, pois no?
         -- Mas podia l ir sem ser convidado?
         O mdico franziu a testa.
         -- Isso  difcil, tenho algum orgulho.
         -- Mas se est to ansioso, no pode engolir o seu orgulho e esquecer a discusso.
         -- Esquecer a discusso! -- interrompeu o mdico violentamente. -- No estou a falar
desse tipo de orgulho. No que se refere a isso eu era capaz at de l ir de joelhos. Trata-se do meu
orgulho profissional.  um caso de doena e eu sou mdico. No posso chegar l e dizer "aqui
estou eu, aceitem-me como vosso mdico".
         -- Chilton, qual foi a discusso? -- perguntou Pendleton.
         O mdico fez um gesto de impacincia.
         -- A discusso? Foi uma discusso de namorados um disparate qualquer sobre o
tamanho de uma sala ou a profundidade de um rio; sem qualquer significado se compararmos
com os anos de infelicidade que se seguiram! A discusso no teve qualquer importncia! No que
me diz respeito, estou disposto a esquec-la completamente. Pendleton, tenho que ver aquela
criana!  um caso de vida ou de morte. Acredito honestamente que Pollyanna tem nove
hipteses em dez de voltar a andar de novo!
         O mdico pronunciou estas palavras bem alto e com muita clareza. Foi assim que Jimmy
Bean que ia a passar do lado de fora da janela ouviu o que ele disse.
         -- Andar! Pollyanna! -- dizia John Pendleton. -- Que quer dizer com isso?
         -- Significa que, tanto quanto eu sei daquilo que me dizem, o caso dela  muito
semelhante ao que um colega meu curou. H anos que ele se especializou nesta rea. Tenho me
mantido em contacto com ele e estudei tambm a questo. E daquilo que tenho ouvido... mas
preciso de ver a menina!
         John Pendleton endireitou-se na cadeira.
         -- Voc tem que a ver, homem! No pode ir atravs do Dr. Warren?
         O outro abanou a cabea.
         -- Receio que no. Warren tem sido muito decente. Ele disse-me que tinha sugerido a
Miss Harrington uma consulta comigo mas que ela tinha recusado e ele no se atreve a pedir-lhe
outra vez, mesmo sabendo do meu desejo em ver a criana. Ultimamente, alguns dos seus
melhores doentes passaram para mim e isso ainda me constrange mais. Mas tenho que ver aquela
criana! Imagine o que isso poder significar para ela!
         -- Temos que fazer com que ela lhe pea para l ir! -- disse Pendleton.
         -- Como?
         -- No sei.
         -- Voc no sabe, nem ningum sabe. Ela  demasiado orgulhosa e est demasiado
zangada comigo para mo pedir. Depois do que disse, h anos, isso teria tambm outro
significado. Mas quando penso naquela criana condenada a ficar paraltica para toda a vida, que
nas minhas mos tenho uma hiptese de cura e que s no posso agir por uma questo de
                                                                                                 89

orgulho e de deontologia profissional. -- o mdico fora de si caminhava de um lado para o outro
na sala.
         -- Mas se consegussemos fazer com que ela compreendesse -- repetiu John Pendleton.
         -- Sim, e quem  que far isso? -- perguntou o mdico virando-se violentamente.
         -- No sei, no sei -- resmungou o outro desanimado.
         Do lado de fora da janela, Jimmy Bean deu um salto de alegria.
         -- Pois eu sei! -- sussurrou ele cheio de alegria. Vou eu faz-lo! -- e de imediato desatou
a correr em direo ao solar Harrington.




                  Jimmy toma o assunto nas suas mos


         --  Jimmy Bean. Ele quer ver a senhora -- anunciou Nancy.
         -- A mim? -- perguntou Miss Polly surpreendida. -- Tens a certeza de que no  Miss
Pollyanna que ele quer ver? Se ele quiser, hoje pode v-la durante alguns minutos.
         -- No senhora, eu perguntei-lhe, mas ele disse que era a senhora que queria ver.
         -- Muito bem, eu deso -- e Miss Polly levantou-se da sua cadeira um pouco enfadada.
         Na sala encontrou um rapazinho muito corado e de olhos muito abertos que comeou a
falar de imediato.
         -- Minha senhora, peo desculpa por vir aqui incomod-la, mas no pde deixar de ser.
 por causa de Pollyanna. E eu por causa dela era capaz de andar sobre um braseiro e enfrent-la
a si ou a qualquer outra pessoa. A senhora faria o mesmo se pensasse que havia alguma
possibilidade de ela voltar a andar.  por isso que eu vim aqui falar consigo, pois se  s uma
questo de orgulho que est a impedir Pollyanna de voltar a andar, eu tenho a certeza de que a
senhora h de pedir ao Dr. Chilton para vir aqui, se compreender o que se passa.
         -- O qu? -- interrompeu Miss Polly, passando de surpreendida a zangada.
         -- Eu no queria que se zangasse. Foi por isso que eu comecei por lhe dizer que ela
podia voltar a andar. Pensei que me escutaria por causa disso.
         -- Jimmy, de que ests tu a falar?
         --  isso que eu estou a tentar dizer-lhe.
         -- Ento diz-me. Mas comea pelo princpio e v se te explicas bem. No mistures tudo!
                                                                                                90

         -- Bom, eu vou comear por dizer que o Dr. Chilton veio visitar Mr. Pendleton e que
eles estavam a conversar na biblioteca. Compreende isso?
         -- Sim, Jimmy -- a voz de Miss Polly soou um pouco sumida.
         -- Bem, a janela estava aberta e eu estava a arranjar um canteiro quando os ouvi
conversar.
         -- Oh, Jimmy! A escutar?
         -- Eu no tive culpa, no estava a escutar de propsito. Mas ainda bem que ouvi e h de
compreender quando eu lhe explicar. H de perceber porque  que isso pode fazer com que
Pollyanna volte a andar!
         -- Jimmy, o que quer isso dizer? -- Miss Polly inclinava- se ansiosamente para a frente.
         --  isso que eu lhe estou a tentar dizer. O Dr. Chilton conhece um mdico que talvez
possa curar Pollyanna e fazer com que ela volte a andar, mas no pode ter a certeza sem a ver
primeiro e est ansioso por v-la. Mas disse a Mr. Pendleton que a senhora no o deixava entrar.
         Miss Polly ficou muito corada.
         -- Mas Jimmy, eu no posso! Isto , eu no sabia! -- Miss Polly torcia os dedos
nervosamente.
         -- Sim,  por isso que eu venho aqui dizer-lhe para que saiba -- afirmou Jimmy ansioso.
-- Eles dizem, que por uma certa razo que eu no compreendi bem, a senhora no deixava o
Dr. Chilton entrar aqui em casa e que tinha dito isso ao Dr. Warren. E que o Dr. Chilton no
podia vir c por iniciativa prpria sem a senhora lho pedir, por causa do seu orgulho profissional.
E eles estavam a pensar em algum que lhe pudesse explicar, mas no sabiam como. E eu estava
do lado de fora da janela e pensei para comigo: "Pois ento, vou eu! Vou explicar  senhora". A
senhora percebeu?
         -- Sim. Mas Jimmy, esse mdico, quem  ele? O que j fez ele? Eles tm a certeza de que
podem fazer com que Pollyanna volte a andar?
         -- Eu no sei quem ele . No disseram. O Dr. Chilton conhece-o e ele j curou uma
outra pessoa como a Pollyanna. Mas no era com esse mdico que eles estavam preocupados. Era
com a senhora que eles estavam preocupados, porque no deixa o Dr. Chilton visit-la. Diga-me,
a senhora deixa-o vir ver a Pollyanna, no deixa? Agora que compreendeu tudo?
         Miss Polly virava a cabea de um lado para o outro. Estava um pouco ofegante e pareceu-
lhe que ela estava quase a chorar. Mas no chegou a chorar. Passado um minuto disse quase a
gaguejar:
         -- Sim. eu deixo o Dr. Chilton. V-la. Agora vai a correr para casa, Jimmy! Tenho que
falar com o Dr. Warren. Ele est l em cima.
         Um pouco depois o Dr. Warren ficou surpreendido ao encontrar Miss Polly muito
agitada e corada no hall. Ficou ainda mais surpreendido ao ouvir a senhora dizer um pouco
atrapalhada:
         -- Dr. Warren, em tempos pediu-me para autorizar que o Dr. Chilton viesse ver
Pollyanna e eu recusei. Entretanto, reconsiderei. Estava muito interessada em que o senhor
convocasse o Dr. Chilton.  capaz de lho ir pedir imediatamente, por favor? Muito obrigada.
                                                                                             91




                                      Um novo tio


        Da prxima vez que o Dr. Warren entrou no quarto, enquanto Pollyanna estava deitada
observando os reflexos do arco-ris no teto, um homem alto e de ombros largos seguia
imediatamente atrs dele.
        -- Dr. Chilton! Oh, Dr. Chilton, que contente eu estou por o ver! -- gritou Pollyanna.
Naquele quarto, ao ouvir este grito de alegria, mais de um par de olhos ficaram inundados de
lgrimas. -- Mas claro, se a tia Polly no quer...
        -- Est tudo bem minha querida, no faz mal -- atalhou logo Miss Polly agitada,
aproximando-se da cama. -- Eu disse ao Dr. Chilton que queria que ele te observasse com o Dr.
Warren, esta manh.
        -- Ah, pediu-lhe ento a ele para vir -- murmurou Pollyanna cheia de contentamento.
        -- Sim querida, eu pedi-lhe. Isto ... -- mas j era tarde de mais.
        A alegria que tinha de repente enchido os olhos do Dr. Chilton era inequvoca e Miss
Polly tinha percebido. Muito corada virou-se e deixou apressadamente o quarto. Junto  janela, a
enfermeira e o Dr. Warren falavam muito srios. O Dr. Chilton estendeu as duas mos a
Pollyanna.
        -- Minha menina, acho que uma das coisas que podem dar mais contentamento a algum
foi o que fizeste hoje -- disse ele com a voz trmula de emoo.
        Ao crepsculo, uma tia Polly maravilhosamente diferente, chegou-se para junto de
Pollyanna. A enfermeira estava a jantar. As duas estavam sozinhas no quarto.
                                                                                              92

        -- Pollyanna, minha querida, vais ser a primeira pessoa a saber. Um dia, vais ter o Dr.
Chilton como tio. E foste tu que conseguiste isso tudo. Oh, Pollyanna, estou to contente! Estou
to contente, minha querida!
        Pollyanna comeou a bater as palmas, mas parou.
        -- Tia Polly, era a senhora que ele queria h tantos anos? Tenho a certeza que sim! E era
isso que ele queria dizer quando disse que eu, hoje, tinha conseguido dar o maior contentamento
da minha vida. Estou to contente! Estou to contente que agora j nem me importo com as
minhas pernas!
        A tia Polly conteve um soluo de choro.
        -- Talvez, algum dia, querida...
        Mas a tia Polly no concluiu. No se atreveu, ainda, a contar as grandes esperanas que o
Dr. Chilton lhe tinha transmitido. Mas disse o seguinte que soou maravilhosamente aos ouvidos
de Pollyanna:
        -- Pollyanna, para a semana vais fazer uma viagem. Vamos transportar-te
confortavelmente at um grande mdico que tem uma grande clnica a muitos quilmetros daqui
e que se dedica especialmente a pessoas com a tua doena.  um grande amigo do Dr. Chilton e
vamos ver o que ele pode fazer por ti!




                            Uma carta de Pollyanna


                                  Querida tia Polly e tio Tom

         J consigo andar! Hoje caminhei desde a cama at  janela. Foram seis passos. Como 
bom estar outra vez de p! Os mdicos e enfermeiras estavam todos ali a assistir. Uma senhora da
enfermaria ao lado, que andou pela primeira vez h uma semana, espreitava tambm  porta e
outra que tem esperanas de poder voltar a andar para o ms que vem, foi convidada para a festa.
At Tilly, a mulher da limpeza olhava atravs da janela e dizia: "Linda menina!" quando
conseguia deixar de chorar. No percebo porque  que eles choravam. Eu s me apetecia cantar e
gritar! Imaginem s, posso andar, posso andar!
         No dou por mal empregue os dez meses que aqui passei e tambm no perdi o vosso
casamento. A tia Polly foi muito querida em vir casar-se mesmo ao lado da minha cama para eu
poder assistir. A tia lembra-se sempre das coisas que me do maior contentamento.
         Eles dizem que em breve poderei ir para casa. Quem me dera poder ir a andar at a:
Tenho a impresso de que nunca mais quero andar de carro. Vai ser to bom andar. Estou to
contente! Estou to contente por tudo. Agora at estou contente por durante um tempo no ter tido
as minhas pernas, pois s agora lhes dou o verdadeiro valor. Amanh vou andar oito passos.
         Muitos, muitos beijos
                                                                                                     93



                                              Pollyana.




                                                FIM




Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de
facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a
oportunidade de conhecerem novas obras.
Se quiser outros ttulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazer
receb-lo em nosso grupo.
